Reportagem por Julia Vitoria, especial para Periferia em Movimento. Edição de texto por Thiago Borges

Era noite e garoava quando Gleice Magda da Silva foi ao chão. Enquanto ela rolava para um lado do asfalto com medo de ser atropelada, a moto escorregava para o outro.

A motogirl de 35 anos seguia de Santo André para Mauá (municípios do Grande ABC Paulista), aonde deixaria um bolo de pote. A encomenda foi feita por meio do aplicativo Uber Eats, mas parou na pista a 1 minuto do ponto de entrega. No final do trajeto, um carro sem seta fechou a motoca. Ela caiu, ralou o cotovelo, rasgou a capa, a mochila ficou destroçada e o veículo teve algumas avarias. Mas o medo principal de Gleice (à esq. na foto em destaque desta matéria) era um só: ser bloqueada pelo aplicativo.

Em contato com o suporte da empresa, o atendente tentou tranquilizá-la e garantiu que isso não aconteceria. Porém, ao reiniciar o aplicativo no dia seguinte, Gleice estava bloqueada por “suspeita de fraude”. Revoltada, ela prometeu processar a Uber e, no final da tarde, teve o acesso liberado – sem pedido de desculpas e muito menos qualquer auxílio por conta do acidente.

“Me senti muito mal por aquilo, me senti um lixo (…) Eu ainda acho que a greve está sendo pouca. Devia ser um final de semana inteiro”

Gleice Magda da Silva, entregadora por aplicativo

Mulher negra de 35 anos, Gleice deve ficar em casa neste sábado (25/07), quando se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.

Nesse mesmo dia, trabalhadores e trabalhadoras que fazem entregas por aplicativos fazem um novo “Breque dos Apps”, paralisação nacional reivindicando direitos para a categoria. O movimento exige:

  • Aumento do valor por quilômetro rodado e valor mínimo de entrega
  • Fim dos bloqueios nos apps quando um entregador se nega a fazer uma corrida
  • Fim do sistema de pontuação e restrição de área de trabalho
  • Por seguro de vida, contra roubo e acidente
  • E medidas de prevenção contra pandemia, com equipamentos de proteção

Fazer dinheiro

Assim como a Periferia em Movimento já relatou, diante do desemprego e da crise econômica muita gente encontrou nos aplicativos um meio de seguir trabalhando. Porém, com a pandemia de coronavírus, o risco de contágio e a maior dependência do delivery, as precárias condições de trabalho dessas pessoas foram escancaradas.

“Não é nada de luxo ou de conforto, porque estar nas ruas é uma profissão muito perigosa, muito, demais! Então, se a pessoa tá nessa profissão, realmente é porque essa pessoa precisa, né? Ela não está ali por hobby”, alerta Gleice.

Ela começou a fazer entregas em janeiro, quando tirou férias do trabalho fixo. Com um pai desempregado, a mãe dona de casa e vivendo com uma irmã de 24 anos e uma sobrinha em Diadema, encontrar um bico foi o jeito de conseguir pagar as contas.

Quando o “descanso” acabou, ela retornou à rotina normal. Mas aí veio a pandemia, a redução da jornada de trabalho e do salário – e a volta às ruas foi inevitável. Hoje, sai às 07h30 para as entregas da manhã e chega às 10h40. Entra na firma ao meio-dia, cumpre expediente até as 18h e cai na rua novamente para o turno da noite.

Luana de Souza (foto: Arquivo pessoal)

Como também tem outro emprego fixo, Luana de Souza trabalha em média 12 horas por semana com os apps – tempo suficiente para ficar insatisfeita com o retorno financeiro. “O aplicativo nos paga uma taxa com o valor baixo referente ao quilômetro rodado. Não compensa, pois a gasolina está cara e também deve ser levado em consideração a manutenção do veículo”, aponta Luana, que apoia o Breque dos Apps.

Moradora de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, ela começou a fazer entregas há 4 meses para complementar a renda. Mulher negra, ela diz que sempre foi tratada com igualdade nos estabelecimentos ou no meio de entregadores e clientes. “O único medo é de ser roubada. Infelizmente somos vistas como alvo fácil”, diz a jovem de 24 anos.

A reportagem encontrou Luana no “Rainhas do Toque”, um grupo de whatsapp apenas com entregadoras mulheres. Uma das administradoras do grupo é Aline Muniz Yonda, mulher branca de 23 anos. “Nosso maior desafio é lidar com uma sociedade machista, com assédio e com motoristas mal intencionados, que fecham e aceleram a gente pelo simples fato de sermos mulheres”, ressalta ela.

