Por Thiago Borges

“Como pode um povo vivo viver nessa carestia? Como poderei viver dia e noite, noite e dia, com a barriga vazia?”.

Entoando essa paródia de uma cantiga popular, no dia 27 de agosto de 1978 mais de 20 mil mulheres periféricas de São Paulo ocuparam a Praça da Sé para protestar contra a carestia. Muitas delas, acompanhadas de crianças pequenas. “A mulherada tava toda na rua, enfrentando polícia, cachorro…”, lembra Ana Maria do Carmo, mais conhecida como Ana Dias.

Moradora do Jardim Nakamura na época, ela foi uma das principais articuladoras do Movimento do Custo de Vida (MCV), também chamado de Movimento Contra Carestia, que surgiu em salões de paróquias católicas nas periferias da zona Sul de São Paulo para ganhar as ruas, escolas e fábricas. O grupo coletou mais de 1,3 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado entregue ao Presidente da República, pedindo congelamento de preços dos alimentos. Diante da inflação que atingia suas famílias, as donas de casa das margens de São Paulo foram pra cima da ditadura militar.

Detalhe da capa do livro “Como pode um povo vivo viver nessa carestia”: Concentração do Movimento Contra a Carestia na Praça da Sé, em 1978

“[A carestia] é uma coisa que a gente tá percebendo de novo neste momento, principalmente pra quem é assalariado ou está desempregado”, nota Ana Dias, hoje com 78 anos. Ela, que atualmente vive no interior paulista, defende uma nova mobilização diante do atual cenário. “A gente precisaria fazer uma agitação, nesse momento, com esse governo que tamo vivendo”.

Adélia Prates, de 74 anos, ficou assustada quando viu um pacote de arroz por mais de R$ 20 e um litro de óleo por quase R$ 10. “A situação de hoje tem semelhança [com o passado], mas é uma vergonha porque o Brasil é um país rico”, aponta Adélia, que mora no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo) e participou do movimento nos anos 1970. Para ela, o preço alto tem impacto direto no enfrentamento da pandemia. “Se uma pessoa com covid-19 tá se alimentando bem, é até possível que ela se recupere. Mas e uma pessoa que se alimenta mal? A covid-19 e a fome estão disputando a miséria”, diz.

A sacola vazia na volta da feira não é apenas uma sensação, mas uma realidade medida pelos números. O que está por trás disso?

A carestia em números

A economista Patrícia Costa explica que o custo de vida é medido pelos gastos de uma família. “Existe uma diferença como gasta uma família de baixa renda em comparação com a de alta renda. A baixa renda tem um custo de alimentação muito grande. Nos últimos anos, vem crescendo o gasto com habitação porque vemos um aumento no preço de serviços públicos, como água, luz, gás”, explica ela, que é supervisora de pesquisas de preços do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

E a alimentação pesou mais. Em 2020, a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 4,5%, enquanto o preço dos alimentos acumulou alta de 15,5%. O óleo de soja subiu 104%; o feijão, 81,4%; o arroz, 75,3%; e a batata inglesa, 67,3%. Já o gás de cozinha subiu quase 22% no acumulado do ano, enquanto a gasolina teve alta de 34,8% só nos primeiros meses de 2021.

Em janeiro deste ano, uma família da cidade de São Paulo precisaria desembolsar R$ 631 para comprar todos os itens da cesta básica – isso é mais da metade de um salário mínimo, que passou para R$ 1.100. Pra se ter uma ideia, uma pessoa que ganha esse salário e tem uma jornada de 220 horas por mês precisaria trabalhar 115 horas e 08 minutos pra gerar a renda necessária para comprar uma cesta básica. Esse é o menor poder de compra de um salário mínimo desde 2005.

Patrícia explica que isso é efeito direto da política econômica dos últimos anos. Com o dólar a R$ 5,50, os produtores são estimulados a exportar carne e itens agrícolas para outros países, diminuindo a oferta dentro do Brasil. Além disso, desde 2014 o País tem desmantelado o estoque público de grãos, como arroz, milho e soja. Em uma safra com muitas chuvas ou seca, ter esses itens estocados permitia ao governo disponibilizar o que tava armazenado e regular os preços – controlando a disparada nas gôndolas.

“Em um mês, você vai no mercado com R$ 10 e você compra meio quilo de carne. No outro mês, você compra 200 gramas de carne por esse valor. Aí você precisa escolher o que vai comer. Ou se vai comer ou pagar a conta de luz ou comprar botijão de gás”, observa Patrícia.

Outro ponto é a regulação dos preços de combustível pela Petrobras, que desde o governo de Michel Temer segue o mercado internacional – influenciando no preço da gasolina e do gás de cozinha. Clique aqui para ler a nota técnica do Dieese.

A pandemia de coronavírus aprofundou uma situação que já era dramática, colocando mais pessoas na vulnerabilidade. E a parcela da população mais impactada tem raça e gênero: pessoas negras, em especial mulheres.

O sociólogo Mario Rogerio, que é diretor de pesquisa do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), observa que o desemprego no País chegou a 14,1% em novembro de 2020, mas entre pretos e pardos o índice ultrapassou os 16,5% enquanto chegou a 11,5% dos brancos.

