Por Letícia Padilha e Paula Sant’Ana

Artes: Rafael Cristiano. Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges

A costureira N.L, de 59 anos, descobriu que estava infectada com hepatite C graças a uma campanha que acontecia próximo a sua casa, no Itaim Paulista (zona Leste de São Paulo). O ano era 2006 e uma equipe de saúde tinha montado uma tenda na rua. “O resultado saía na hora, daí ela falava se precisava de tratamento ou não. Eu pensei, ‘vou fazer né, já tô aqui, não custa nada saber, se eu tiver vou ter que me tratar né?!’”, lembra ela. 

Com um furinho no dedo e uma gota de sangue coletada, já era possível ter o diagnóstico – que foi uma surpresa para N.L. “Ela não queria me falar o resultado, só me deu um papel pra eu ir no Hospital das Clínicas, falando pra procurar o médico que estava no papel, dizendo que eu não tinha nada grave, mas que estava constando um probleminha no sangue e que eu precisava passar no médico para saber o que era”, recorda-se.

N.L não se preocupou, a princípio. Foi para casa e só voltou a se atentar a isso quando surgiram os primeiros sintomas. “Com o passar do tempo, eu comecei a sentir muito cansaço físico, uma falta de ar”, diz ela, que acredita ter sido contaminada pelo marido, que morreu em decorrência de hepatite.

Essa espera não é um comportamento exclusivo de N.L. Isso porque nem sempre as hepatites dão sinais e, portanto, são chamadas de “doença silenciosa”. Causadas por vírus, essas inflamações afetam o fígado. Quando sintomas físicos aparecem, se manifestam com febre, tontura, mal-estar, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras, entre outros. Em alguns casos, as hepatites podem levar a outras enfermidades graves ou até à morte. 

De acordo com o DATASUS, departamento de informática do Sistema Único de Saúde (SUS), entre 1999 e 2020 mais de 689 mil pessoas foram diagnosticadas com os tipos A, B, C e D de hepatites no Brasil. Não há dados concretos elaborados sobre contágio pelo vírus tipo E no País, pois é considerado raríssimo por aqui, sendo mais recorrente na Ásia e África.

Arte: Rafael Cristiano

Os tipos B e C são considerados os mais graves, pois podem se tornar crônicos e desencadear outros problemas de saúde. Assim, descobrir cedo a presença do vírus no organismo pode fazer diferença no tratamento e, consequentemente, na forma de viver de quem tem a infecção. Segundo dados levantados pela OMS, o tipo B mata cerca de 900 mil pessoas por ano no mundo. 

Já o tipo C é a principal causa de transplantes de fígado e pode também causar cirrose e câncer. De acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras, a hepatite C mata em média 399 mil pessoas por ano no mundo. E 72% de quem tem a infecção vive em países de renda baixa ou média. É considerada uma epidemia mundial, atingindo 5 vezes mais pessoas que HIV/Aids e sendo a forma mais agressiva e grave de hepatite viral. Quando a infecção permanece por mais de 6 meses, o que atinge cerca de 80% de pacientes, ela é vista como uma forma crônica – presente por toda a vida. 

A importância da conscientização

De acordo com a enfermeira Ester de Paiva Ferreira, quando pessoas infectadas com hepatites chegam no hospital já estão em estado avançado. Por isso, a prevenção é importante. “A educação continuada tem esse trabalho, acaba trazendo essas campanhas, mas isso não é muito difundido porque não veem como foco do nosso trabalho. A gente não trabalha muito com prevenção”, diz ela, que atua no Hospital de Clínicas Municipal José Alencar, em São Bernardo do Campo (região do ABC Paulista).

A testagem também é importante para ter um diagnóstico precoce, já que as hepatites são consideradas sorrateiras. “Se você leva uma criança ao pediatra, o de hepatite não faz parte dos exames que são solicitados, apenas se você acionar que tem hepatite e pede pra saber se a criança tem também. Aí o médico vai pedir o específico. E o mesmo acontece no decorrer da vida adulta”, completa. 

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Isso leva a uma grande subnotificação. Segundo Giovanni Farias, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), milhares de pessoas no Brasil levam o vírus tipo C no organismo e não sabem. “A gente acredita que tenha ainda em torno de 700 mil pessoas infectadas com vírus C [no País], em torno de 0,7% da população. Nós tratamos nos últimos anos um número considerável de pacientes, mas ainda resta descobrir pelo menos em torno de 500 mil com hepatite C crônica”, explica.

Por isso, ações de conscientização sobre prevenção e testagem, como o Julho Amarelo, são fundamentais. Vinculado à SBH, o Instituto Brasileiro do Fígado (IBRAFIG) mantém o portal Tudo Sobre Fígado com informações sobre o tema.

Ser adepto do tratamento é essencial para buscar a cura ou, se necessário, o controle da carga viral o resto da vida, como em casos crônicos. 

“Todo médico deve explicar na linguagem que o paciente possa entender, para que possa se submeter ao tratamento e ter uma aderência ao tratamento. Isso é fundamental, se não você não consegue curar”, aponta Farias . “Se não tomar medicação adequadamente, você não consegue neutralizar a replicação do vírus e pode eventualmente ter a progressão da doença”.

Com todo o tratamento feito pelo SUS, N.L. chegou a tomar 18 remédios por dia e teve o fígado debilitado a ponto de beirar uma cirrose. Porém, agora as notícias são melhores. “Tenho acompanhamento médico de 4 em 4 meses. A minha carga viral está zerada, mas continuo fazendo o acompanhamento e tomando os remédios certinhos. Eu tomo uma injeção para o fígado e, no consultório, checam meu peso, minha pressão, a carga viral, tudo.” 

O comportamento de N.L também mudou. “Se me der uma dor de cabeça, eu vou ao médico saber o porquê da dor, vou querer descobrir. Agora, o mal do brasileiro é ficar doente em casa e falar ‘eu vou morrer no dia que Deus quiser’, e se entregar à enfermidade e não cuidar.”

*Letícia Padilha e Paula Sant’Ana são participantes do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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