Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

“Ítalo vive”: um papo reto de militantes negros para brancos do Morumbi favoráveis à violência policial Manifestantes contra e a favor à Polícia Militar ficam frente a frente em atos no Palácio dos Bandeirantes, que aconteceram após a morte de menino de 10 anos por integrantes da corporação

De 15 a 20 moradores do Morumbi, bairro caro da cidade São Paulo, se reuniram na manhã fria do último sábado (11 de junho) em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para manifestar apoio à Polícia Militar e até fazer uma vaquinha aos integrantes da corporação envolvidos no assassinato de Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira.

Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento
Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

Como contraponto aos manifestantes brancos de classe alta, um grupo de cerca de 30 militantes contra o genocídio do povo preto se colocou do outro lado da avenida Morumbi para fazer um contraponto. “Esse ato é também em repúdio a eles [apoiadores] pra mostrar o quão racistas são”, diz Fuca, que faz parte do grupo que está mobilizando o protesto.

Ítalo, um menino negro de apenas 10 anos que vivia na favela do Morro do Piolho (Campo Belo, zona sul da cidade), foi morto há duas semanas (02 de junho) com um tiro na cabeça por um policial após ser percorrer 300 metros com um carro que teria furtado com outro menino de 11 anos.

Na versão da Secretaria de Segurança Pública, Ítalo disparou três vezes contra os policiais que o perseguiam de moto. Porém, semana passada, reportagem do site G1 mostrou que a perícia concluiu que não há vestígios de disparos feitos a partir do carro e que a cena do crime teria sido alterada. Na sexta (dia 10), os policiais militares confirmaram à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) que mexeram no carro para socorrer a vítima. Os quatro policiais envolvidos no caso foram afastados das ruas pela Corregedoria.

De acordo com o site Ponte Jornalismo, Ítalo vivia em uma família desestruturada: a mãe saiu há pouco tempo do presídio e teve quatro passagens pela polícia (duas por tentativa de furto, uma por roubo e outra por furto consumado). O pai do menino está preso atualmente. Ele foi preso em 2009 acusado de tráfico de drogas e, em 20013, outra vez por tráfico e corrupção ativa.

Olho no olho

“Eu não tenho dúvidas de que a medida [dos PMs] foi acertada”, disse o deputado federal Major Olímpio (Solidariedade-SP), policial da reserva, que esteve no ato em apoio à corporação. Olímpio se referiu a Ítalo como fruto da ineficácia do Estado, mas quando questionado sobre o que estava realizando para sanar isso como parlamentar argumentou que foi “um dos que mais lutaram pela saída da [presidenta afastada] Dilma”.

Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento
Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

Os manifestantes pró-PM aplaudiam quando uma viatura passava na rua, gritavam que “lugar de criança é na escola” e cumprimentaram e até tiraram fotos com policiais da Tropa de Choque que se colocavam à frente do portão do Palácio dos Bandeirantes. Alguns policiais bateram continência aos moradores do Morumbi.

Por outro lado, muitos ficaram exaltados e até atravessaram a avenida quando os militantes negros gritavam palavras de ordem como “racistas, fascistas, não passarão”. “Vocês estão me ameaçando? Gente, eles estão dizendo que não passaremos”, comentou uma mulher branca. “Eu não sou racista. Eu sou casada com preto”, disse outra.

Muitos chamavam os militantes negros de “petistas” e “corruptos”. O deputado Major Olímpio insinuou que eles receberam R$ 50 e um lanche para estarem ali. “Quem ganha dinheiro com tragédia é ele, que tá aqui pra conseguir voto”, observa Fuca, contra o genocídio do povo preto. “Ser chamado de racista deixa eles mais indignados do que o próprio motivo de estarem aqui”.

Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento
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