Saindo do vermelho: como reorganizar a vida financeira após dívidas com bets

Saindo do vermelho: como reorganizar a vida financeira após dívidas com bets

Colocar a vida em ordem depois de cair no vício das apostas online pode ser um desafio. A educadora financeira Dina Prates explica por onde começar

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Tempo de leitura: 9 minutos

O vício em jogos de apostas online tem desencadeado uma série de problemas: para além da própria dependência, as dívidas que surgem em decorrência das bets têm abalado estruturas familiares, a saúde mental e financeira dos apostadores. 

O Instituto DataSenado apontou, em um levantamento referente ao ano de 2024, que 42% dos brasileiros que afirmaram ter apostado algum valor ao longo de um mês estavam endividados, com contas em atraso há mais de 90 dias.

Página de plataforma de apostas on-line (foto Bruno Peres - Agência Brasil)

Bruno Peres/Agência Brasil

A diarista Ana*, 44, de Diadema, região Metropolitana de São Paulo, começou nas bets por curiosidade e em poucos meses estava completamente envolvida pelo vício. A sua primeira aposta foi em 2022, em um dos jogos da plataforma Blaze, no valor de R$ 40.

Depois de ser fisgada pelo prazer momentâneo causado pela prática, ela começou a destinar todo o dinheiro que tinha para as plataformas. Não demorou para que as dívidas começassem a surgir, principalmente depois que ela abandonou o emprego para se dedicar integralmente às bets. 

“Quando eu não tinha dinheiro para jogar no dia, ficava desesperada tentando encontrar formas de conseguir. Então comecei a fazer empréstimo e quando não havia mais crédito disponível, comecei a pedir para amigos e parentes”, conta. 

Além de nunca ter sacado o dinheiro que ganhava com as apostas, pois sempre o usava para apostar novamente, Ana perdeu cerca de R$ 20 mil com os depósitos. Ela só se deu conta de que estava no meio de um problema quando seu nome foi registrado no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) e suas dívidas chegaram a R$ 7 mil. 

“Foi um processo bem lento, cheio de recaídas com a ilusão de que iria ganhar dinheiro no jogo e quitar tudo de uma vez. Eu tinha a ilusão de que o próprio jogo iria me tirar daquela situação, o que não aconteceu”, desabafa.

Excluir o app e buscar ajuda

Página de plataforma de apostas on-line (foto Bruno Peres - Agência Brasil)

Página de plataforma de apostas online./Crédito: Agência Brasil

Depois de buscar ajuda no CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua região, Ana enviou uma mensagem para o aplicativo do jogo e fez a solicitação para excluir sua conta. Esses foram os primeiros passos para que ela começasse a reorganizar sua vida, principalmente a financeira. 

“Minha conta foi excluída permanentemente e eu comecei a parcelar as dívidas uma de cada vez, da menor para a maior, e assim eu ia sentindo o prazer de quitar uma dívida cada vez que acabava uma”, conta. 

Sua dívida principal estava relacionada ao cartão de crédito, mas ela também fez empréstimo e teve de arcar com os valores que pegou emprestado com seus familiares. 

“Em algumas renegociações paguei muito juros e em outras consegui descontos. Com os parentes eu não acumulei dívidas, porque assim que ganhava eu já pagava pensando em renovar esse crédito futuramente”, lembra. 

Como sair das dívidas causadas pelas bets? 

Em reportagem recente, a Periferia em Movimento indicou que a saúde pública não está preparada para lidar com o problema do vício em bets, que piora cada vez mais com a falta de regulamentação das plataformas que distribuem os jogos.

Desta vez, a educadora financeira Dina Prates explica qual o caminho para colocar as contas em dia e recuperar o crédito na praça. Ela é CEO da Ujamaatech, uma startup de soluções de educação financeira com tecnologia. 

A educadora financeira Dina Prates. /Crédito: Guilherme Souza

“Primeiro, eu sempre oriento montar um mapa das dívidas, elencar todas as dívidas, até com pessoas físicas. Assim, a gente consegue entender qual é a que tem mais prioridade dentro do orçamento”, explica. 

