De mãe como figura paterna a pressão por sexo, homens periféricos confessam angústias e violências: “mundo é cruel”

De mãe como figura paterna a pressão por sexo, homens periféricos confessam angústias e violências: “mundo é cruel”

Thiago Borges

Thiago Borges

Levantamento feito por coletivo Masculinidade Quebrada no Extremo Sul de SP dá pistas sobre o que passa em muitas cabeças nas periferias

Texto por Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

Quando foi a última vez que você chorou? Como é a relação com sua companheira? Já pressionou ou foi pressionado por alguém a fazer sexo? Essas e outras perguntas compõem um levantamento realizado em 2019 pelo coletivo Masculinidade Quebrada no Extremo Sul de São Paulo. E os entrevistadores ouviram respostas sinceras, como: “chorei ontem”, “a relação tá desgastada”, “sim, já pressionei alguém a transar comigo” ou “já fiz sexo sem querer fazer”.

Criado em 2018, o coletivo aborda a violência de gênero na perspectiva de homens nas periferias, autores desses atos violentos. A pesquisa, realizada antes da pandemia nos bairros de Cantinho do Céu (distrito do Grajaú) e Jardim Iporanga (Cidade Dutra), tinha por objetivo levantar informações e divulgar uma série de rodas de conversa sobre o assunto que aconteceriam nessas localidades.

O levantamento não reflete toda a diversidade nem ilustra a média do pensamento do homem periférico. A abrangência territorial e o número de entrevistados (80 homens cis heterossexuais foram abordados e apenas 34 responderam até o final do questionário) também limitam essa interpretação. Mas o inquérito dá pistas do que passa na minha, na sua e em muitas cabeças nessas quebradas.

“A gente abordava os homens que estavam parados na rua, no bar, no parque, na praça, jovens parados em grupo”, explica Rafael Cristiano, educador integrante do grupo e um dos pesquisadores. A própria abordagem teve que mudar no processo, já que ninguém topava falar sobre masculinidade. “Quando a gente mudou o foco para saúde masculina, aconteceu. A gente começou a ter as respostas”, diz Rafael, que também é designer da Periferia em Movimento.

De início, Rafael teve receio de fazer abordagens na rua. “Eu tinha muito medo [de abordar]. A minha masculinidade foi muito violada por outros homens. Então era muito difícil abordar e conversar”, conta.

Mas rolou, e sem grandes surpresas. Ele explica que, por já trabalharem com formações com meninos adolescentes e homens adultos, já imaginavam que a resposta seria dada com sinceridade desde que fosse garantido o sigilo. “Havia uma pausa no que aquele homem tava fazendo, mesmo que fosse nada, pra prestar atenção naquilo”, diz.

O que a pesquisa mostra

Com maior representatividade de pretos e pardos (76,5%), católicos (44,1%) e pessoas sem religião (35,5%), os participantes do inquérito em sua maioria (64,7%) estavam trabalhando na época (em especial, como autônomos, atendentes, mecânicos, seguranças). Ao falar sobre a orientação afetiva e sexual, alguns responderam especificamente “gosto de mulher” e “sou homem”.

A maioria dos entrevistados têm filhos (55,9%), se sentem satisfeitos com essa condição e muitos têm a própria mãe como principal figura paterna (39,4%, ante 42,4% que veem o pai nesse lugar). “Há uma ausência paterna, que é muito falada, mas que a gente nota que isso gera um sentimento neles. A gente ouviu homens que não conviviam com os próprios filhos, mas que citavam a mãe como uma referência paterna pra eles”, explica Rafael.

Quase todos os homens são casados, namoram ou vivem com uma companheira e uma parcela (18,8%) relatou que essa relação é ruim devido ao desgaste do tempo. Quando questionados se são carinhosos, 88,2% disseram que sim, mas um percentual menor (79%) acredita que recebe carinho de volta. Entre os que responderam que não ganham carinho, a justificativa é de que “o mundo é muito cruel”.

Pouco mais da metade chora com alguma frequência e 70% costumam desabafar sobre seus problemas com amigos ou companheira. E apesar de 85% nunca terem feito psicoterapia, 80% consideram a prática como algo positivo “para quem se precisa”, isto é, se colocando fora dessa condição. O cuidado com a saúde física também aparece: metade disse que não vai, quase não vai ou vai uma vez por ano ao médico.

Cerca de 30% disseram que já se sentiram pressionados a ter uma relação sexual, enquanto 12% admitiram ter pressionado alguém a fazer sexo. Muitos conhecem alguém que já cometeu alguma violência de gênero (47,1%) e a maioria já presenciou uma situação do tipo (64,7%).

Em torno de 80% também conhecem alguém que está preso e quase todos (94%) já passaram por uma abordagem policial, sendo que 62% tiveram um sentimento negativo nessa situação.

 

Colaboração

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