Por Gisele Brito*. Foto em destaque: Julia Vitoria

Em novembro teremos eleições para eleger prefeitos e vereadores em todas as cidades do País. Aqui em São Paulo, se por um lado as opções para prefeito não são lá muito animadoras, com vários homens brancos, burocratas, defensores da violência e hipócritas, para a Câmara Municipal há algumas opções muito interessantes de pessoas e coletivos fortemente identificados com as periferias, como a PEM já apresentou aqui

Antes de seguir, é importante dizer o que estou chamando de “identificados com as periferias”. 

Afinal, em toda eleição, vários candidatos que marcam presença em plaquinhas e faixas em portões pela quebrada são eleitos e alguns deles exercem papel importante na Câmara. Certamente, é com o voto dos moradores das periferias que esses vereadores são eleitos. E também é para as periferias que esses vereadores, alguns deles com mandato há muito tempo, direcionam alguns de seus projetos e recursos de emendas. 

Bom, então qual a diferença?

Pra mim, a primeira delas é que há um grande número de candidaturas de pessoas por volta dos 30 anos (com todo respeito aos mais velhos). Gente que viveu os perrengues do final dos 1980 e anos 1990, frequentou ONGs na infância e adolescência e saraus na juventude.

Gente que frequenta igreja e shoppings; Gente que pisou no barro e viu McDonald’s chegar no bairro. Gente que bateu laje e foi fazer cursos ou faculdade no centro da cidade e, nessa travessia, teve tempo de elaborar outro tipo de visão de cidade e política. Gente que já fazia política antes de se candidatar. Uma política sem cargo em gabinetes, sem fazer leva e traz para vereadores. 

Aí talvez a principal diferença: são candidaturas que de formas diferentes representam novas formas de organização política das quebradas, com novas linguagens, novas pautas e novas formas de tratar de velhas pautas. São candidaturas que se afirmam periféricas, pretas, antirracistas e antimachistas.

Que sabem que falta esgoto, mas não menosprezam o paredão grafitado. Que respeitam as tiazinhas da igreja, e as bichas e sapas da pracinha. Sabem que falta busão pro centro, mas querem peruas entre quebradas. Sabem que falta creche, mas valorizam a vivência comunitária. Sabem da violência e não pedem mais violência.

O acontecimento dessas candidaturas revela uma renovação política que vários setores da política não enxergam. Na verdade, não consideram e até combatem. Porque além de questionar o conservadorismo, o racismo, o machismo, essas candidaturas também questionam a forma como os fazeres políticos das periferias são vistos, sempre como fruto da inconsciência, como se fosse sempre pensada com a barriga, pra obter vantagem, o que mantém na periferia política quem deveria protagonizar as transformações que os discursos tanto anunciam. 

O acontecimento dessas candidaturas, e o possível sucesso de algumas delas, também coloca o desafio para que a renovação política continue ocorrendo nas vielas, com independência, para que nenhum eleito se ache maior que os outros ou sozinho para fazer o certo. Sem pressão e apoio das bases, qualquer mandato é apenas um emprego muito bem remunerado. Assim como são a maioria dos mandatos dos homens das plaquinhas nos portões das quebradas. 

*Gisele Brito é mais uma da sul. Jornalista, co-editora do zapcast Pandemia Sem Neurose. Também é mestranda em planejamento urbano na FAUUSP e pesquisadora do LabCidade

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