Documentário: Billings, a represa que está no centro de um problema socioambiental

Desde sempre, ela esteve ali: imensidão de água rodeada do verde das árvores e do vermelho das casas.

Quando eu era criança, ir à balsa que liga do Grajaú à ‘Ilha’ do Bororé era programa de fim de semana. A balsa continua lá, apesar da ponte do Rodoanel.

Construída em 1925 para gerar energia, a represa Billings já não cumpre sua função principal. Mas ela continua sendo um cenário presente na vida de 1 milhão de pessoas da Grande São Paulo, como eu, que estão no entorno.

Suas margens, tanto no lado da capital paulista quanto no ABC, foram ocupadas por milhares de famílias fugindo do preço alto dos aluguéis nas regiões mais centrais.

O crescimento desordenado e em área de manancial resultou em vários problemas socioambientais.

As ocupações à beira da represa são tema do documentário “Billings – Moradias Irregulares”, resultado do trabalho de conclusão de curso dos estudantes de jornalismo Alline Juscelino, Caroline Dantas, Mariana Belmont, Mariana Bernun e Nelton César, da Universidade de Santo Amaro (Unisa).

Mariana Belmont vive entre as as áreas de proteção ambiental Bororé-Colônia e Capivari-Monos, criadas para preservar a natureza que ainda resta em São Paulo.

Moradora da Colônia Paulista, bairro fundado por imigrantes alemães na cratera que fica no distrito de Parelheiros, extremo sul da cidade, Mariana se acostumou com o verde ao seu redor.

Ela sempre se envolveu em movimentos e questões ligadas ao meio ambiente e aos problemas causados pelo homem em toda a cidade – o que levou à produção do documentário.

“Um dos objetivos do trabalho é mostrar para a população a situação que ocorre na região. Mostrar a degradação que vem sendo feita, o descaso com a população da Billings, as falhas do poder público e as irregularidades”, explica Mariana.

Segundo ela, a prefeitura possui programas que ajudam a conter o crescimento habitacional na região, como o Programa Mananciais e construção de parques lineares na região, o que evita a construção nas margens.

“Mas essas ações funcionam mesmo na teoria e no site da prefeitura. O que se vê na realidade é ainda mais descaso com a população e falta de políticas públicas de habitação”, conta Mariana. “Não adianta ter planejamento para novas famílias e as que estão lá às margens da represa serem esquecidas ou receberem um dinheiro que não vai mudar muito a situação deles”.

Como relatado em um debate promovido em 2010 pelo Periferia em Movimento, a prefeitura de São Paulo tem promovido a retirada de moradias a pelo menos 50 metros da margem da represa. Como indenização, R$ 8 mil para que os moradores deixassem suas casas – e histórias – para trás.

Na luta por moradias dignas, estão movimentos populares como a Rede Extremo Sul, que segue denunciandos os desmandos de construtoras e poder público.

O tema foi alvo de pesquisa do TCC de Mariana e dos colegas, mas pouco explorado no documentário por questão de tempo disponível. Entre os entrevistados, estão o ex-secretário municipal do verde e meio ambiente Eduardo Jorge, entre especialistas, artistas da região e alguns moradores.

“Acreditamos que os movimentos sociais devem se fortalecer e cobrar ações e políticas públicas dignas do poder público, não só prefeitura, mas do estado, do governo federal. A região sul precisa se fortalecer, a especulação imobiliária está batendo em nossas portas, problemas como a abertura de uma alça de acesso ao Rodoanel trecho sul podem afetar a região com mais construções irregulares e a degradação ambiental”, completa Mariana.

“Eu fico indignada, mas às vezes não sei como agir, como lutar”, conclui Mariana, que agora quer levar esse vídeo a escolas, promover debates com a sociedade e com as autoridades. “Vivemos num sistema bizarro que ri da nossa cara, políticos que acham que fazem favores para seus eleitores”.

ASSISTA ABAIXO AO DOCUMENTÁRIO “BILLINGS – MORADIAS IRREGULARES”