Reportagem de Laís Diogo e Thiago Borges

Na semana santa, o jovem F. largou a quarentena e foi pedalar com amigos em uma praça do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo. Naquela noite, eles tomavam açaí enquanto outras pessoas bebiam e alguns meninos davam grau de bike. Até que a Polícia Militar chegou atacando com bombas de gás lacrimogêneo.

“Eu reconheci 02 policiais que são muito violentos quando vão abordar alguém”, diz F., que teve a identidade preservada pela reportagem para garantir sua segurança.

Segundo ele, a PM dispersou os jovens, mas fechou a rua que seria utilizada como rota de saída da praça. “Eu fiquei com muito medo. Se eles queriam que a gente fosse embora, por que fecharam todas as nossas saídas pra ir pra casa? Eles queriam amedrontar mesmo o pessoal que tava lá”, continua.

O acontecimento ocorreu na mesma semana em que o governador João Doria disse que acionaria a PM para apoiar no cumprimento das medidas de distanciamento social com objetivo de conter o avanço do coronavírus no Estado de São Paulo. No dia 13/04, Doria voltou atrás, dizendo que medidas repressivas seriam utilizadas como último recurso. Aos policiais, caberia primeiramente advertir verbalmente quem descumprisse a quarentena e, somente em último caso, prender as pessoas fora de casa sem motivo essencial. Mas a simples possibilidade disso acontecer já acendeu um alerta entre quem sofre e denuncia a violência policial nas periferias.

“Nunca houve diálogo da polícia na quebrada. Aliás, o próprio João Doria disse em sua campanha para governador que a polícia iria atirar para matar – e a gente sabe que quem morre é preto e pobre na quebrada”, questiona Will Ferreira, educador social do Projeto RUAS e morador de Parelheiros, também no Extremo Sul de São Paulo.

Para ele, assim como a guerra às drogas é uma justificativa utilizada para a violência e o extermínio da população nas periferias, o combate à pandemia também pode legitimar ações arbitrárias da polícia contra pessoas negras.

“Assim como o coronavírus, nós somos tratados como um problema a ser combatido (…) Temos aqui um enfrentamento a uma pandemia que se torna parte da estratégia política do genocídio da população preta, pobre e periférica”

Will Ferreira
Will Ferreira (à esquerda) e Mônica Gonçalves participaram da Conversa sobre o Genocídio no dia 11 de abril, no CEDECA Interlagos. Foto: Mariana Caires.

A advogada e feminista abolicionista negra Dina Alves observa que essa distribuição desigual da morte é pensada e calculada.

“Se, de um lado, o governo se utiliza da força bélica para promover a sua política de isolamento e distanciamento social, causando ainda mais terror na periferia, é esta mesma população vítima histórica da violência policial que sente o aprofundamento destas violências: além de ser exposta ao vírus letal pelo estado, ela também morre pelas mãos da polícia”

Dina Alves, coordenadora no Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) e integrante do coletivo Adelinas.

Dina indica ainda que, enquanto ameaça prender a população, quem já está preso é ainda mais prejudicado em meio à pandemia. Com mais de 710 mil detentos, sendo que 3 a cada 10 sequer foram julgados, o Brasil restringe o acesso às prisões e demora a cumprir resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que orienta a soltura de presos provisórios do grupo de risco e que não representam risco social. “As prisões sofrem com o superencarceramento, a superlotação, a precarização da saúde e a proliferação de doenças como tuberculose e pneumonia”, nota Dina.

Tanto Will quanto Dina observam que isso compõe o modelo de necropolítica implantado pelo Estado, isto é, a política que pensa e articula a morte a partir das relações de racialização.

“O governo, ao invés de fortalecer o estado de bem-estar social e garantir maior proteção ao povo periférico, socorreu as empresas aéreas e bancos com a transferência de renda em valores bilionários em meio à crise econômica e social”, nota Dina.

Por ora, o caminho é manter-se atento às medidas governamentais e agir coletivamente contra novas violações de direitos. “Nosso olhar tem que ser ainda mais apurado para perceber qual é o tipo de abordagem quando uma viatura encosta”, finaliza Will.

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