Texto produzido por estudantes da EMEF José Pegoraro. Supervisão: Aline Rodrigues. Edição: Vênuz Capel
A Represa Billings, um dos principais reservatórios de água da Região Metropolitana de São Paulo, carrega muito mais do que paisagem. Para quem vive nas suas margens, os impactos da poluição não são abstratos: eles aparecem no cheiro, na saúde, na água que chega em casa e nas condições de vida no território.
Difícil esse fato sobre um reservatório que abastece as cidades do Grande ABC (São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema), além de parte de São Paulo e municípios como Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
Mas afinal, o que está chegando na represa?
A água recebe diariamente uma mistura de resíduos que inclui esgoto doméstico, lixo urbano, resíduos industriais e contaminantes invisíveis. Em muitos pontos, também há a presença de algas, resultado de um processo chamado eutrofização, que indica o excesso de matéria orgânica na água.
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Na prática, isso se traduz em objetos e materiais descartados de forma irregular: garrafas PET, sacolas plásticas, embalagens, móveis velhos, eletrodomésticos como geladeiras e televisores, pneus, peças de carro e restos de construção. Tudo isso acaba, direta ou indiretamente, dentro da represa.
Além do lixo visível, o esgoto é um dos principais problemas. O lançamento irregular de resíduos domésticos e industriais contribui para o mau cheiro, a coloração esverdeada da água e o aumento dos riscos à saúde da população.
De água limpa ao cenário atual
Nem sempre foi assim. Antes da intensa urbanização, a região era marcada pela presença de Mata Atlântica nativa, com águas limpas utilizadas para lazer, pesca e até natação.
Hoje, o cenário é outro. O crescimento desordenado, com a expansão de loteamentos irregulares e áreas industriais, pressiona diretamente a represa. A falta de saneamento básico e de infraestrutura adequada agrava ainda mais o problema. São mais de 1 milhão de pessoas vivendo em suas margens, o que desafia a preservação da qualidade da água.
Por que isso continua acontecendo?
A poluição da Billings não tem uma única causa. Ela é resultado de uma combinação de fatores: ausência de coleta de lixo em algumas áreas, falta de saneamento, descarte irregular, pouca conscientização ambiental e até o impacto das chuvas, que carregam resíduos das ruas para córregos e rios que deságuam na represa.
No fim, o problema estrutural recai sobre quem vive nesses territórios.
Os efeitos são sentidos todos os dias. O mau cheiro pode causar náuseas, dores de cabeça e dificuldades respiratórias. Muitas vezes, moradores evitam abrir as janelas ou utilizar áreas externas de suas casas.
A qualidade da água também é afetada, com alterações no gosto e no odor, o que gera desconfiança no consumo. Além disso, há impactos econômicos e sociais, como a desvalorização da região e o aumento do estresse e da sensação de abandono.
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E de quem é a responsabilidade?
A gestão da água e do saneamento envolve diferentes atores. A Sabesp, por exemplo, é responsável por atividades como captação, tratamento e monitoramento da água, além da coleta e tratamento de esgoto.
Também existem políticas públicas voltadas à preservação dos mananciais. No entanto, sem fiscalização efetiva, investimento contínuo e políticas integradas, essas ações não conseguem dar conta da complexidade do problema.
A resposta vem do território
Apesar dos desafios, as soluções também nascem nas margens da represa.
Moradores, coletivos e organizações locais realizam mutirões de limpeza, promovem ações de educação ambiental e desenvolvem projetos culturais e esportivos que fortalecem o vínculo com o território. São iniciativas que mostram que é possível construir outras relações com o meio ambiente, baseadas no cuidado e na participação.
Juventude, comunicação e justiça climática
A Periferia em Movimento realizou a oficina “Repórter da Quebrada no Clima” com foco em letramento climático e produção de conteúdo jornalístico sobre temas relacionados à crise climática, a partir das vivências da turma. Este conteúdo, também publicado em nossas redes, foi produzido por adolescentes da EMEF Padre José Pegoraro, no Grajaú, Zona Sul de São Paulo, que investigaram sobre como a Mata Atlântica se faz presente no território onde moram.
Porque falar de clima também é falar de desigualdade, acesso a direitos e território. E quando a juventude ocupa esse debate, a comunicação se transforma em ferramenta de mudança.
A atividade faz parte de uma iniciativa do Planeta Território, projeto do Território da Notícia com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), que reúne mídias periféricas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para debater adaptação climática e o uso de tecnologias no jornalismo independente.







