Mestre Bigo: referência na Capoeira Angola celebra 80 anos com legado ancestral no Jardim Pedreira, em SP

Mestre Bigo: referência na Capoeira Angola celebra 80 anos com legado ancestral no Jardim Pedreira, em SP

De Itaparica  à periferia da Zona Sul de São Paulo, baiano formou gerações e mantém vivo o estilo mais tradicional da capoeira como herança e caminho. Nesta véspera do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, celebrado em 21 de março, destacamos a história de um homem preto que transformou um território

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Tempo de leitura: 8 minutos

Berimbau, pandeiros e caxixis ecoam a ancestralidade da Capoeira Angola pelas quebradas paulistanas.

Pelo menos uma vez por mês, os sons dos instrumentos rompem os muros do Núcleo de Convivência de Idosos (NCI) Portela, localizado no Jardim Pedreira, periferia da Zona Sul de São Paulo.

Aqui dentro, quem dá o tom é um senhor negro retinto com vestes brancas e cabelo grisalho. Ele é chamado de mestre.

Mestre Bigo (foto: Douglas Fontes)

Mestre Bigo (foto: Douglas Fontes)

É o Mestre Bigo, como ficou conhecido Francisco Thomé dos Santos Filho. Neste março de 2026, ele completa 80 anos de idade – desses, 72 anos são dedicados à Capoeira Angola

Estilo mais tradicional entre as categorias do jogo no Brasil, a Angola tem o ritmo mais lento, com movimentos rápidos, furtivos e perto do chão. Tem esse nome pela forte ligação com a origem africana.

No segundo andar do prédio do NCI, funciona o espaço que Mestre Bigo fundou em 1989 para a o estilo e que transformou em lar: a Academia de Capoeira Angola Ilê Axé (ACAIA).

Mas o jogo de Bigo é anterior a isso, e não está preso no tempo. Como ele diz:

 “A capoeira não tá no pé e nem na mão. Tá no sangue e no coração.” – Mestre Bigo

Discípulo de Mestre Pastinha

Bigo nasceu em 24 de março no ano de 1946, no estado da Bahia, mais especificamente na Ilha de Itaparica, na Baía de Todos os Santos.

Ele se define como “nativo”, que em sua explicação é quem nasce e cresce em territórios ligados ao mar. “Eu nasci na beira da praia, numa ilha”, afirma.

A capoeira atravessa esse percurso e organiza sua vida.

Por intermédio de um tio, Bigo conheceu Vicente Ferreira, mais conhecido como Mestre Pastinha, em um jogo entre ele e Mestre Cobrinha Verde.

Reverenciado no meio, em 1941 Pastinha abriu o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), segunda escola de capoeira registrada pelo governo baiano.

“Eu vi aquele homem pequeno jogando, aí me apaixonei pela capoeira e não parei mais”, conta Bigo.

Bigo afirma que já praticava capoeira desde 1954, mas recebeu seu primeiro certificado de discípulo em 1969 das mãos do grande Mestre Pastinha. Foi com ele que Bigo treinou até 1975, se aprimorou e mantém os ensinamentos da modalidade Angola, que teve Pastinha como seu maior propagador.

A Capoeira Angola atravessou o percurso de Bigo, organizou sua vida e o educou.

“Se você conversar com qualquer mestre é assim: a Capoeira é assim por exigir muito de nós, até o espiritual.”

Hoje, Bigo carrega uma história ancestral e, de forma filosófica, passa isso para as novas gerações.

“Graças a Deus, gosto de todos eles (os discípulos) e eles todos me consideram, me respeitam”.

Mestre Bigo e certificado que recebeu das mãos de Mestre Pastinha (foto: Douglas Fontes)

Mestre Bigo e certificado que recebeu das mãos de Mestre Pastinha (foto: Douglas Fontes)

De discípulo a mestre

Entre as histórias de legado, está a do professor Jairo Souza – hoje, Mestre Cabo Jairo, formado pelo próprio Bigo.

