Texto por Thiago Borges. Idealização, pesquisa e reportagem por Lucimeire Juventino. Roteiro: Thiago Borges. Edição de vídeo por Pedro Ariel Salvador

Na borda da cratera de Colônia, aonde 36 milhões de anos atrás caiu um meteoro, fica o sítio de Maria do Carmo Firmino. Aqui, há 40 anos ela planta alface, quiabo, coentro e brócolis sem veneno.

Como ela, a região de Marsilac e Parelheiros (no Extremo Sul de São Paulo) abriga mais de 200 pequenos agricultores que ajudam a abastecer a mesa de milhares de paulistanos todos os dias – geralmente, sem o devido reconhecimento. E como ela também, muitos são negros, migrantes, não tiveram acesso aos estudos, nem direitos trabalhistas.

“Eu sou uma trabalhadora. Eu não tenho estudo, não paguei o ‘INPS’, mas eu tenho meus direitos de uma cidadã. Eu não fui pra faculdade, não fiz nada. Mas eu vivo da terra, eu vivo do suor”, reivindica Maria do Carmo, que aos 64 anos não deixa se abater.

“Eu falo para todas as lavradoras, as ‘Marias’, as que moram na favela, no brejo, no sertão: não pode desistir de nada”.

Neste mês da Consciência Negra, Maria do Carmo é a nona entrevistada de “Matriarcas”. Idealizada pela escritora e professora Lucimeire Juventino e realizada pela Periferia em Movimento, nesta série de reportagens contamos histórias de mulheres que cavaram os alicerces de lutas por direitos que continuam fortes até os dias de hoje.

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Maria do Carmo Firmino nasceu em 1955, em Belém do Pará. Ajudava a mãe em trabalhos na cozinha quando, aos 13 anos, uma mulher rica paulista em viagem pela região percebeu seus dotes domésticos e quis trazê-la para Guarulhos prometendo dar a ela educação e uma boa vida.

“Eu lembro como se fosse uma estrada como essa. É muito triste perder sua mãe. Eu vim para São Paulo sem eira nem beira, confiando naquela mulher (…) Mas eu não me revoltei porque, se minha mãe me deu [para outra pessoa], é que alguma coisa ela sentiu pra me mandar pra cá”.

Maria do Carmo, em prantos

Desde então, Maria do Carmo não retornou mais à terra natal. Sem nunca ter frequentado a escola e explorada nos trabalhos de casa, aos 19 anos ela fugiu com o então namorado com quem está casada até hoje e tem 05 filhos. A família dele tinha uma roça em Embu Guaçu e foi na lida da terra que Maria do Carmo descobriu uma vocação.

Sem propriedade, o casal trabalhava nas plantações dos outros – sempre pela região Extremo Sul de São Paulo –, até que um amigo os chamou para ajudar na colheita de chuchu em um sítio em Marsilac. Antes de morrer, sem ter quem para quem deixar herança o patrão passou o sítio para Maria do Carmo e a família. Desde então, ela planta pela própria subsistência e ainda vende pra fora.

Durante anos, a família forneceu produtos pro Ceagesp e para sacolões da região, mas o trabalho não compensava. Maria do Carmo se informou, então, na Subprefeitura de Parelheiros e fez o cadastro para começar a vender em feiras livres – foi um desafio, mas também uma virada em sua vida. Sem banca para expor os produtos e com uma kombi velha que ela e o marido mal sabiam dirigir, começaram a vender em Parelheiros, Grajaú, Jardim Mirna.

“Quando você consegue se livrar daquilo que tá te sufocando é a maior alegria”, conta ela, relembrando da primeira feira que fez na vida.

Maria do Carmo lamenta não ter conseguido se aposentar pelo critério de idade, pois não contribuiu tempo suficiente para a Previdência Social, e espera completar os 65 anos para procurar o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e solicitar o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que garante um salário mínimo a idosos pobres.

A agricultora também sai pouco a lazer. Fora o trabalho, o único compromisso é o culto dominical. “Pego o ônibus, vou até Parelheiros, curvo a pracinha e já to dentro da igreja”, explica ela, que é obreira na Igreja Mundial do Poder de Deus.

Ainda assim, na própria congregação ela sofreu racismo de outras irmãs. Por conta disso, mudou o horário de culto que frequentava. “Eu não vou deixar a minha feira de domingo pra ser humilhada na igreja. Faço a feira e depois vou no culto das 15h, que é quando vão os mais humildes”, diz.

A casa onde mora é simples, mas é aqui que Maria do Carmo edificou sua vida. “A terra é nossa mãe. Ela nos dá tudo”. Com o mesmo respeito que tem à terra, trata seus iguais. Para ela o melhor momento do ano é o Natal, quando reúne a família numa ceia com mesa farta com os produtos que ela planta e colhe com as próprias mãos.

“Eu me sinto no céu porque é daqui que tiro meu queijinho, meu pão, minha manteiga, e ainda levo as coisas pras pessoas comerem gostoso, sem agrotóxico”

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