Aline Muniz Yonda (foto: Arquivo pessoal)

Aline mora em Atibaia, no interior de São Paulo, e todos os dias pilota 70 quilômetros pra trabalhar na capital. Aqui, ela presta serviços a outras empresas e há 1 ano encaixa as entregas por aplicativo nos intervalos. A jornada de 8 horas em dias úteis quase dobra no fim de semana – chega a 15 horas por dia. “Dificilmente sobra tempo pra algo, mas procuro tirar folgas para ficar com a minha filha”, explica.

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Lilian Gomes (foto: Arquivo pessoal)

Formada em contabilidade, Lilian Gomes trabalhava com eventos até a pandemia estourar. A opção de renda foi partir para as entregas, mas não tem sido fácil. “Já cai virando esquina. Mas mesmo machucada fui entregar o pedido senão eu seria bloqueada”, diz a moradora de Guarulhos, que tem 30 anos.

Ela encontra dificuldades para usar o banheiro e até para comer. Para não passar vontade, ela evita tomar água. Já o almoço, leva de casa, para em algum restaurante Bom Prato ou come algum salgado.

“Cheguei no cliente e comecei a chorar, o porteiro do prédio e a faxineira que me deixaram usar o banheiro do prédio. Eu estava muito cansada, tinha começado esse dia 10 horas da manhã”.

Lilian Gomes

Pra ajudar, tem até “empréstimo” de conta

O grupo de whatsapp serve como apoio entre as motocas. Sempre que tromba outra entregadora na rua, Milsa Aparecida Paula já adiciona. “É importante porque assim a gente se cuida. No grupo Rainhas do Toque, eu e as meninas marcamos vários rolês só de mulheres de moto. Às vezes, damos umas voltas nos finais de semana”, diz ela, que tem 44 anos e mora no Butantã (zona Oeste de São Paulo) com uma das duas filhas.

Milsa Aparecida (foto: Arquivo pessoal)

Milsa anda de moto há 15 anos, trabalha com isso desde 2008 e, em 2017, baixou os apps para ter mais liberdade. Porém, há mais de 2 anos, precisa usar contas emprestadas para seguir nas pistas. “Eu sempre trabalhei direitinho, sempre fui honesta, sempre cuidei bem. Mas fui bloqueada na Rappi e no Ifood. Fiquei muito frustrada”, explica ela, que na última paralisação ficou em casa com os aplicativos desligados.

Quem também vai ficar em casa neste sábado, na companhia do filho, é Ana Edna Palma dos Santos. “Sempre sobra pro lado mais fraco. Vários motoboys apanham de policiais de graça”, diz a trabalhadora de 37 anos, que mora no Sacomã e apoia o movimento.

Desempregada por um bom tempo, há 1 ano descobriu essa possibilidade e consegue pagar as contas servindo a uma gama de aplicativos: Ifood, Uber, Lalamove, Ame Flash e Loggi. Mulher branca, ela diz que não é fácil conviver entre tantos homens, mas por outro lado tem muitos amigos e é reconhecida por onde circula.

Ana Edna (foto: Arquivo pessoal)

O ponto negativo é mesmo a exploração que ela sacou quando sofreu um acidente, ficou imóvel à espera do socorro da ambulância e não conseguiu cancelar a corrida. “Naquele momento, percebi que somos apenas mais 1 número pros donos de aplicativos”, relembra.

Já Vivian nunca caiu na pista, afinal ela faz entregas de carro, mas já teve o celular roubado em um assalto. Neste sábado, em respeito a quem vai à rua protestar, ela vai manter o novo aparelho desligado.

A trabalhadora de 44 anos, que não quis dizer o sobrenome nem onde mora, está há apenas 4 meses no ramo dos aplicativos. Não tem sido fácil, mas há um lado bom, que é conhecer pessoas novas todos os dias e se deparar com a solidariedade.

“Fiz uma entrega bem longe, acho que era na Vila Jaguará. Estava muito cansada e já era tarde. A filha me recebeu, entreguei as compras e, quando estava indo embora, ela me entregou uma carta linda desejando muita paz, saúde e mensagens de esperança. Fiquei muito emocionada, pois aquele dia tinha sido bem difícil”

Vivian

Conteúdo produzido com apoio do Fundo de Apoio Emergencial COVID-19, do Fundo Brasil de Direitos Humanos

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