Filho de pessoas da Bahia, nascido em São Paulo e criado na região da Pedreira desde o primeiro ano de vida, Jairo guarda essa história de perto.

Aos 14 anos, em 1995, ele chegou primeiro à casa do mestre e depois a uma festa.

A roda estava formada, com mestres jogando, berimbau tocando, gente em volta. Mas de repente, o berimbau silenciou.

“Na hora que o Mestre Bigo chegou, todo mundo parou”, lembra Jairo.

Bigo não chegava como as outras pessoas. Pedreiro de profissão, ele vinha direto do trabalho, com roupa comum, sacola na mão. Em São Paulo desde 1975, fez muita coisa: trabalhou de presídios a empresas de alimentos.

Mas na Capoeira, Bigo se fez Mestre.

Sede da ACAIA, no Pedreira (foto: Guilherme Silva)

Sede da ACAIA, no Pedreira (foto: Guilherme Silva)

“Ele canta primeiro”, lembra Jairo. “Tem um jeito de cantar muito específico.”

A roda se fecha em silêncio. Depois do canto, o jogo começa.

Ali, como aconteceu com Bigo diante de Pastinha, a decisão se forma. “Foi naquele momento que eu pensei: eu quero aprender essa capoeira”, conta Jairo, que se encantou.

Com Bigo, isso se transforma: . “Ele tem uma energia que muda o clima.”

Mais do que jogar, foi uma reconexão. Filho de um  pai que também foi capoeirista, mas sem muito contato, o encontro de Jairo com Bigo traz de volta a ancestralidade.

“Eu entendo que ele tava me ligando não só à minha ancestralidade direta, mas a uma outra, de um tempo imemorial (…) A capoeira me deu direção” – Mestre Cabo Jairo.

Para um adolescente da Zona Sul nos anos 1990, o cotidiano era   atravessado pela violência. Ter um mestre negro foi importante para criar referência e autoestima.

“Me blindou para muita coisa”, ressalta Jairo.

Memória viva

No Pedreira, o nome de Bigo atravessa gerações. “Ele passa na rua, as pessoas chamam ele de mestre”, diz Jairo.

Mesmo quem nunca treinou reconhece. “Os vizinhos choraram quando ele se mudou”, conta o aluno.

Ao longo dos anos, dezenas de pessoas passaram por suas aulas. Algumas histórias ficam, outras se interrompem.

Mestre Bigo (foto: Douglas Fontes)

Mestre Bigo (foto: Douglas Fontes)

“Celebrar os 80 anos de um homem preto, de um mestre da cultura popular, tem um significado gigante”, afirma Jairo.

“A longevidade dos meus mais velhos fala sobre a minha longevidade (…) Celebrar a vida dele é celebrar a nossa continuidade. Presente, passado e futuro.” – Mestre Cabo Jairo

Hoje um pouco distante (hoje, Bigo mora na Vila Chabilândia, Zona Leste), o território ainda carrega o que ele deixou.

O respeito na comunidade foi construído nas condições possíveis: no começo, faltava espaço. As aulas passaram por espaço alugado, associação de moradores, até se fixarem por anos no fundo do quintal de uma aluna.

Em outros momentos, o obstáculo vinha de fora e famílias que proibiam filhos de treinar por associarem a prática a religiões de matriz africana.

Porém, Bigo nunca abriu mão da Capoeira Angola, mesmo quando outras vertentes ganharam mais visibilidade.

“Não tenho a casa de morar, moro de aluguel. Mas eu sou um pobre rico e tenho bons amigos”, diz ele.

Já aposentado, Mestre Bigo reflete sobre uma vida modesta:

“Eu não sou aquele mestre que é mais velho e que se acha o rei da cocada preta. Eu sou um professor simples, eu sou uma pessoa simples” – Mestre Bigo

Edição: Thiago Borges. Fotos: Douglas Fontes / Divulgação

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