Reportagem de Paulo Cruz. Fotos de Paulo Cruz e Pedro Ariel Salvador. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

Uma criança comemorando seu aniversário. Era assim que as pessoas que vivem no Jardim da União se apresentavam para mim: como uma criança cheia de energia, em pleno desenvolvimento,  com boas lembranças do que já viveu e mirando no futuro. 

A ocupação por moradia localizada na região do Grajaú (Extremo Sul de São Paulo) surgiu em 2013, passou por 5 ordens de despejo e resistiu a tudo isso. A população de cerca de 600 famílias, especialmente chefiadas por mulheres trabalhadoras fugindo do aluguel caro, resistiu e elaborou um projeto de autourbanização de seu território. Com a luta, conquistaram a implementação de sistemas de água e luz. E hoje, as ruas estão sendo pavimentadas. As casas, que já foram lonas estendidas e depois barracos de madeira, hoje são de alvenaria. 

Por isso, no dia 12 de outubro, a comunidade fez a festa do Dia das Crianças celebrando seu próprio aniversário e comemorando a transição para uma nova fase: a consolidação do Jardim da União como bairro, que segue em construção.

Encher a barriga e alimentar a luta

O bolo de 8 metros de extensão foi confeccionado pela cabeleireira Maria Sandra Conceição, 41, moradora desde o início da ocupação; e pela dona de casa Arlene Maciel, 38, que vive há 7 na comunidade. A cada ano, o bolo aumenta 1 metro.A receita contou com doação de outras pessoas, seja com dinheiro, com uma caixa de ovos, farinha… O trabalho teve dedo de todo mundo.

Afinal, o bolo tem significado especial porque apresenta uma “retrospectiva” de todos os anos de luta. Enquanto  Maria Sandra fica responsável por bater a massa e colocar no forno, Arlene vai de porta em porta pedir fotos de vizinhes que, depois, compõem a decoração.

“Você pode procurar porque  tem história desde que começou a nossa luta até o dia de hoje”, diz Maria Sandra, que aponta para uma imagem: “Essa mesma aqui, está amarrada em uma corrente na porta da CDHU pra polícia não tirar a gente de lá”.

Em construção

A ameaça de despejo ainda ronda a ocupação, mas é uma sombra que se dissipa à medida em que a ocupação se fortalece. Suelen Ribeiro, 27 anos, é secretária na associação de moradores e lembra que a decisão da  autourbanização aconteceu em 2017. “Cada morador teve oportunidade de decidir onde ficaria cada coisa. Então, cada um morador pode opinar naquilo que acha importante”, explica.

A autonomia se apresenta concretamente. A rua em que a Suelen mora se chama União do Itajaí, em homenagem às primeiras pessoas que ocuparam a área.  As outras 13 ruas receberam nomes que homenageiam as suas lutas. Tem a rua da União, do  Guerreiro do Itajaí, dos Filhos da Luta, da Vitória, além de pessoas que lutaram pelos direitos humanos, como a rua Cacique Veron e a rua Marielle Franco. 

“A gente não tinha um comprovante de endereço e, para o Estado, para você existir precisa ter um comprovante e que você mora em algum lugar”, conta Suelen. A conta de água ou de luz permitem que as crianças possam ser matriculadas em creches e escolas, por exemplo.

Enquanto o Jardim da União se consolida, outras ocupações seguem em luta para garantir o direito à moradia. É o caso da ocupação Queixadas, em Cajamar (região metropolitana), que tem uma ordem de despejo prevista para 7 de dezembro e pode colocar mais de 100 famílias na rua. Uma petição on-line coleta assinaturas para tentar impedir a ação. Clique pra assinar.

“Eles desmatam para poder construir grandes empresas e não têm nenhum projeto habitacional, não têm nenhuma solução para moradia”, explica Vanessa Mendonça, que mora na área e esteve no Extremo Sul para representar o movimento Luta Popular. 

Vale lembrar que isso acontece após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, de suspender ações judiciais e administrativas que possam resultar em despejos, remoções forçadas ou reintegração de posse em imóveis de moradia coletiva ou áreas ocupadas por populações vulneráveis durante a pandemia.

Futuro

De volta ao Jardim da União, encontramos a dona Jilvanete Costa de Carvalho, 67, que é agricultora e moradora desde o início da ocupação. Ela trabalhava em uma barraca na feira orgânica solidária, comercializando verduras orgânicas plantadas e colhidas na própria comunidade. 

“Agora, nós já estamos tendo resultado da nossa horta, o que é a melhor parte”, conta ela. “A horta é fonte de renda. A gente pode vender e comprar semente para plantar e crescer mais, ampliar. Então isso não pode parar, tem que continuar”. 

A iniciativa é do Luta Popular, que durante a pandemia fomentou a produção de alimentos dentro das ocupações em São Paulo – uma solução que o movimento encontrou para enfrentar a fome. Dona Jilvanete também nos conta que  o projeto da horta ajuda a população local a entender a importância da preservação ambiental.

O desenvolvimento de um bairro sustentável compõe as mudanças na paisagem: de ruas de barro à pavimentação; dos barracos de madeiras às casas de alvenaria; os  postes de rede elétrica e manilhas… Tudo revela um território que está em transformação e, na medida em que vai caminhando, novas questões vão surgindo – a criação de bibliotecas e centros culturais está no radar da comunidade. Mas o principal desafio é a regulamentação definitiva do Jardim da União, um bairro autônomo que pensa globalmente e age localmente. 

Foto: Angela Costa

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2 comentários

  1. Muito boa a reportagem, quem está de fora não sabe da luta que venceram pra chegar até aqui. Parabéns população da Vila União!

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