Dez anos de Encontro Niggaz, o maior evento de graffiti de São Paulo

Numa parede localizada à altura do número 5.500 da avenida Belmira Marin, Grajaú, a pequena Sophie pinta uma menina sobre uma montanha. Aos 4 anos de idade, a grafiteira-mirim participa de seu segundo Encontro Niggaz de Graffiti. Influência do pai Michel Onguer, morador do M’Boi Mirim que deixa sua marca registrada nos muros há pelo menos 13 anos.

Entre 2004 e 2012, o principal evento de grafitti de São Paulo – quiçá, do Brasil – reuniu cerca de 1.600 artistas brasileiros e estrangeiros em suas edições anuais nas ruas do Extremo Sul da cidade. Para este ano, estavam previstos mais 400.

O encontro foi criado por companheiros de Alexandre da Hora, o Niggaz, artista do Grajaú que morreu em 2003 aos 21 anos e já se consagrava como um dos precursores do graffiti na região. Michel foi um dos amigos de Niggaz e participa da homenagem desde a primeira edição.

“O Niggaz plantou uma semente que até hoje se vê. Você reconhece os traços [no trabalho] da galera daqui e de fora, como a temática dos personagens, e a visibilidade que ele trouxe pra cá”, diz Michel.

Além da homenagem

Em dez anos de história, o Encontro Niggaz de Graffiti evoluiu. Além de atrair mais artistas à região do Grajaú, mais pessoas têm se sensibilizado para esse tipo de arte e as discussões levantadas a partir dela.

“A ideia era ser uma homenagem ao Niggaz, mas passou a ser um movimento coletivo cultural de quebrada, que entusiasmou a cena do graffiti local. Niggaz são todos nós”, observa Mauro Neri, agente marginal do Coletivo Imargem, que organiza o encontro e dialoga com a comunidade através de três eixos temáticos: arte, meio ambiente e convivência, trabalhando em suas intervenções a memória e a poesia para os muros cinza e espaços degradados da região a partir da margem da cidade.

Um dos participantes do evento desde o início é Samir Mauad, grafiteiro da Lapa desde 2000.

“Os caras [organizadores] são guerreiros e admiro muito porque é uma parada feita por eles. Com pouco dinheiro, sobreviveram por dez anos fazendo arte”, destaca Samir.

E, após nove edições caminhando da Billings rumo ao centro da cidade (em 2012, o encontro ocorreu na estação Autódromo da CPTM), neste décimo aniversário houve uma volta ao passado: às margens da represa.

“Voltamos porque aqui era onde o Niggaz pintava bastante, onde foi encontrado morto… Enfim, aqui ele passou suas últimas horas de vida”, diz Mauro.

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