A normalidade demora a voltar: Como ficou a cabeça depois da pandemia?

A normalidade demora a voltar: Como ficou a cabeça depois da pandemia?

Nesta terça-feira (10/10), é celebrado o Dia Mundial da Saúde Mental. E apesar da pandemia ter sido declarada oficialmente encerrada há 5 meses, o que se vê ainda é reflexo desse período: o aumento na procura por atendimento psicológico bem como índice de patologias como ansiedade e depressão

Compartilhe!

Por André Santos. Edição: Thiago Borges. Arte: Rafael Cristiano

“Para mim foi uma época difícil, principalmente em relação ao trabalho. Sou costureira e não tinha serviço, e meu esposo era motoboy na época. Todas as vezes que ele saía para trabalhar, o medo era algo que dominava o meu coração e a mente. Até porque no contexto de pandemia, os motoboys foram quem ficaram na linha de frente nesses cuidados indiretos com a população”.

É dessa maneira que Gessica de Paula, de 31 anos, define o período de isolamento social devido à pandemia de covid-19. Apesar de ter sido encerrada oficialmente em 5 de maio de 2023 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o período ressoa na mente de muitas pessoas, que não conseguem retomar a vida de antes.

Natural da Bahia, militante, feminista e moradora de do Jardim Guaraú (zona Oeste de São Paulo), Gessica foi uma das milhares de pessoas atingidas diretamente pelos efeitos do período de crise sanitária e financeira, que vitimou mais de 700 mil pessoas no Brasil e deixou diversas sequelas sociais, inclusive na forma de se ver e ocupar o mundo.

Kamillah Neves (foto: Arquivo pessoal)

“A pandemia impactou e atrasou o desenvolvimento da compreensão do papel social do indivíduo. O ser humano precisa de socialização porque a gente precisa estar em grupos sociais para que tenhamos espelhos de como vamos agir”, explica a psicóloga clínica Kamilah Neves, 24, moradora de Itaquera (zona Leste de São Paulo) e especializada no atendimento a mulheres.

De acordo com o relatório “Esgotadas: empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres”, da organização não governamental Think Olga, quase metade (45%) das mulheres brasileiras possui um diagnóstico de ansiedade, depressão ou algum outro transtorno mental no contexto pós-pandemia de covid-19.

Realizada em maio deste ano com 1.078 mulheres de 18 a 65 anos, em todos os estados brasileiros, a pesquisa aponta que falta de dinheiro, sobrecarga e insatisfação com o trabalho são as principais razões para esse adoecimento e indica que as mulheres negras são as mais impactadas nessas condições.

“É complicado porque essas pessoas precisaram pegar outros papéis. Por exemplo, quem é mãe não é professora, mas precisou ser [durante o período de isolamento]. E até em relações adultas, muitas mulheres tiveram a percepção que estavam em um relacionamento abusivo, pois ficou escancarado o papel de ‘mãe’ dentro da relação”, diz Kamilah.

Procura maior

Ainda de acordo com a pesquisa, 91% das entrevistadas afirmam que a saúde emocional deve ser levada a sério e 76% estão buscando prestar mais atenção a isso, principalmente após a pandemia.

Esses números se refletem na realidade, segundo Kamilah. A psicóloga conta que foi visível o aumento da procura por atendimento clínico, uma vez que houve um aumento na circulação de informações sobre isso, que passa a ser cada vez mais recorrente.

“Existe uma linha muito tênue entre o autodiagnóstico e a auto identificação, que é muito importante. Auto identificação é você perceber que tem alguma coisa que não deveria estar acontecendo, ser gentil o suficiente pra perceber dessa forma, de que não precisa ter esse sofrimento, e trazer de uma forma objetiva para o atendimento clínico”, diz.

No entanto, o aumento da procura não significa que o atendimento tornou-se acessível. De acordo com o relatório Uma Nova Agenda para a Saúde Mental na Região das Américas, divulgado em junho pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), 80% das pessoas não tiveram acesso adequado aos tratamentos necessários durante o ano de 2020. Os países das Américas registraram um aumento de mais de 30% nos diagnósticos de transtornos de ansiedade (32%) e depressão (35%) durante a pandemia de Covid-19.

“Mesmo se for um valor bem simbólico, continua sendo um valor. Continua sendo uma coisa que às vezes as pessoas não conseguem pagar”, avalia Kamilah, que atua exclusivamente com atendimentos on-line e enxerga a modalidade como uma forma de democratizar o acesso ao tratamento.

“Antes não existia clínico on-line, o conselho não permitia. Mas a partir da pandemia começou a ter, a galera conseguiu diminuir o preço que sempre foi alto, e começou a ter uma procura maior por estar mais acessível”, conta.

