Por Julia Vitoria. Fotos: Plano de Visitação Tenondé Porã

Da terra, nasce uma cultura. Do alimento, cria-se um ritual. Da ancestralidade, se tem a preservação da história. E do coletivo, a potência para ocupar e restaurar. 

Esses foram alguns dos temas apresentados por Jerá Guarani, agricultora e 1ª liderança feminina da aldeia indígena guarani Kalipety, localizada em Parelheiros (Extremo Sul de São Paulo); e Michel Yakini, escritor, produtor cultural e artista-educador. Ambos participaram do debate “O que te alimenta? Das raízes à criação literária”, mediado pelo poeta Binho Padial na programação da 6ª edição da Feira Literária da Zona Sul (Felizs)

Veja como foi:

Resgate cultural

Como vários outros povos originários do Brasil, Jerá viveu de perto os danos causados pelas limitações das demarcações de terra. Isso afetou diretamente a construção cultural de Jerá.

Ela diz que, para viver as tradições guarani com qualidade, seria importante ter uma distância de 1h a 1h30 entre núcleos familiares. O núcleo familiar tem uma importância vital na manutenção dos saberes e na transmissão dos conhecimentos de uma geração para outra. Nele, os integrantes são os próprios encarregados de ensinar as práticas culturais que fazem parte do cotidiano da comunidade. 

(Foto: Aparecido Alves)
Vista geral da aldeia Tenondé Porã. (Foto: Aparecido Alves)

Porém, ela cresceu na terra indígena Tenondé Porã, que até 2013 tinha apenas 26 hectares. Após 30 anos de luta, os indígenas finalmente conseguiram a ampliação da terra demarcada para 15.969 hectares entre os municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo e Mongaguá, no litoral paulista. Isso permitiu que o povo guarani mbya, conhecido pelas práticas de agricultura, recuperasse áreas degradadas pelos “juruá” – termo que utilizam para se referir aos não-indígenas.

Em 6 anos, foram recuperados 9 tipos de milho guarani e mais de 50 tipos de batata doce, chamada de jety, foram resgatados em uma série de viagens em aldeias guarani de diversas regiões do Brasil.

Mais do que plantar, o alimento está diretamente ligado à espiritualidade do povo. As etapas que envolvem desde a recuperação do solo até a colheita são permeadas por rituais e conhecimentos sagrados, passados de geração em geração pela oralidade.

“Por muitos anos na aldeia pequena, nós fomos prejudicados nessa prática de agricultura, por não poder vivenciar todas as etapas dos rituais, das fases da lua, dos tipos de pratos derivados de cada tipo de semente… E o que nós mais queríamos era ter de novo a terra para poder plantar, colher e viver tudo isso”, explica Jerá. 

Esse saber também vira escrita. Formada em Pedagogia, a líder indígena lecionou, fez parte da direção de uma escola na terra indígena e publicou um livro infantil totalmente em guarani, além de outros em língua portuguesa.

Natureza, fonte da criação

A ancestralidade que brota da terra também vira alimento para a criatividade de Michel Yakini, que é guiado pela espiritualidade na hora de pegar na caneta.  “Os espíritos começaram a conversar comigo para que eu escrevesse”, diz Michel, que através da fé encontrou seu caminho na produção do saber literário. 

As idas aos saraus da região de Pirituba, onde ele mora, permitiu um entendimento de reconhecer sua escrita como algo sagrado e fonte de expansão de sua masculinidade e ser. “Me alimento de poesia, de espiritualidade. Esse alimento de se tornar criativo, em um mundo que nos força a não ser”, observa Michel. 

Uma das práticas que adquiriu em 13 anos de idas aos saraus foi a de ficar em silêncio – que nos conecta com o coração e essa emoção nos faz ser mais que mentais.

Além disso, Michel acredita que todo ser humano tem criatividade. Mas como ela é natural, para que seja aflorada é preciso estar perto e conectado a natureza. As palavras que ele deixa no final de sua fala é, força, leveza e harmonia. 

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