Por Karina Rodrigues*

Foto: Cozinha solidária na zona Norte de SP / Nathalia Ract


De pé, ó vitimas da fome!

De pé, famélicos da terra!

O presente

Em uma manhã de um sábado qualquer de 2021, alguém chamou em meu portão. 

“Quem é?”.

Uma voz do outro lado não hesitou em responder: “tem alguma coisa pra eu comer, moça?”.

Prontamente abri o portão e partilhei os poucos mantimentos que estavam na despensa com uma jovem senhora negra, de estatura média, dona de um olhar vivo e profundo, desses próprios de quem sabe da sua condição no mundo, ou da condição desigual do mundo. Coincidentemente, havia acabado de ler “O Quarto de Despejo”, e Carolina Maria de Jesus bateu em minha porta para me lembrar que a cor da fome é amarela.

Nos anos 1960, em um barraco de alvenaria na extinta favela do Canindé, que se expandia às margens do rio Tietê, mais de 20 cadernos encardidos escritos à mão deram origem ao livro que rendeu mais de 100 mil exemplares.

Com uma narrativa visceral, Carolina Maria de Jesus, mãe solo de 3 filhos ainda pequenos, narrava o cotidiano de uma catadora e os desafios diários pela sobrevivência em busca de alimentos. Todos os dias pela manhã, ela peregrinava pelas ruas da cidade recolhendo papelão, latinhas e o que mais pudesse converter em dinheiro para trocar por comida. Alguns dias eram mais injustos e ela voltava de mãos vazias.

Em 1955, a revista O Cruzeiro estampava em sua capa: “BRASIL CONQUISTOU RECORD MUNDIAL DA FOME”. Na mesma época em que Carolina registrava seus escritos, e em 13 de Maio de 1958, ela ainda “lutava contra a escravatura atual, a fome”.

Apesar do Brasil ter saído do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014, cerca de 60 anos após o lançamento de “O Quarto de Despejo”, o espectro da fome  que nunca deixou de assombrar a população pobre volta a estampar as capas de jornais e revistas. As manchetes anunciam que, em meio à pandemia da covid-19, o País vive um pico epidêmico, milhões de pessoas enfrentam a fome em seu dia-a dia.

Em 2021, de maneira avassaladora, a crise humanitária (tal como definiu o padre Júlio Lancelotti), afeta diretamente milhões de brasileires em situação de fome ou insegurança alimentar no País.

O passado mal resolvido do Brasil colonial escancara a sua desigualdade

Apesar da fome no País ser um problema estrutural e histórico, temos que considerar o perfil de um governo ruralista, que coloca como prioridade o crescimento do agronegócio ao mesmo tempo em que operacionaliza o desmonte da CONAB, entidade responsável pelo controle e redistribuição dos excedentes de alimentos, tendo como uma das principais missões apoiar a agricultura familiar, garantindo a segurança alimentar e nutricional da população. 

Com  uma política agrícola irresponsável, esse modelo de gestão favorece o agronegócio que tem crescido de maneira exorbitante, enquanto a população passa fome. Nesse cenário, existe ainda o incentivo para o consumo de ultraprocessados, diminuindo os produtos in natura na mesa das famílias de baixa renda, contribuindo para a subnutrição da população.

“Antigamente era a macarronada o prato mais caro, agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo.”(Carolina Maria de Jesus - Quarto de despejo)

Josué de Castro, em Geografia da Fome (1945), ao elaborar o primeiro mapa da fome no Brasil, chamou a atenção para a  fome oculta, na qual pela falta permanente de determinados elementos nutritivos em seus regimes habituais grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de muitas vezes comerem todos os dias.

Karina Rodrigues (foto: arquivo pessoal)

Beribéri, pelagra, escorbuto, xeroftalmia, raquitismo, osteomalácia, bócios endêmicos, anemias, etc. são doenças causadas pela penúria orgânica, a ausência de um, de vários e, às vezes, de todos os elementos indispensáveis à nutrição humana. É o que denominamos hoje por Insegurança Alimentar.

Quem recebe um salário mínimo precisa comprometer mais da metade da sua renda para compra de alimentos duvidosos, com pouca ou nenhuma relevância nutricional.

Como mais um triste exemplo de efeito colateral que o sistema criou, o índice de furtos famélicos tem aumentado. São pessoas comuns, sem antecedentes, que cometem pequenos furtos em supermercados, no desespero pela busca de alimentos na pandemia, conforme a matéria do Leandro Machado para a BBC News.

O Futuro depende de uma combinação de fatores, com um conjunto de estratégias para garantir que alimentos variados e de qualidade façam parte das refeições de toda a população brasileira. Entretanto, as expectativas dos economistas para 2022 não são das melhores. Com inflação em alta e riscos fiscais, a previsão é de um cenário ainda mais preocupante para a população pobre. A verdade é que não se sabe onde a alta dos preços vai parar.

Quando propomos pensar em estratégias para atravessarmos essa proposta genocida de governança, estamos pensando para além das eleições, em redes de apoio, como tem emergido nas periferias das cidades. 

Entretanto, vale lembrar que em Outubro de 2022 teremos o processo eleitoral para escolha de presidente, vice-presidente e o Congresso Nacional, e se esse processo não fosse relevante para os estamentos sociais (inclusive o qual pertencemos), e sobretudo para a garantia dos nossos direitos, entre eles ao acesso à alimentação de qualidade, as eleições não estariam sendo palco de tantas manobras desde já.

Como iniciamos essa conversa, com a visita de Carolina Maria de Jesus batendo em minha porta, encerro agradecendo a generosidade dos seus ensinamentos e partilhando mais uma de suas reflexões.

(...) O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças". (Carolina Maria de Jesus - Quarto de despejo)

*Karina Rodrigues é mãe do pequeno Raul, nascida e criada no Grajaú, plantadora e educadora socioambiental. Estuda Ciências Políticas e Etnobotânica. Faz parte da equipe da Periferia em Movimento

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