Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

Na periferia de São Paulo, pessoas viram bichos e inventam línguas

Gato, rato, macaco, leão e até um jacaré tomaram o tablado do teatro da Associação Comunitária Monte Azul, no Jardim São Luiz, zona sul de São Paulo.

Na tarde do último sábado (20 de julho), cerca de 20 artistas incorporaram o comportamento de diferentes animais na Oficina de Dramatização Corporal, que integra a programação da 21ª Mostra de Teatro Monte Azul.

‘Trabalhar o corpo é fundamental porque o que o ator tem a explorar é o corpo e a voz”, explica Cristiane Urbinatti, que faz parte da Companhia Sombria, responsável pela oficina. “Quando eu coloco movimentos do dia a dia na cena, o corpo vira uma paleta e eu não preciso saber da cor, credo ou classe social para compor um personagem”, continua.

“O fato de conhecer o corpo dá uma forma natural, espontânea, aos movimentos”, atesta Thiago dos Santos Silva, morador de 26 anos do Jardim Fraternidade, que desde 2010 compõe o grupo de teatro da associação.

Após compreender esses elementos, os participantes utilizaram as características dos animais para montar cenas teatrais. Parte dessa reflexão também passa pela capacidade de contar uma história sem necessariamente falar. E quando há essa necessidade, eles podem utilizar o “Gramelô”, uma língua que não existe. A técnica, que consiste em usar diversos ruídos em vez de palavras, teria sido inventada por atores italianos no final do século 16, após serem banidos dos teatros de Paris.

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Mostra de Teatro

Oriunda da região central de São Paulo, Cristiane foi convidada por ex-alunos para ministrar a oficina no Monte Azul – e se diz surpresa com a quantidade de manifestações culturais existentes na periferia paulistana.

“O que tenho achado mais legal é que na periferia existem diversos pontos de cultura, mais do que no centro, que trabalham com a formação de público e artistas”, diz ela.

Entre os movimentos que acontecem na quebrada, está a Associação Comunitária Monte Azul, que agora realiza sua 21ª Mostra de Teatro Monte Azul desde o dia 19 de julho e se estende até o próximo final de semana.

“Quando eu entrei aqui, era muito tímida, retraída, e o teatro me abriu portas, me ajudou a ser desinibida”, encerra a advogada Priscila Brandão, moradora de 28 anos do Jardim Crisália, que participou do grupo de teatro entre 2000 e 2012.