Jornalistas da quebrada na Virada Sustentável

Com mais de 700 atividades realizadas em São Paulo entre os dias 28 a 31 de agosto de agosto, a Virada Sustentável ocorreu pelo quarto ano consecutivo. Com tantos eventos acontecendo simultaneamente, o desafio é contar ao mundo sobre todas as atrações disponíveis. Por isso, este ano coletivos de comunicação foram convidados pela organização do evento a se unirem para uma cobertura colaborativa.

Textos, vídeos e fotos foram produzidos desde o início de agosto até o final da Virada Sustentável por comunicadores independentes. Todo o conteúdo postado nas redes sociais com a hashtag #viresuacidade, foi automaticamente agregado em uma página disponível no site oficial através de uma plataforma programada em software livre de cobertura compartilhada.

“Se a Virada se pretende como guarda-chuva, hub, conector de ações, pessoas, coletivos, poder público e privado, não há nada mais lógico que o processo de comunicação – desde o pré-evento à cobertura – acompanhe tal premissa”, explica Carol Gutierrez, gestora de comunicação da VS 2014, que viu a cobertura colaborativa uma maneira de transformar a comunicação da Virada Sustentável em processo. “É um jeito de abrir espaços; vislumbrar futuros e formas de comunicar; abarcar a diversidade de linguagens, assuntos, opiniões. Ser de fato compartilhada”, explica.

Mariana Belmont, Agente Marginal do Projeto Imargem, projeto que atua no extremo sul de São Paulo às margens da represa Billings em função da área de preservação ambiental e da desassistência do poder público através de intervenções artísticas e realização de oficinas e debates, foi uma das parceiras envolvidas na cobertura e, junto com a Carol, abriu o convite para coletivos e pessoas que se sentissem confortáveis para participar. “A ideia de fazer a cobertura é expandir a participação dos coletivos de comunicação da quebrada, ou não, nas ações que são organizadas na borda, mostrar de verdade e falar de verdade”, diz.

Mariana diz antes enxergar a Virada Sustentável como uma ideia voltada para as pessoas do centro da cidade e que o diferencial deste ano foi a proposta de criar uma programação no Extremo Sul de São Paulo. A organização convidou o Imargem para cuidar dela. “Eles nos deram liberdade para cuidar da curadoria e atuar e falar em nome da Virada na borda de um jeito que a gente acredita para mostrar que a cidade pode ser de todo mundo e que as pessoas devem circular pelo centro, pela beirada e por tudo que é canto”, afirma.

Foi por esta proposta de programação na margem que o Periferia em Movimento, portal de notícias criado por moradores do Grajaú, zona Sul, e que produz notícias sobre a periferia, achou importante participar da cobertura. Considerando a Virada Sustentável um evento importante para discutir a preservação do meio ambiente, um dos criadores do portal, o jornalista Thiago Borges, observa que a ideia do evento vai além e busca discutir sobre os direitos à cidade e a relação das pessoas com ela e com si mesmas.

Para ele, este tipo de debate não visa a participação de moradores da periferia. “As decisões são tomadas no centro, seja qual for o assunto. Por isso, se inserir nesse debate da sustentabilidade é muito importante, porque também temos exemplos e soluções aqui na quebrada que poderiam influenciar a galera na região central”, explica.

A Rádio Orb21 focou a cobertura de eventos que aconteceram nos parques e nos centros culturais. Como uma rádio essencialmente colaborativa, de maneira ágil, enquanto um da equipe coletava áudios com entrevistas, outro editava e colocava no ar no site do coletivo. Lucas Covarcho acredita que trabalhar em colaboração é a nova realidade. “Ou damos as mãos e efetuamos a transformação através também da comunicação, ou correremos atrás de nossos rabos eternamente”, afirma.

O fotógrafo André Bueno, além de fotos também produziu alguns vídeos durante o evento e acredita que a cobertura colaborativa é uma maneira de potencializar objetivos em comum. Ele concentrou seu trabalho nas atividades realizadas no extremo sul. “Documentar a vida das pessoas me faz entendê-los mais e também a mim mesmo, uma vez que vivemos muito próximos, com objetivos, demandas e problemas em comum. Sustentabilidade para mim é uma discussão que transpassa a questão ambiental, esta ligada a maneira como nos vemos, nos posicionamos e preservamos o mundo”, alega.

Ao invés de esperar os dias da Virada Sustentável chegar, os colaboradores visitaram artistas e coletivos que fizeram parte da programação fazendo entrevistas sobre os trabalhos que desenvolvem cotidianamente. Essa foi a primeira vez que o fotógrafo Jaime Leme participou de uma cobertura colaborativa. “Conheci projetos, artistas e coletivos muito interessantes. Achei realmente inspirador. Todo o processo de produção das pautas foi muito rico: desde a primeira reunião onde nos conhecemos, a troca de informações, a edição do material produzido”, diz.

Além de querer fortalecer o evento, a motivação de Joseh Sillva para participar da cobertura foi essa troca de experiências entre os profissionais. “Sempre acho que é importante nos fortalecermos. Me envolvi porque conheço pessoas muito sérias e que estão produzindo e vivendo e comunicação de uma forma muito interessante. Quero estar próximo a estas pessoas”, explica ele que participa de diversos movimentos na periferia da zona Sul de São Paulo e costuma trabalhar em rede. “É sempre bom, principalmente com pessoas que você gosta do trabalho e torce para que todos prosperem. Já temos bons fotógrafos, bons jornalistas, ótimas pessoas que trabalham com redes sociais. Acredito que em breve, algo grande vai acontecer na periferia na perspectiva da comunicação”, complementa.

A correria do mês de agosto para a realização da cobertura colaborativa registra no corpo o cansaço, mas no coração não. “Foi lindo, conhecemos e ouvimos pessoas, a galera conseguiu editar textos lindos, vídeos sensíveis e especiais. Foram matérias além da Virada Sustentável, são materiais para sempre e que devem ser aproveitados por esses coletivos. Coletivos escondidos na cidade, pessoas que devem ser ouvidas, que atuam politicamente na cidade”, analisa Mariana.

 

Assista aos vídeos:

 

Cobertura Colaborativa Virada