Mais de 300 mulheres formam o bloco afro Ilú Obá de Min. (Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Das periferias ao centro, por uma arte que transforma

O Parque da Luz fechou as portas para as mulheres do Ilú Obá de Min no último domingo (07 de junho). Justificativa: os tambores africanos do já tradicional bloco de carnaval seriam “barulhentos” demais para esse espaço público mantido pela Prefeitura de São Paulo.

Composto por mais de 300 mulheres – cerca de 270 apenas na bateria –, o bloco desfila pelas ruas do centro paulistano na sexta-feira de carnaval com ritmos do candomblé e canções para os orixás.

Após indignação de frequentadores do parque e gritos de “abre! abre!”, os funcionários da empresa privada de segurança que impediam a entrada das artistas finalmente liberaram o acesso.

“O meu Deus é um só”, dizia um dos guardas, dando uma pista do real motivo para o bloqueio.

Com instrumentos silenciados, o cortejo atravessou o parque ao som de palmas e músicas à capela. Na saída, evangélicos reunidos na calçada pregavam “conversão dos pecadores ao Senhor Jesus”.

Mais uma vez o Ilú resistiu, como vem fazendo nesses dez anos de existência.

“Nós protestamos ao tocar para os orixás no centro da cidade, pelo protagonismo das mulheres negras e enfrentando esses preconceitos”, aponta Maíra Domingues, que integra o bloco há dois carnavais.

O cortejo do Ilú deste domingo abriu a Massa Revoltante, uma série de atividades promovidas pelo Goethe-Institut em São Paulo ao longo desta semana e que tem como mote as músicas de protesto. Clique aqui para saber mais e conferir a programação completa.

“No hemisfério Sul, tipicamente, os protestos são expressados com música, poesia, de formas criativas. Na Alemanha, também protestamos, mas não cantamos ou dançamos”, ressalta Katherina von Ruckteschell, diretora executiva do instituto alemão em São Paulo, que destaca a importância das pautas apresentadas para impactar outras áreas do pensamento e obter respostas a questões como a globalização, por exemplo.

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Se Caetano Veloso, Geraldo Bandré, Chico Buarque e Elis Regina são ícones que confrontavam com suas canções a ditadura militar no Brasil do passado, no atual cenário democrático (e exatamente dois anos após as chamadas “Manifestações de Junho”), o protesto acontece de forma menos explícita.

“Mas, considerando que vivemos num contexto político massacrante, essa música existe e está aí para dar voz a quem não tem, para reivindicar e atender a uma necessidade de expressão”, observa a atriz, diretora e MC Roberta Estrela D’Alva, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

Não por acaso, as manifestações culturais periféricas e de influência africana ou afro-brasileira têm destaque na programação da Massa Revoltante.

“Não faço arte pela arte ou pelo entretenimento, mas para transformar. E se tem uma música que protesta e transforma, atualmente, essa música é o rap”, indica o MC Gaspar, do Z’África Brasil, cujo nome é uma referência ao líder negro Zumbi dos Palmares e a nossa matriz africana.

Em 20 anos de resistência, o grupo de rap da zona Sul de São Paulo denuncia a opressão nas periferias, especialmente contra os mais pobres e negros.

“A gente canta a realidade que vive, que às vezes não é tão colorida”, diz Gaspar. “Pode causar choque, às vezes, mas faz as pessoas pensarem”, continua.

Além dos cinco discos já lançados, os integrantes do Z’África militam nas quebradas com oficinas, palestras e workshops de DJ, MC, graffiti, break e artes marciais – ferramentas para discutir racismo e discriminação.

“A maioria dos conflitos e segregações acontece por falta de informação e valorização do que forma nosso DNA”, observa Gaspar. “A cultura africana está presente em nossas vidas, assim como outras culturas, e o brasileiro é o resultado dessa miscelânea”.