Literatura marginal vira tema de estudos na Argentina

Buenos Aires, 2006. A argentina Lucia Tannina acabara de se graduar em Letras.

Interessada em literatura brasileira, Lucia foi surpreendida em um seminário ministrado por Heloísa Buarque de Holanda, que falou de algo até então desconhecido por ela: moradores de bairros pobres de São Paulo estavam escrevendo e publicando seus próprios livros!

Nesse mesmo dia, ela ouviu falar de um tal “Sarau da Cooperifa”.

“Sarau era uma prática que havia sumido há mais cem anos no meu país”, contou Lucia, durante sua palestra no seminário “Estéticas das Periferias”.

Então, Lucia decidiu estudar essa literatura que ela não sabia existir. Não foi fácil.

Diferentemente dos livros publicados por grandes editoras, os livros marginais eram escassos; uma língua portuguesa que não conhecia, até então; um conceito novo de literatura, que tem um vínculo com o local onde acontece; e o questionamento dos outros acadêmicos, que queriam saber se essa literatura era de qualidade, tinha valor e estética.

Lucia só entendeu de fato que literatura é essa ao participar dos saraus. Foram mais de 20 entrevistas com organizadores, donos de bares e participantes.

As palavras não são apenas escritas. Elas têm corpo, dançam, e são influenciadas pelo ambiente – geralmente, os bares.

Um exemplo é a própria Cooperifa, que ficou famosa por conta de fórmulas coletivas como o silêncio e o aplauso a todos os poetas.

“Comecei a perceber como essas fórmulas começaram a se repetir em outros saraus, que foram se deslocando da periferia até chegar ao centro de São Paulo”.