*Por mulheres da Escola Feminista Abya Yala, sobre o veto presidencial a lei de acesso a produtos de higiene e condições adequadas de saneamento às pessoas com útero

Vivemos numa sociedade colonizadora, patriarcal e capitalista. Sofremos, cada uma de nós a seu modo, a opressão do machismo, o cárcere da cisheteronormatividade, a violência racista e a exploração de nossa força.

Mulheres trabalhadoras são atingidas por todos os lados e mal temos tempo de respirar. Nos esquivando do explorador da força do trabalho, seguimos permanentemente sem descanso, sustentando ainda o cuidado com a vida que nos rodeia e que, como nós, é atacada.

Nosso trabalho invisível mantém o mundo girando: não haveriam homens adultos para ir ao trabalho se antes, por muitos anos, não tivéssemos cuidado de crianças a quem o Estado não só ignora como muitas vezes aprisiona ou assassina.

Não haveria pessoas vivas para o trabalho social se não entregássemos tanto empenho em manter alimentadas as almas que habitam a comunidade conosco. É tudo trabalho, é tudo cuidado, é tudo tarefa essencial que recai sobre nossos corpos como se fosse natural.

Nossos corpos, com útero, suportando o peso do mundo, sem auxílio, sem reconhecimento e sem descanso.

Sangramos quando nos batem, sangramos quando matam nossos jovens, sangramos quando despejam nossas comunidades e quando queimam as florestas, assassinam os rios e os animais. Mas nossa menstruação é sagrada, porque são sagrados os ciclos que a vida exige para perdurar.

Tornam nossa existência invisível, nossos corpos são apagados e nossos ciclos são desrespeitados. Vivemos açoitadas há 500 anos e, ainda assim, todos os dias nos roubam uma porção de dignidade.

O governo federal vetou um projeto de lei que amparava a distribuição de insumos de higiene para pessoas que menstruam. Inviabilizou a distribuição de absorventes íntimos e coletores em escolas públicas e a quem está em situação de vulnerabilidade.

Segundo o relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos” da Unicef, 4 milhões de jovens que menstruam estão nessa situação e não possuem recursos para adquirir estes itens, recorrendo muitas vezes ao uso de materiais inadequados e prejudiciais à saúde, como folhas de jornal, roupas velhas e miolo de pão. Parte desta juventude não frequenta, por este motivo, as aulas durante o período menstrual.

Já sabemos que o Estado é patriarcal e que nós seremos nosso melhor governo. A autogestão nos propiciará a emancipação.

Ao mesmo tempo que construímos as bases desta, nós precisamos implementá-la já, ofertando cuidado e dignidade a quem precisa de auxílio para ter assegurados os ciclos essenciais que estar vivo impõe.

Precisamos denunciar mais essa atitude misógina do governo federal, precisamos exigir que retroceda e garanta que os recursos públicos sejam utilizados para o bem estar coletivo, ofertando mais a quem mais precisa. Precisamos realizar campanhas de solidariedade, provendo estes insumos às escolas e coletivos que possam distribuí-los a quem precisa.

É agora mesmo que a gente faz o mundo novo. 

*A Escola Feminista Abya Yala é uma iniciativa que realiza encontros de estudo e cuidado coletivo para fortalecimento principalmente das mulheres periféricas da Zona Sul da capital paulista. Com a pandemia de coronavírus, articulou doações e distribuição de cestas básicas, incluindo absorventes, além de atendimento assistencial e psicológico a famílias mais vulneráveis

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