(Foto: Thiago Borges/Periferia em Movimento)

Arte e resistência nas ocupações por moradia do Grajaú

Com a colaboração de Paula Lopes Menezes

O domingo foi de confraternização no Jardim da União, Itajaí. Localizada no Grajaú, extremo sul de São Paulo, a área é reivindicada por cerca de 300 famílias que anseiam por um teto próprio.
Desde as 11 horas da manhã, crianças e adultos se amontoavam ao lado do barracão erguido como sede da ocupação para assistir ao “Concerto da Lona Preta”, peça do grupo tetral Trupe da Lona Preta. O espetáculo foi seguido de um almoço comunitário, rifas, discotecagem, apresentação do rapper Robsoul e intervenções de graffiti do coletivo Fora de Frequência.

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O clima tranquilo do final de semana antecede um momento decisivo para a ocupação. Na quarta-feira, dia 09, a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) indica se vai ou não ceder um novo espaço às famílias do Jardim da União.

Uma das cerca de 20 ocupações por moradia que pipocam desde julho no Grajaú, o Jardim da União sofreu cinco despejos nos últimos dois meses.

A mais recente – e violenta – ocorreu três semanas atrás, após o movimento local obter garantias de negociação com a prefeitura.

Na manhã da segunda-feira, dia 16 de setembro, policiais da Tropa de Choque sem identificação invadiram o terreno e forçaram as 300 famílias a desocupar o local.

“Colocamos geladeira, fogão, botijão de gás na rua. Levaram tudo no caminhão”, diz José de Arimateia, 42 anos, que aponta a brutalidade policial. “Tínhamos 30 minutos para tirar nossos pertences. Nesse meio tempo, começaram a jogar bomba de gás. Foi uma coisa feia. Já vi isso na TV, mas não acreditava que aconteceria comigo”.

Por mês, ele desembolsa R$ 450 para viver com a mulher Sonia Maria dos Santos, 43, e os três filhos em uma casa de três cômodos em Parelheiros, também no extremo sul da cidade.

“A Tropa de Choque pegou nossas coisas, botou no caminhão e levou embora. Isso é roubo”, diz Sonia, que perdeu o emprego para tentar garantir a casa própria. Durante reintegração, até seu celular foi tomado.

A manicure Leia Viana de Queiroz Carvalho, 39, paga aluguel há 22 anos na região. Ela gastou R$ 250 em telhas para cobrir seu barraco, que foi demolido no dia seguinte.

“Minha sobrinha pulou o muro grávida de quase nove meses e com uma criança de colo”, diz ela, que estava trabalhando quando a polícia tomou o espaço. “Minha cunhada, de muleta, não tinha nem como correr”. Assista abaixo os vídeos com depoimentos dos moradores.

A abordagem da Tropa de Choque motivou novos protestos no Grajaú e no centro da cidade, onde o movimento ocupou a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em 24 de setembro. A secretaria é proprietária do terreno, que seria destinado à construção de um parque linear.

Porém, a Rede de Comunidades do Extremo Sul denuncia que, em menos de uma semana, a prefeitura mudou o argumento: o local seria transferido da SVMA para a Sehab, que já tinha projeto com financiamento aprovado em Brasília para a construção de 5 mil moradias.

No dia 27 de setembro, os moradores reocuparam o local pela sexta vez e aguardam a resposta da Sehab. “Como a gente lutou tanto por esse terreno, eu quero é ficar aqui”, diz Sonia.

Para Thaís Miranda, o discurso da preservação ambiental é recorrentemente utilizado para justificar o despejo de pobres.

“No Jardim Pantanal, onde não havia outra forma de remoção, criaram uma enchente – situação de risco para as pessoas, o que é outra brecha na legislação para tirar a população desses locais”, diz Thaís, que milita no movimento Terra Livre, que ajuda a organizar a luta por moradias urbanas e reforma agrária no campo com atuação em Cotia, Osasco, litoral norte paulista e nos estados do Sergipe, Goiás, Alagoas e Paraíba, além do Jardim Pantanal.

Em 1997, os moradores desse bairro, que fica na zona leste, descobriu que o próprio estado era o causador dos alagamentos. Para evitar enchentes na marginal Tietê, as comportas de uma barragem no Parque Ecológico do Tietê eram fechadas, provocando o transbordamento para o vizinho Jardim Pantanal.