O mapa das dívidas deve conter: todas as dívidas existentes, o saldo devedor atual, o valor original, o motivo do atraso ou da origem da dívida e o nível de prioridade de cada uma. Por fim, é preciso considerar as possibilidades de negociação.

A especialista ressalta que a lista de prioridades é essencial para ajudar a identificar qual dívida deve ser quitada primeiro. Por exemplo, pode-se estar devendo a uma pessoa com quem se convive diariamente e que também está precisando do dinheiro. Nesses casos, talvez o banco possa esperar. 

Depois disso, é importante iniciar uma reserva para dívidas, ou seja, guardar uma quantia ao longo do tempo para dar entrada em uma negociação, mesmo que esse valor seja de R$ 50 por mês, por exemplo. 

“Então, segure a sua emoção, acalme o seu coração, acolha a sua realidade e organize o seu orçamento primeiro, para depois olhar para as dívidas. A gente não pode deixar de existir, de ter o mínimo que seja de respiro no mês, de ter um momento de lazer e entrar numa loucura de que precisa quitar tudo do dia para a noite”, destaca a educadora financeira. 

Qual a melhor maneira de negociar com o banco? 

Para pensar a renegociação, a educadora financeira explica que existem dois cenários que devem ser levados em conta: se a pessoa está com uma dívida em atraso há pouco tempo, como um ou dois meses, o melhor caminho geralmente é buscar uma negociação diretamente com o banco. 

“Nessa fase, a dívida ainda pode ser renegociada com revisão de parcelas, aumento do parcelamento, abatimento do valor ou complementação em parcelas. Têm diferentes casos que podem ser renegociados”, ressalta. 

No entanto, se a dívida está em atraso há mais de um ano, por exemplo, costuma ser mais vantajoso recorrer às plataformas de renegociação, como Serasa, Boa Vista, Acordo Certo, entre outros. Nelas, a dívida já aparece com condições pré-negociadas, geralmente com desconto.

Crédito: Freepik

“Se é uma dívida muito alta e o banco não está conseguindo dar uma opção de negociação, então deixa chegar nessas plataformas, porque de lá ela geralmente vai vir com um desconto mais interessante para a pessoa conseguir fazer a renegociação”, explica Dina. 

Também é importante compreender qual tipo de crédito foi contratado e de que maneira isso reflete nos juros que serão pagos durante a renegociação da dívida. Em uma ordem de taxa mais alta, primeiro está o cartão de crédito, depois o cheque especial, seguido pelo crédito pessoal e, por fim, o consignado.

“Endividados também têm poder de negociação. Não adianta negociar uma dívida que você não tem condições de pagar. Então sempre comece olhando para o seu orçamento e vendo qual é a sua disponibilidade”, aconselha a educadora financeira. 

Como renegociar dívidas com familiares?

Falar sobre dinheiro em família ainda é um tabu, principalmente quando envolve dívidas. No caso em que há um convívio frequente entre essas pessoas, a situação pode escalar para conflitos e impactar a dinâmica familiar. 

Neste sentido, Dina ressalta a importância de formalizar a dívida, seja por meio de uma mensagem no WhatsApp, por e-mail ou mesmo um acordo verbal, com as definições claras sobre o valor emprestado e as condições de pagamento. Essa dinâmica facilita a organização do pagamento para a pessoa devedora e, para a credora, oferece uma perspectiva clara de quando a dívida será quitada. 

“Muitas vezes, a situação entra em um limbo e uma das maiores reclamações que escuto sobre dívidas familiares é justamente essa: ‘A pessoa tem dinheiro e não me pagou. Por que não me pagou? Será que não sou prioridade?’ Mas, muitas vezes, não é sobre prioridade, é que isso não foi acordado, não ficou escrito. Por isso, é importante falar sobre dinheiro no contexto familiar”, pontua a especialista. 

*Nome fictício usado para proteger a identidade da entrevistada. 

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