Pelo direito à moradia, ocupação Aristocrata se expande e resiste Moradores ocuparam um segundo terreno dias antes da Reintegração da área onde estão há quatro anos no Grajaú.

Durante a Greve Geral do dia 28 de abril, movimentos populares saíram em marcha contra as reformas do da previdência e trabalhista, entre outros retrocessos do atual Governo Federal. No Extremo Sul de São Paulo, os movimentos de luta por moradia ocuparam as ruas para mostrar sua resistência, e foi nessa ocasião em que os moradores da ocupação do Aristocrata ocuparam uma nova área, nas proximidades da Universidade Ibirapuera da avenida Interlagos, Zona Sul de São Paulo.

Para relembrar: a ocupação do Aristocrata (também conhecida por Unidos para Vencer) é formada por moradores que, sufocados pela especulação imobiliária que vem dos centros às periferias, ocuparam o terreno em julho de 2013. O terreno no Grajaú já foi sede do Aristocrata Clube e hoje é uma área da Prefeitura. Como mostramos nessa reportagem, logo após o início do mandato de João Doria, a ocupação recebeu o pedido de reintegração de posse da Subprefeitura Capela do Socorro para o dia 9 de fevereiro. Na ocasião, os moradores resistiram e conseguiram fechar um acordo de mais 60 dias de negociação com a Secretaria de Habitação de São Paulo. Durante esse tempo, a prefeitura encontraria uma maneira de garantir às 250 famílias o direito à moradia digna.

Após 60 dias, a reintegração de posse continua marcada para o dia 18 de maio,

e em quase dois meses de diálogo com a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), o novo projeto de moradia para as famílias ocupadas ainda não passou de um mero acordo. Por outro lado, a reintegração de posse é uma realidade cada vez mais próxima.

No dia 4 de maio, tratores e caminhões da Prefeitura de São Paulo foram ao terreno da ocupação Aristocrata no Grajaú para tentar desocupar a área. Foto enviada por morador.

O dia 18 de maio ainda nem chegou, e os tratores de demolição da prefeitura já passaram por lá para dar as caras 15 dias antes do prazo. Se não fosse a resistência de quem estava no terreno no momento, a prefeitura já teria derrubado os barracos naquela ocasião.

Novo terreno

Das 250 famílias que moravam no terreno do Aristocrata, algumas se encaminharam para morar de favor em casas de parentes, pressionadas risco de perder tudo. Muitas famílias ainda moram no local, na altura do número 1440 da Avenida Belmira Marin, no Grajaú.

Lá, construíram seus quartos, salas e cozinhas. Lá, tambem reformaram o campo de futebol para adultos e crianças poderem jogar bola. Não tinham garantia à água encanada, esgoto, registro de moradia, mas de um jeito ou outro, construíam suas moradas. A história da ocupação do Aristocrata em 2013 pode ser vista nessa reportagem.

Perguntada sobre a solução encontrada pela Prefeitura para a situação dessas famílias, a Secretaria de Habitação respondeu ao Periferia em Movimento que

Foi acordado em assembleia dos moradores e homologado perante  juiz que estes sairiam voluntariamente da área em um prazo de 60 dias, sendo que a Prefeitura cadastraria as famílias e verificaria as situações de maior vulnerabilidade e discutiria alternativas habitacionais de médio e longo prazo para as famílias. Não havia acordo de pagamento de auxílio aluguel.  A PMSP realizou o cadastro, indicou as famílias para a entidade que vem licenciando um projeto habitacional na região e estudou a viabilidade técnica de alguns terrenos apresentados pelos moradores como opção para iniciar um projeto habitacional via Programa MCMV-Entidades. Como resultado destas ações, até o momento cerca de 140 famílias deixaram o local pacificamente.

(Resposta da Assessoria da Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo.)

Portanto, a Secretaria de Habitação exige que até o dia 18 de maio, o terreno do Grajaú fique sem nenhum morador para que as máquinas entrem em ação (no terreno, será construído um Parque Linear).

Para não irem para a rua, a forma encontrada foi ocupar um novo terreno. Cerca de 50 famílias já ocupam o novo terreno, algumas vindas da ocupação Aristocrata do Grajaú, outras que moravam nas ruas da região.

Completados 10 dias no novo local, moradores já se organizaram em comissões para que tudo seja feito de maneira organizada. Existe a comissão de medição dos lotes, a de crianças, de segurança, e todos usam uma mesma cozinha comunitária. Mas os moradores frisam que uma ocupação não exclui a outra. O ideal, já que o terreno do Grajaú é público, seria que a Prefeitura criasse um projeto de moradia ali mesmo.

A nova ocupação acontece em um terreno que é particular, de posse da Empresa Savoy (Imobiliária e Construtora), e estava com IPTU atrasado. Segundo os moradores, o mato estava alto e os portões estavam inclusive sem trancas, o que revelaria o estado de abandono.

Pegar um busão e chegar em 40 minutos ao centro é um privilégio que aqueles moradores não tinham no Grajaú. “É bom pra a gente e bom pra Prefeitura, que quer desafogar a região de beira de represa”, afirmam moradores. A área da ocupação antiga era parte de APA (Área de Proteção Ambiental), e o terreno recém-ocupado é uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social). Isso, entre outras informações, foram dadas pelos diversos representantes de órgãos da Prefeitura que já foram visitar o local e conversar com moradores.

Nova vizinhança

A nova ocupação fica cercada por condomínios de prédios e dá de costas com a Favela da Coreia. Enquanto moradores das favelas do entorno demonstraram apoio à ocupação, os dos prédios em volta se incomodaram. Logo na primeira semana, foi criado um abaixo assinado que cita “prejuízos” causados pela nova ocupação: “ressaltamos que moradores estão preocupados com essa invasão, porque várias áreas residenciais e comerciais serão prejudicadas com essa ocupação, tendo desvalorização dos seus imóveis e possível aumento da criminalidade”.

A nova vizinhança reflete as desigualdades de moradias em São Paulo: O muro do terreno faz fronteira com uma favela e com um condomínio de prédios. Foto: Periferia em Movimento.

Mas a líder da Associação de Moradores, Cíntia Castilho, ressalta que não se pode atrelar uma ocupação por moradia à criminalidade. “Estamos aqui pelo nosso direito a ter onde morar, onde viver, quem agora vive nesse terreno são famílias, muitas com crianças, que não teriam outro lugar para morar”, conta Cíntia.

Resistência

A única resposta que a Sehab dá aos moradores continua sendo a inscrição no cadastro municipal. Entrar na fila e esperar para ver se algum dia serão contemplados. O cadastro dos moradores por parte do poder público nas reintegrações de posse busca compor a lista de demanda oficial do município e analisar os casos de maior vulnerabilidade” (Resposta da Secretaria de Habitação ao Periferia em Movimento).

Na manhã dessa segunda-feira, 08 de maio, os moradores da ocupação compareceram à Sehab para Reivindicar o direito à moradia.

Conheça outras ocupações que estão resistindo no Extremo Sul na reportagem Ocupações do Extremo Sul de São Paulo resistem a partir da união.