Recanto da Vitória

Cada ocupação é uma história diferente.

Enquanto o Jardim da União ocupa uma área pública, o Recanto da Vitória nasce em uma propredade particular onde antes funcionava uma granja.

Após boatos de irregularidades do terreno, cerca de 900 famílias ocuparam o local no final de julho. Uma liminar de reintegração de posse foi suspensa temporariamente e, agora, o movimento por moradia tenta intermediar um diálogo da prefeitura com o proprietário para encontrar uma solução.

No último sábado, dia 05, o Projeto Raiz e a companhia tetral Enchendo Laje & Soltando Piparealizaram um sarau durante a assembleia de moradores.

A atividade cultural foi acompanhada pela alagoana Genice Alzira da Silva, 57, que chegou de União dos Palmares na mesma semana da ocupação e garantiu um lote para si. Para trás, deixou os filhos para morar com uma amiga no Grajaú. Aqui, começou a trabalhar como diarista e espera a regularização do terreno para buscar o restante da família.

Já a dona de casa Gilma Jesus Rodrigues, 43, espera a luz chegar a seu barraco para se mudar da casa da irmã com sua filha Karina, 20. Com a ajuda de vizinhos, as duas abriram espaço onde planejam uma rua para o futuro bairro.

Um desses vizinhos é o autônomo José Marcos das Neves. Com doença de chagas e pressão alta, ele paga R$ 400 de aluguel em um quarto e cozinha no Jardim Lucélia, onde vive com a filha de 13 anos e a mulher, que tem arritimia cardíaca e não pode trabalhar.

“Moro em São Paulo desde 1984 e nunca consegui sair do aluguel”, diz ele. “O que eu espero é vitória. A pior coisa é ser doente e deixar de comer para pagar aluguel”.

Janete Pereira dos Santos, 62 anos, também tem esperança.

Após marido e filho serem assassinados por traficantes, ela deixou sua comunidade no Guarujá (SP) com os dois netos rumo à capital. A casa abandonada virou ponto de venda de drogas.

Em São Paulo, Janete se abrigou com os dois netos em um barraco no Jardim Gaivotas, embaixo da linha de transmissão da Eletropaulo.

Há dois anos, ela colocou um marca-passo. Sem conseguir trabalhar nem se aposentar, a ex-costureira sobrevivia com R$ 130 do Bolsa-Família recebidos pelos netos, que foram morar com a mãe.

Desde então, Janete sobrevive da solidariedade dos vizinhos.

Sob ameaça de expulsão, ela demarcou um lote no Recanto da Vitória. Seu barraco se tornou ponto de encontro na ocupação, já que ela vende salgadinho, cerveja e pinga – sua única fonte de renda atual. A energia elétrica chegou ao barraco de Janete há 15 dias, quando ocupantes fizeram uma ligação irregular. Água? Quando não chove, ela pede em casas vizinhas à ocupação.

“Eu só espero que haja uma melhora pra nós e que ninguém venha ‘desaquetar’ a gente, porque está muito sossegado aqui”, encerra Janete.

Poder público

Procurada pelo Periferia em Movimento, até o fechamento desta reportagem a Sehab não respondeu aos questionamentos sobre a situação no Recanto da Vitória, a violência policial e os roubos relatados no Jardim da União, o destino das ocupações no Grajaú ou qual a política habitacional municipal.

Já a Subprefeitura da Capela do Socorro informa que a Sehab atua em 18 áreas do Grajaú e iniciará obras em outras três áreas por meio do Programa Manancias – Fase III.

Entre as represas Billings e Guarapiranga, 18 mil unidades habitacionais estão em fase de aprovação pela Caixa Econômica Federal.

“Serão 64 áreas urbanizadas e mais 13 novos conjuntos habitacionais. Essas áreas também estão nos perímetros das subprefeituras M’Boi Mirim, Capela do Socorro, Parelheiros e Cidade Ademar; todas no extremo sul da cidade”, diz a nota enviada pela assessoria de imprensa.

VEJA ABAIXO OS VÍDEOS FEITOS PELA REDE EXTREMO SUL DURANTE A OCUPAÇÃO DA SECRETARIA DO VERDE E MEIO AMBIENTE E DEPOIMENTOS DE MORADORES DO JARDIM DA UNIÃO.