(Foto: Joseh Silva)

Dos terreiros de candomblé às aldeias guaranis, práticas econômicas diferentes do capitalismo

Criada em 2005 pelo governo federal com o objetivo de estimular práticas econômicas horizontais e igualitárias, as ações da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) são observadas com atenção pelos representantes de povos tradicionais.

“Na nossa cultura, desde cedo que a gente vende acarajé pra sobreviver, mas que hoje não pode ser vendido na porta dos estádios. Há muito tempo fazemos os nosso bordados e comercializamos nossas roupas. Então, as coisas que estão postas hoje a gente já faz há muito tempo, só que em uma escala menos degradante e menos impactante”, explica Mestre Aderbal de Ashogun, que é candomblecista e integra um colegiado de representantes das religiões de matrizes africanas e povos tradicionais.

“A feira é um espaço de encontro onde a gente se vê e se conhece, onde temos a comida, temos a arte”, observa Mestre Aderbal. “Isso não é economia criativa, como dizem. É economia tradicional, o que sempre fizemos para sobreviver”.

Na cultura africana, o sagrado não se restringe à religião, pois todo universo é sagrado. Portanto, nesse sentido, as práticas comerciais também têm sua divindade.

No candomblé, Exu é o orixá da negociação. Nas grandes feiras da África ou mesmo na Bahia e Rio Grande do Sul, estados com forte influência das religiões de origem africana, há uma representação de Exu.

“Ele é a boca que transforma, é da comunicação, e isso é levado para o mercado”, ressalta Mestre Aderbal, um dos participantes do debate sobre economia solidária do Percurso em Defesa da Diversidade Cultural, realizado em agosto na periferia sul de São Paulo.

Guaranis

Entre os ancestrais responsáveis pela formação do povo brasileiro, estão os indígenas – e muitas de suas práticas econômicas prevalecem até hoje, em meio ao sistema capitalista vigente.

A estudante guarani Dara Tapara, de 15 anos, diz que é comum trocar coisas entre seus amigos. “Eu vendo piercing e, às vezes, as pessoas não têm dinheiro para pagar. Então a gente troca por arroz, feijão, lá na aldeia mesmo”, diz ela, que ajuda os pais a fazer bijuterias.

Mas como manter esses costumes vivendo na maior cidade do País?

“Antigamente, a gente conseguia alimentos caçando. Hoje temos que ir ao mercado para comprar”, aponta João Gabriel Awaxo, 27 anos, da aldeia indígena guarani Tenondé-Porã. Localizada em Parelheiros, extremo Sul de São Paulo, a aldeia é a maior da cidade de São Paulo e tem cerca de mil moradores. “A gente até tem espaço para plantar, mas a terra não é muito boa”, completa.

Para poder comer, portanto, os guaranis precisam trabalhar em outras áreas. Parte deles é funcionário das duas escolas ou do posto de saúde localizados na aldeia, enquanto muitos outros dependem da venda de artesanato a turistas que visitam o local.

Às margens da represa Billings, a aldeia fica a mais de 40 quilômetros do centro da cidade, o que dificulta o acesso ao mercado de trabalho convencional.

“Eu faço bichos de madeira. Demora umas cinco horas para terminar”, diz João Gabriel, que vende a produção por até R$ 20 cada item. “Mas fazer artesanato é obrigação, mesmo que a gente faça outra coisa [pra ganhar dinheiro], porque faz parte da nossa cultura”.

Ainda assim, o capitalismo e a cultura do consumismo são as maiores ameaças às culturas tradicionais. “Como eu posso evitar que um jovem guarani dê mais valor ao celular do que o ao nosso cachimbo, que é um instrumento sagrado?”, questiona a professora indígena Poty Poran.

“Se a gente continuar com esse costume do consumo e do descartável, nossos bisnetos não terão condições de viver. Acho estranho esse consumismo, que acaba expulsando os indígenas de onde são”, conclui.