(Foto: Edu Graja)

Manifestantes ocupam SSP, secretário foge e grupos prometem novo ato contra genocídio Durante ato em homenagem a cinco jovens negros assassinados na Zona Leste, movimentos ocuparam saguão da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e exigiram presença do secretário. Mágino Alves apareceu, prometeu falar com manifestantes mas usou escolta policial para escapar da multidão. Novo ato acontece quinta que vem, dia 17

Por volta das 18h desta quinta-feira (10 de novembro), algumas centenas de pessoas ligadas ou não a movimentos negros, periféricos e de luta por direitos humanos se concentravam no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Ali estavam para homenagear os cinco jovens negros da Zona Leste desaparecidos há mais de duas semanas e cujos corpos foram encontrados no último domingo.

Depois de falas de representantes de movimentos, organizações e grupos religiosos, passava das 19h quando o ato saiu em uma curta caminhada até a sede da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), na rua Líbero Badaró, onde os manifestantes romperam uma pequena barreira policial e ocuparam o saguão do prédio. Veja o vídeo publicado na página da Rede Jornalistas das Periferias:

“Se Palmares não existe mais, faremos Palmares de novo”, bradavam os presentes.

Policiais cercaram as catracas, impedindo o avanço dos manifestantes, que exigiam a presença do secretário Mágino Alves Barbosa Filho para desocupar o prédio. Do lado de fora, a Tropa de Choque cercou quarteiros, enquanto do lado de dentro outros integrantes do Choque subiam as escadarias da secretaria.

Durante a espera, falaram militantes como Milton Barbosa (fundador Movimento Negro Unificado do Brasil, nos anos 1970) e Luana e Ângela, duas amigas de um dos cinco jovens executados.

“A gente sabe que isso foi uma grande emboscada armada para os nossos jovens. A Polícia não vai na periferia com políticas públicas. Não vai levar nenhum direito. Ela vai tirar eles da gente. Ela vai tirar nossa dignidade”, disse uma delas.

“Eu acredito friamente que foi a Polícia que matou eles. Eu acredito também que eles não são os últimos a morrer. Dói quando a gente olha algo de longe, quando um jovem morre. Mas quando bate na nossa porta, na porta do vizinho, a gente reconhece e entende que isso realmente existe. Era meu irmão de favela, meu irmão de quebrada”, disse a outra.

O Periferia em Movimento transmitiu ao vivo boa parte do ato. Confira:

Quando Mágino Alves apareceu, prometeu receber uma comissão de quatro manifestantes para protocolar reivindicações enquanto os demais sairiam do prédio em segurança, mas descumpriu o acordo pouco tempo depois. Cercado de policiais militares, forçou manifestantes para a rua, onde falou apenas com a imprensa e entrou novamente no prédio por uma porta lateral enquanto a da frente era cercada. Neste momento, sem bateria no celular, o Periferia em Movimento já não transmitia o ato ao vivo mas conseguiu registros fotográficos do parceiro Edu Graja:

(Foto: Edu Graja)
Mágino fala com representantes dos movimentos (Foto: Edu Graja)
(Foto: Edu Graja)
Depois, tenta passar pela multidão, que o chama de “assassino” (Foto: Edu Graja)

 

A página da Rede Jornalistas das Periferias transmitiu parte desse momento. Veja:

O militante Douglas Belchior, da rede de cursinhos populares Uneafro Brasil, explicou por que o prédio foi desocupado após a fuga de Mágino. Confira:

Movimentos protocolaram representação no Ministério Público com pedido de providências em caráter de urgência para reparar as famílias dos cinco jovens, além de acompanhar as ações requeridas pelo Condepe.

O documento chama atenção ainda às chacinas e casos de morte de jovens negros que se sucedem no Estado e à dor constante nas periferias, denuncia o racismo, a tortura e a violação de direitos humanos. Por fim, reivindica que o MP monitore a apuração e denúncia dos policiais suspeitos de envolvimento no caso e a responsabilização do Estado de São Paulo, na figura do governador Geraldo Alckmin e do secretário Mágino.

O ato desta quinta foi convocado por diversos movimentos e organizações, como Mães de Maio, #FrenteAlternativaPreta, Uneafro-Brasil, Núcleo de Consciência Negra na USP, Kilombagem, Coletivo Esquerda Força Ativa, Círculo Palmarino, Soweto Organização Negra, Revista Quilombo, Grupo Kilombagem, ONG Combat Social, Cedeca Sapopemba, Cedeca Interlagos, Frente Evangélica Pelo Estado de Direito, Coletivo negro da UFABC, Quilombo Cabeça de Nego, Coletivo Terça Afro, Fórum Municipal de Educação de Santo André, FFB – Frente Favela Brasil, Núcleo Reflexo de Palmares (Unifesp), Coletivo Enegrecer da USJT, Coletivo Dente de Leão, AEUSP – Associação de Educadores da USP, AMO Associação Mulheres de Odum e Espaço Cultural Caxueras – Cohab Raposo Tavares, #MAIS, Projeto Meninos e Meninas de Rua, Coletivo Negro Vozes – UFABC, entre outros.

O próximo ato acontece quinta-feira que vem (17 de novembro), mesmo horário e local.

Entenda o caso

Segundo reportagem do site Ponte Jornalismo, os corpos de César Augusto Gomes Silva, 19 anos, Jonathan Moreira Ferreira e Caique Henrique Machado Silva, ambos de 18, Robson Fernando Donato de Paula, 16, e Jonas Ferreira Januário, 30, foram encontrados em um matagal na Estrada Taquarussu, e

Velas acesas na porta da SSP (Foto: Edu Graja)
Velas acesas na porta da SSP (Foto: Edu Graja)

m Mogi das Cruzes (Grande SP). Os cinco amigos estavam desaparecidos desde 21 de outubro, quando saíram do Jardim Rodolfo Pirani (Zona Leste de SP), onde viviam, para uma festa na cidade de Ribeirão Pires (Grande São Paulo).

A última informação que a família teve a respeito do desaparecimento é um áudio que Jonathan mandou para uma amiga dizendo que havia sido parado pela polícia naquele dia: “Ei, tio. Acabo de tomar um enquadro ali. Os polícia tá me esculachando”. A Pontetambém revelou que os policiais militares consultaram os dados de dois dos cinco jovens que desapareceram.

Nos corpos encontros, já em estado avançado de decomposição, foram encontrados marcas de tortura. Um deles decapitado. Ao redor, cápsulas de munição .40 comprovadamente reconhecida como parte de um lote comprado pela PM-SP.