(Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Vozes periféricas que ecoam – e as vozes que ainda não são ouvidas

A voz da MC Gabi ecoou na última sexta-feira (12 de junho) pelo Largo da Batata, em Pinheiros, zona Oeste de São Paulo.

Cantando sobre machismo e pedofilia, ela venceu o “adversário” Lucas Félix na Rinha de MCs, uma batalha de improviso em que rappers rimam a partir de temas sugeridos pela plateia, que também julga quem se saiu melhor.

“O grande lance da Rinha é evitar palavrões, ataques à religião ou sexualidade de alguém”, explica Tiago RedNiggaz, 34, que escreve desde os 13 anos de idade, frequentou a Casa do Hip-Hop em Diadema durante a adolescência e desde 2008 participa da Rinha dos MCs.

“Comecei a batalhar porque semprei gostei de improviso dos repentistas e emboladores no centro da cidade, que narram o que está acontecendo no momento e interagem com as outras pessoas”.

Hoje, RedNiggaz colabora com a organização do evento, que surgiu nos anos 2000 no Extremo Sul de São Paulo, em festas de amigos que fazem parte do movimento hip hop. A “brincadeira” organizada pelo rapper Criolo e o DJ Dandam ganhou proporção, rompeu as barreiras territoriais e hoje acontece, de forma esporádica, do centro paulistano a outros pontos do País.

Na semana passada, a Rinha dos MCs aconteceu no encerramento da Massa Revoltante, uma série de workshops, aulas-performance e ensaios promovida pela organização alemã Goethe-Institut em São Paulo. Clique aqui e leia a cobertura completa do Periferia em Movimento.

“O interessante dessa semana foi ver como se forma essa massa, essa união para as coisas se transformarem”, analisa Isabel Hölzl, coordenadora de programação cultural do instituto, para quem a Massa Revoltante foi uma junção de pessoas, ideias e conexões sobre como a arte pode apoiar ações de resistência.

A série faz parte do projeto Episódios do Sul, que busca visões e contribuições do Sul na arte, na ciência e na cultura, em um contexto de crescente globalização, e teve como tema a “música de protesto”. Não por acaso, as manifestações culturais afro-indígena-periféricas tiveram destaque na programação.

“Qualquer expressão artística vem da indignação e angústia do artista diante de alguma coisa, que pode ser o que acontece na sua comunidade ou uma relação amorosa. É algo que gera inconformismo da pessoa, e a arte tem isso por natureza”, acredita RedNiggaz. “Despertar a consciência é um processo muito complicado, e uma das funções da arte é a fazer as pessoas despertarem para algo que elas ainda não conseguem enxergar”.

De volta ao Extremo Sul de São Paulo, o coletivo feminista Mulheres na Luta utiliza a arte para protestar contra o patriarcado.

Em maio, o grupo promoveu em um escadão no distrito do Grajaú o “Grafitaço Feminista Top 10″, uma reação à exposição de fotos íntimas e xingamentos de meninas em mídias sociais, que consiste em fazer montagens de fotos das vítimas e classificá-las como “as 10 mais vadias” da escola, por exemplo.

Os vídeos circulam pelos celulares dos colegas de sala, viralizam nos grupos do WhatsApp, ultrapassam os portões do colégio e ganham as ruas com pixações. Algumas adolescentes abandonam as aulas e se confinam em casa. Em março deste ano, apenas na região do Grajaú, quatro delas teriam se suicidado.

O barulho em torno do assunto pode resultar em uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo. Mas ainda é preciso mais.

“A voz da mulher afrobrasileira periférica não ecoa com a mesma intensidade de outros contextos, uma vez que essa mulher não está inserida no modelo de padrão que é imposto pelo sistema. Um processo histórico que se perpetua por gerações”, aponta Aline Maria Spaka, integrante do Mulheres na Luta, que participou de um encontro na Ilha do Bororé dentro da programação da Massa Revoltante.

“Para garantir uma ressonância maior dessas vozes, é preciso fomentar mais discussões e enfrentamentos contra o machismo; e valorizar as vozes existentes, que passaram e passam pelas barreiras cotidianas do patriarcado, se desprendendo das correntes da opressão, da discriminação, do preconceito, enfim, de todas as agressões que a mulher sofre”, completa ela.

Para o músico, agente cultural e professor Alan Zas, que também vive na região, ao contrário da cultura de massa essas manifestações culturais alternativas têm o poder de conectar as pessoas a suas raízes ancestrais de resistência – como é o caso da capoeira ou do coco, originários de nossa matriz africana.

“Quando ressonadas, essas vozes possuem uma força muito particular, e se bem articuladas com as vozes do presente, são um grande instrumento de reconstrução de identidade, autoestima e sobrevivência”, ressalta Alan, para quem esse impacto acontecerá quando conseguir romper as barreiras da mesmice e do vazio da cultura dominante.

“Esse ressoar virá como antídoto, produzido dos que sempre estiveram do lado de cá, sabendo e dizendo, e chegando pouco a pouco nos do lado de lá que, então, se surpreendendo, dirão: ‘Porra, esses caras fazem, cantam, sabem, sentem isso? Uou, precisamos ouvi-los!’. E isso já está acontecendo”, completa Alan.

E que sua profecia se concretize inteiramente.