Na quebrada, stand up comedy contra a opressão

 

– Alô, é da pizzaria?

– Não, senhor. É da Uniban.

– Ah, desculpa. Foi engano.

– Não adianta desligar, senhor. Sua matrícula já está efetuada.

 

Assim, o humorista Serginho Poeta conta como ingressou no curso de História da Universidade Bandeirantes (Uniban – atual Anhanguera), com ensino superior de qualidade duvidosa e voltado principalmente a universitários de origem popular. Por meio de piadas como essa, ele procura fazer o público rir e pensar.

Mas, antes de fazer humor, desde 2001 Serginho já escrevia. Foi em 2007 que ele conheceu o stand up comedy (estilo de show de humor em que o humorista faz piada sobre assuntos diversos, sem auxílio de elementos de palco), que chegou com força dos Estados Unidos. As primeiras apresentações de Serginho aconteceram nos saraus promovidos por Binho, seu cunhado.

Mas esqueça o estilo de Danilo Gentilli e Rafinha Bastos, principais nomes do stand up no Brasil, que ganharam notoriedade muitas vezes com comentários racistas, machistas ou homofóbicos.

Não consigo fazer piada sobre negro, nordestino, enfim, sobre minorias. Não vejo graça”, diz Serginho, que tem como exemplo o norte-americano Chris Rock, criador do seriado Todo Mundo Odeia o Chris. “Eu uso muito a piada contra a classe média, para tirar mesmo, o que é até mais difícil de se fazer”.

Morador da zona Sul de São Paulo, Serginho se inspira no cotidiano das periferias. A escola que faz o estudante odiar os livros, a criminalização da maconha e as ações policiais são algumas fontes:

 

– Ali no Parque Santo Antônio, é bem arejado. Acho que é por causa do helicóptero da polícia, que voa baixo. Minha mulher até gosta porque seca as roupas no varal rapidinho.

Em setembro, Serginho deve lançar com outros humoristas do stand up um canal de vídeos no Youtube. Mas ele ainda não consegue viver da arte e divide parte do tempo com o trabalho como professor em uma escola tradicional – onde usa o humor como ferramenta de ensino.

Ainda não existe stand up nas periferias, então os shows que faço sempre são em lugares frequentados pela classe média. Mas minhas piadas são sobre o que acontece na quebrada, então nem sempre eles se identificam”, diz.

Nesta sexta (29 de agosto), porém, uma semente foi plantada na Chácara Santana, também na zona Sul. Serginho participou com o poeta cearense Costa Senna, que faz shows de humor mais convencionais, de um stand up no Bar do Zé Batidão, onde semanalmente acontece o Sarau da Cooperifa.

O evento fez parte da programação do Encontro Estéticas das Periferias, realizado pela ONG Ação Educativa, e pode ter continuidade. “Quem sabe, uma vez por mês a gente não faz isso…”, considerou Zé. Enquanto isso, o riso continua…:

 

– Eu tava numa lotação voltando pra casa, quando teve um assalto e o ladrão mandou todo mundo ficar quieto e ir se juntando no fundo. O pior não foi isso, mas sim depois que ele desceu e o cobrador olhou pra todo mundo e disse: “Não falei que dava pra dar mais um passinho pra trás?”

Cobertura Colaborativa Estéticas