Muito além do desfile: Escola de samba debate discriminação e faz projetos sociais no Grajaú

Com fantasias de garrafa PET e um enredo sobre a importância da reciclagem, a escola de samba Em Cima da Hora ficou apenas em quarto lugar na disputa com outras sete agremiações do Grupo 4 da União das Escolas de Samba de São Paulo (UESP), no Carnaval de 2015.

Mas a posição modesta na última divisão do Carnaval paulistano não intimida os mais de 2 mil componentes do grupo, que em 14 de fevereiro viajaram do Jardim Marilda, bairro do distrito do Grajaú (Extremo Sul), para desfilar na Vila Esperança, zona Leste da cidade.

“Temos que passar nossa mensagem na avenida”, ressalta Jair Santos, 42 anos, fundador e presidente da Em Cima da Hora.

Entre as “mensagens” cantadas em outros carnavais, a Em Cima da Hora já abordou temas como a questão do negro no Brasil, a importância das cotas raciais nas universidades e, em 2014, o combate à homofobia.

É sobre esse trabalho que vamos falar em mais uma reportagem do “Cultura ao Extremo”, projeto realizado com apoio do programa Agente Comunitário de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que tem o objetivo de mapear e visibilizar as manifestações culturais no Extremo Sul. Para saber mais e participar também, clique na imagem abaixo ou responda ao questionário no final da matéria.

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Outros carnavais

Jair começou a sambar ainda criança, quando morava no bairro da Bela Vista e acompanhava o pai nos ensaios da Pérola Negra.

Em 1975, entrou para a Mocidade Alegre, no bairro do Limão, onde permaneceu por 23 anos e atuou como empurrador de alegoria, diretor de harmonia, comissão de frente e chefe de ala. Em 1990, Jair se mudou para o Grajaú após conhecer Miriam num terreiro de canbomblé e se casar com ela.

Oito anos depois, o abandono da população local pelo poder público, a desilusão com as grandes agremiações e o apoio de amigos e familiares foram um impulso necessário para que ele fundasse uma escola de samba na região.

Com a experiência acumulada de outros carnavais, Jair envolveu a mulher e os seis filhos nos projetos do Grêmio Recreativo Cultural e Beneficente Escola de Samba Em Cima da Hora – nome oficial da agremiação.

Também é responsável por formar ou articular professores para novos músicos e passistas. Mas a escola não se restringe apenas ao Carnaval.

Quando o desfile termina e chega a Quarta-feira de Cinzas, o espaço passa a abrigar aulas de samba-rock, axé, sertanejo, oficinas de artesanato, shows de rap, entre outras manifestações culturais. Crianças e adolescentes são os principais beneficiários.

A Unidade Básica de Saúde do bairro também utiliza a quadra da escola de samba para mutirões de atendimento, festas para pacientes em acompanhamento e palestras sobre temas como gravidez na adolescência.

“A gente ainda faz muito pouco porque não tem ajuda de ninguém do poder público”, diz Jair, que se nega a aceitar propostas de apadrinhamento político. “O poder público poderia se aproveitar da articulação dessas pequenas escolas de samba nas periferias para desenvolver projetos”.

A instituição também toma a frente em diálogos com órgãos públicos como a Sabesp (sobre os constantes cortes de água no Jardim Marilda) ou Anatel (sobre a falta de acesso à internet).

“O Jardim Marilda é um bairro dormitório. As pessoas saem de manhã para trabalhar e voltam à noite. Então, enquanto organização, somos nós que temos que dar a cara à tapa”, ressalta Jair, crítico ao balcão de negócios e politicagem que se tornou o Carnaval convencional.

Além dos R$ 800 mil recebidos da Prefeitura de São Paulo, as escolas que desfilam no Grupo Especial recebem R$ 600 mil da Rede Globo pelos direitos de transmissão na televisão – fora os ingressos cobrados para entrar nos ensaios ou as camisetas e fantasias vendidas aos foliões interessados em sair no sambódromo.

Enquanto isso, boa parte das mais de 60 escolas afiliadas à UESP contam com poucos recursos para realizar um desfile. A Em Cima da Hora, por exemplo, recebeu apenas R$ 25 mil da SPTuris (empresa da Prefeitura responsável pela organização do Carnaval), mas gastou R$ 64 mil. Foram feitas rifas, festas, vaquinhas e até um carro precisou ser vendido para pagar a conta.

Endividado e com muito trabalho por fazer, a uma semana do desfile Jair dormia no máximo três horas por noite, fumava inveteradamente e vivia sua “tensão pré-carnaval”. Mas estava feliz.

“Escola de samba tem que fazer projeto social o ano inteiro. As pessoas precisam se entupir de cultura”, completa. “Não me arrependo nenhum milímetro de fundar a Em Cima da Hora”.

Tudo sobre…
Gremio Recreativo Cultural e Beneficente Escola de Samba EM CIMA DA HORA
Região de atuação: Jardim Marilda – Distrito de Grajaú
Linguagens: Artes integradas, Dança, Samba, Saraus, Artesanato, Oficinas
Temas abordados: Arte e cultura, Culturas populares, Culturas afrobrasileiras
Público principal: crianças e adolescentes
Critérios de participação dos projetos: Grau de vulnerabilidade social, Renda familiar
Com quem se articula: Artistas locais e de outras localidades, Escolas públicas, Escolas particulares, Entidades do terceiro setor locais e de outras localidades, Famílias, Fóruns de discussão, Líderes comunitários, Líderes religiosos, Movimentos sociais
Contatos: (11) 59380518; [email protected]; ou pelo Facebook
Como se mantém: Recursos próprios, Venda de produtos e serviços, Ajuda da comunidade, Doações
Maiores dificuldades enfrentadas no dia a dia: Recursos financeiros, Recursos humanos, Recursos materiais, Espaço físico para atuação, Divulgação, Apoio da comunidade, Apoio do poder público, Apoio de empresas, Infraestrutura no entorno

  • Jair Santos

    Agradecemos a matéria e nos colocamos a disposição dos formadores de cultura da Capela do Socorro/ Grajau e Parelheiros para parcerias q visem trazer cultura para nossa comunidade.