Saúde Mental nas Periferias

Irmã de uma pessoa com quadro clínico de esquizofrenia que foi assassinada aos 23 anos, em 2020, Gessica fez do luto a sua luta. A partir do triste fato, e também dos recorrentes descasos e violências por parte do Estado em relação aos cuidados durante o período de gestação de sua irmã mais nova, que possui transtorno de personalidade, ela iniciou o Saúde Mental nas Periferias junto a outras 4 mulheres– Ana Carolina Luz, Brenda Silva, Lyn Sagaz e Natasha Helsinger.

O projeto tem como intuito diminuir a distância entre a população periférica e o cuidado da saúde mental. A iniciativa acolhe pessoas em vulnerabilidade social a partir da escuta e faz um importante trabalho de conscientização e prevenção.

Géssica de Paula (foto: André Santos)

“Foi nesse episódio de tanta violência que me veio a necessidade de criar um projeto que falasse sobre saúde mental, dentro das periferias e no contexto periférico”, conta Gessica.

A propagação de informações e combate ao preconceito relacionados ao assunto é uma das principais missões do projeto, que funciona a partir de rodas de conversa para conscientizar e estimular a busca por atendimento, em caso de necessidade. No entanto, o acesso à saúde pública, que de forma geral é um problema no Brasil, dificulta esse processo.

As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e os Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) contam com profissionais com capacidade para realizar os atendimentos, mas em número menor que o necessário para suprir a demanda.

“A dificuldade é porque no CAPS e no SUS normalmente tem poucas vagas e poucos psicólogos atuando. Então, tem que ser muito grave para chegar no ponto de esses serviços te acolherem de fato”, conta Kamila.

“A periferia não tem o acesso à saúde mental e nem seus direitos garantidos. Ainda por cima, a informação sobre saúde mental chega de uma forma totalmente preconceituosa, para que a gente não busque esses cuidados. O plano do sistema é criar pessoas pobres adoecidas. Pessoas adoecidas são mais fáceis de ser exterminadas”, diz Gessica.

Contexto social

Ao se pensar em saúde mental, sobretudo em relação às pessoas periféricas, é necessário incluir no debate questões como renda, raça e gênero. De acordo com Kamilah, é correto afirmar que alguns transtornos psicossociais foram desenvolvidos a partir de traumas inerentes a essas questões. “A gente não pode falar de racismo como se fosse uma fragilização da pessoa, é um fenômeno social e acontece”, diz.

A discriminação racial desumaniza a pessoa e pode potencializar o surgimento de doenças e síndromes que prejudicam a saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros no Brasil é 45% maior do que entre brancos.

Gessica relembra que foi vítima de racismo durante a infância, e que perceber que não esteve em contexto igualitário em relação às outras pessoas de sua escola ainda a limita de diversas formas até os dias de hoje. “Imagine quantas pessoas não têm seus traumas escondidos. Que sempre foram excluídas de certos lugares e pessoas nessa sociedade, por todo seu contexto. Tudo isso impacta no adoecimento mental, te faz você se desconectar do seu eu, faz você se excluir, não se sentir pertencente a lugar nenhum”, conta.

Segundo o Estudo sobre Saúde Mental e Bem-estar de Adolescentes realizado com jovens do Brasil, da Índia e do Quênia e encomendado pela Plan International, os principais fatores que levam ao sofrimento emocional são externos, causados pelos ambientes onde vivem. Entre os motivos, estão a pobreza, a violência física e/ou sexual e as normas de gênero.

“A pobreza gera o adoecimento. É uma prática do capitalismo moer pessoas pobres. E o adoecimento gera dinheiro. Essa narrativa de que dores não dão lucro é algo muito infundado. As ruas estão cheias de nossos corpos, de pessoas pobres, pretas, mulheres, LGBTQIA+, homens, gerando lucros para os donos do capitalismo, sanando suas dores com o que eles criaram para nos matar”, finaliza Gessica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Comente usando o facebook

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Comente usando o facebook

Nosso manifesto:

Nossas redes sociais:

Notícias recentes:

Confira também

Posts relacionados

Drogas K: Canabinóides sintéticos desafiam profissionais de saúde nas periferias

K2, K4, K9… Os nomes são muitos. Mais barata que o crack, substância “emergente” circula há mais de uma década nas quebradas, se espalha por São Paulo e mídias sensacionalistas pregam medo de “efeito zumbi”. Prefeitura diz que impacto é maior entre crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, vítimas de bullying, racismo, homofobia e transfobia, mas profissionais alertam para a estigmatização. Entenda como lidar com a situação na perspectiva da redução de danos!

Confira!
Apoie!
Pular para o conteúdo