Foto: Daniel Pascowitch

Diversidade e força da cultura da quebrada em “Orfeu Mestiço”

Por Juliane Cintra | Fotos Daniel Pascowitch

Fragmentos, histórias e memórias. Histórias de Orfeu e Eurídice, de Elisabete e Amarildo. Memórias deslocadas do tempo que se tornam histórias anônimas. Obra de arte, denúncia, tentativa que poderia se dizer estéril, não fosse a resistência, não fosse a expressão da inconformidade.

Manifestação esta que é comum quando pensamos em cultura dos becos, guetos, vielas, Cohabs, favelas, subúrbios do país. Narrar o que foi a noite que marcou a abertura do encontro Estéticas das Periferias exige muito mais do que resgatar a sinopse da premiada peça Orfeu Mestiço.

Obriga a entender a dor e o percurso de Orfeu, político que retoma seu passado, após receber um telegrama que o informa sobre a exumação do corpo de sua esposa, desaparecida no período da ditadura militar. Obriga a entender a presença silenciosa e ao mesmo tempo ensurdecedora de Elisabete, que desde o dia 14 de julho estampa seu rosto e o de sua família em busca de uma explicação para o desaparecimento de seu marido Amarildo.

Ambos estão procurando seus amados no inferno, assim como o Orfeu da mitologia, que por infortúnios, injustiças, perdeu sua esposa para o vale das trevas e morreu bradando explicações, acompanhado de sua dor pela perda.

“No mito, quando Orfeu perde a Eurídice, ele canta tanto que ninguém aguenta mais os lamentos de suas músicas. Toda a natureza se entristece e então, ele desce aos infernos para buscar sua amada. Eu sinto o mesmo na mulher do Amarildo, é resistência nesse canto que é canto pela presença, de se colocar no mundo e indagar a ausência e persistir”, comenta Daniela Evelise, atriz que interpreta Eurídice.

Resistência, que se torna reexistência. Uma busca constante por se reinventar e contar novas histórias, com linguagens inusitadas, de um país marcado pelo encontro entre os diferentes. Assim como em Orfeu Mestiço que por meio de sua música traz uma série de composições populares, um mosaico miscigenado hip-hoperístico.

“Tem o hip hop que é a nossa linguagem estética desde o começo, uma premissa básica em todas as nossas peças [do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos], que tem DJs que são atores, MCs que são atores, e toda a linguagem da cultura da rua. E tem os diversos assuntos desse universo marginalizado, a questão indígena, do Movimento Sem Terra, da ditadura militar. A própria composição da peça, somos um coletivo ocupando o Auditório do Ibirapuera com inúmeros agregados. Hoje, tivemos Emicida, Ilu Obá de Min, Kiko, Clarianas e Juçara. Um grande mosaico que representa essa diversidade que nós somos”, destaca Roberta Estrela D’Alva, atriz.

E assim começou o Estéticas das Periferias, casa cheia, como uma grande festa colorida, barulhenta, com os diferentes modos de falar, ser e estar da vila, feito por gente da gente, representando e expressando a origem e o cotidiano dos fundões que reexistem por aí.

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