Por isso, o custo de vida acaba pesando mais para mulheres pretas, muitas vezes chefes de família. Em 2019, o salário médio dela foi de R$ 1.658,04 por mês, enquanto de um homem branco foi de R$ 3.567. Isso é efeito do racismo. Com menos escolaridade e menor garantia de direitos fundamentais, a população negra acaba ocupando postos de trabalho menos qualificados, muitas vezes na informalidade, e fica mais suscetível em tempos de crise.

“O mercado não pensou no lugar para essa pessoa, que vai passar a vida sem emprego de qualidade. Então, a gente precisa ter uma política de renda mínima focada nessa pessoa”, defende Mario Rogerio.

Mulheres em marcha

“As mães da periferia de São Paulo, que mais sentem a realidade da vida, vêm pedir aos senhores que tomem providência para baixar o custo de vida, porque o Brasil é uma terra tão rica e as mães choram na hora de por a panela no fogo pra fazer a comida pros filhos”.

Foi assim que moradoras do Jardim Nakamura iniciaram um documento que daria origem ao Movimento Contra a Carestia. Na mesma época, elas lançaram um abaixo assinado contra os preços altos – estratégia similar para conseguir água encanada ou luz elétrica, por exemplo.

Detalhe do livro “Como pode um povo vivo viver nessa carestia”

Segundo monografia do historiador Vinicius Faustino Ferreira da Silva, realizada em 2018, além dos preços congelados, o documento reivindicava a criação de centrais de abastecimentos nos bairros da periferia da cidade e aumento real do salário mínimo.

Naquele tempo, o Brasil vivia o chamado “milagre econômico”, com crescimento anual de 11% ao ano entre 1968 e 1973. Porém, a riqueza não foi distribuída, aumentando a desigualdade social e piorando as condições de vida.

Na época, Ana Dias trabalhava em casa e se reunia na igreja com outras mulheres como ela. Lá, falavam das dificuldades cotidianas, como falta de saneamento básico, asfalto, escola e as tretas com dinheiro. As conversas ganham corpo.

Ana Dias – foto: Memorial da Resistência

“A mulher fechou a porta de casa e foi participar na rua”, lembra Ana Dias. “A mulher trazia abaixo assinado pra casa, ia pra rua, levava pro marido, pros jovens. Era uma corrente, nada separado. Cada um queria fazer parte, tá junto, ir pra rua, ver resultado”.

Autor do livro “Como pode um povo vivo viver nesta carestia”, o pesquisador Thiago Nunes Monteiro aponta que a Igreja Católica foi fundamental para fortalecer o movimento, seja cedendo o espaço para encontros e até mesmo em infraestrutura, como papel e mimeógrafos que eram utilizados para imprimir panfletos com linguagem de fácil compreensão pela população. Depois, grupos de esquerda, sindicatos e universitários se juntaram ao movimento.

Já Adélia Prates se recorda de bloqueios que ela e outras mulheres faziam em frente a açougues em boicote ao preço da carne. “Por que nasceu esse movimento? Foi da luta da panela vazia. Hoje o pessoal bate panela e não tem nada a ver”, diz ela.

Nos anos seguintes, o grupo do qual Adélia fazia parte conseguiu se articular com moradoras de municípios como Carapicuíba, Diadema e São Bernardo do Campo para o fornecimento de leite pelo governo – todo mês, um contêiner com 12 mil litros de leite vendia a bebida a um preço mais barato em bairros periféricos. No Grajaú, as garrafinhas tinham o símbolo do movimento de mulheres.

Com a ascensão em todo País, o Movimento Contra a Carestia chamou atenção da imprensa, de políticos e da própria ditadura, que tentou desacreditar as mulheres. Porém, segundo Faustino, em agosto de 1978, o economista Julian Chacel reconheceu que os dados de um estudo encomendado a ele pelo governo de Emílio Médici estavam errados: em 1973, a inflação havia sido de 24,8%, e não 14% como anunciado pelo governo.

A repressão continuou. Em 30 de outubro de 1979, mais de um ano após a marcha histórica na Praça da Sé, o companheiro de Ana Dias foi assassinado pela Polícia Militar: o operário Santo Dias foi morto pelas costas enquanto participava de um piquete em frente a uma fábrica. No início dos anos 1980, o movimento se desarticulou enquanto outras frentes de luta ganhavam força.

De volta a 2021, Ana Dias não percebe um consenso nos movimentos em relação ao custo de vida, mas mantém a esperança. “A gente sabe que a luta nunca acaba. Sempre tem uma brasa acesa. De repente, estoura alguma coisa lá. Sempre tem pessoas com interesse em fazer alguma coisa”, acredita. Para Adélia, é preciso rearticular. “Eu acho que, através do celular, a gente tinha fazer essa campanha, ir até onde está mais barato”, diz ela. “Minhas pernas não permitem andar muito, mas não podem calar minha voz”.

Fotos: Tânia Rego / Agência Brasil; Capa do livro “Como pode um povo vivo viver nesta carestia; Marcello Casal / Agência Brasil; Reprodução de foto do livro citado antes; Memorial da Resistência

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