Arquitetura, arte e lazer lado a lado nas quebradas

Como a arquitetura propicia (ou não) a arte e a convivência na periferia?

Esse tema foi debatido no primeiro dia do seminário “Estéticas das Periferias”, nesta segunda-feira, 27.Depende: ela pode tanto restringir quanto facilitar.

“O urbanismo e a arquitetura podem contribuir para cidade mais igualitária”, explica o arquiteto Ruy Ohtake, responsável pelo projeto que deu cara nova à comunidade de Heliópolis, em São Paulo. Em pouco mais de uma década, ele trabalhou com as lideranças comunitárias na urbanização da maior favela da cidade. Oito pintores renovaram as fachadas de casas e cinco estudantes da favela foram escolhidos para administrar a biblioteca local, com livros listados por um crítico literário.

Ohtake criou um centro de convivência e educação que congrega escolas, creches e polo cultural e planeja a construção de uma moderna biblioteca com mais de 40 mil títulos. Uma das obras mais conhecidas é o condomínio residencial dos “redondinhos”, como são chamados os prédios circulares coloridos projetados por ele. Não são prédios cercados de grades, como os condomínios de alto padrão. Nesse condomínio, os carros ficam do lado externo, enquanto dentro o espaço aberto é destinado a bancos e brinquedos para crianças. Há convivência.

“É como morar num parque”, diz Ohtake. “Essa força que percebo em Heliópolis, essa condição interna, pode se expandir para toda a cidade de São Paulo”, continua.

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Espaço público na periferia é lugar de intervenção.

Um desses grupos intervencionistas fica sediado na Cidade Tiradentes, distrito com mais de 400 mil habitantes da zona leste de São Paulo e que se transformou no maior conjunto habitacional da América Latina – são mais de 40 mil unidades habitacionais no mesmo padrão, em prédios idênticos construídos na década de 70 e que se transformaram em um depósito de gente num extremo da capital paulista, sem infraestrutura nem serviços públicos.

Foi nesse cenário que tinha tudo para limitar o florescimento da arte que nasceu e cresceu o Instituto Pombas Urbanas, fundado pelo peruano Lino Rojas em 1989. O grupo ocupou um galpão abandonado e o transformou em centro cultural, com aulas de teatro para a juventude. Mas na periferia não basta montar um espaço. É preciso criar vínculos com a comunidade.

Os integrantes do grupo, todos da periferia de São Paulo, se mudaram para Cidade Tiradentes e lá se tornaram novos membros da comunidade, que a princípio não entendia esse lance de teatro. E quem fazia o teatro não entendia muito bem essa história de comunidade, apesar da origem semelhante. Não dá para replicar aquilo que é feito no centro.

“No primeiro dia, a gente começou com 800 alunos no curso de teatro”, conta Adriano Mauriz, integrante do Pombas Urbanas. “No segundo, tinha 100; no terceiro, 50…”, recorda. Foi preciso criar identificação. E hoje, o instituto já beneficiou quase 8000 pessoas diretamente, tem sete coletivos artísticos associados (de teatro, música, dança, circo, etc), percorreu a América Latina com uma peça e, atendendo uma demanda da população, criou uma biblioteca com mais de 12 mil livros e 3 mil leitores cadastrados. As intervenções acontecem nas ruas e praças do bairro – uma delas, inclusive, que foi palco de tortura de militantes de esquerda na época da ditadura. Hoje, a comunidade se apropriou do Pombas Urbanas.

Centro da periferia

Outro grupo abraçado por sua comunidade é o Clariô, de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. Espremido entre Taboão e o bairro de Campo Limpo, o Clariô nasceu enfrentando as dificuldades de uma cidade dormitório, como a em que está instalado. Onde estão as pessoas?

E o erro foi notado logo de início. Num município periférico formado por trabalhadores que vieram do Nordeste não faz sentido seguir padrões do teatro convencional: pegar um texto, montar uma peça, ensaiar… O teatro tinha que ter a cara de Taboão. E por isso, os integrantes do grupo começaram a criar.

Resultado: após criar peças em cima de personagens do escritor marginal Marcelino Freire, o Clariô venceu três categorias de um prêmio de teatro no Rio de Janeiro, transformou a casa que ocupava em espaço cultural e, quando todos os integrantes estavam fora da cidade para uma apresentação, a vendedora de doces da casa em frente pagou a conta de luz para evitar o corte pela companhia elétrica. Aqui, a comunidade também se apropriou. “O Clariô só existe hoje porque se tornou o centro”.