Colaboração de André Santos (reportagem)

Edição de Thiago Borges. Foto em destaque: Danilo Ramos

Wagner Moura é fotografado comendo quentinha de camarão com pessoas sem teto. Hipocrisia? Na verdade, tratavam-se de acarajés doados por um restaurante paulistano para a exibição de “Marighella” na ocupação Carolina Maria de Jesus, no distrito de Lajeado (Extremo Leste de São Paulo). A comida típica da Bahia, que tem camarão na receita, não foi montada como de costume e portanto servido no prato. A falsa polêmica foi lançada nas redes sociais por representantes da extrema direita, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro, e prontamente rebatida.

O bafafá encobriu o que importa de fato: o acesso ao filme em uma ocupação por moradia na periferia.

“A maioria que estava assistindo era o nosso povo. Isso que é importante: dar ao trabalhador periférico acesso à cultura, não só entretenimento. O filme reforça tudo aquilo que a gente já vem falando há muito tempo”, conta Cláudia Garcez, coordenadora estadual do movimento e uma das principais lideranças da ocupação Carolina Maria de Jesus.

Foi na quinta-feira (11/11) que o espaço virou palco para a exibição, promovida pelo CineB Solar em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). A sessão ao ar livre começou a ser preparada nos últimos dias pelos próprios moradores do local e integrantes do MTST.

Claudia Garcez, do MTST (foto: André Santos)

“Tivemos pouco tempo para organizar aqui, mas sabemos que somos um coletivo, então contamos com a ajuda de todos para poder fazer as coisas acontecerem”, explica Claudia. A amostra deu chance pra que os moradores descobrissem talentos e aptidões até então desconhecidos, como a organização de eventos e montagem do cenário.

O espetáculo encerrou a temporada de estreia do longa metragem, que chegou aos cinemas oficialmente dia 4 de novembro e conta a história de Carlos Marighella, escritor e político baiano que entrou para a luta armada contra a ditadura militar e foi morto pelo regime.

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Além de Wagner, que dirige o filme, o evento contou com a participação de pessoas da equipe técnica, dos atores Henrique Vieira, Humberto Carrão, Felipe Braga e da atriz Bella Camero. Marcaram presença também o coordenador nacional do MTST Guilherme Boulos, o deputado federal Ivan Valente (PT) e o idealizador do projeto CineB Solar e vice-presidente da CUT Estadual Luiz Cláudio Marcolino.

“É muito importante que as pessoas tenham acesso para que se reconheçam na tela, para saberem que suas histórias estão sendo contadas e que elas importam”, observa Cidálio Vieira, coordenador do CineB Solar, que em 15 anos de atuação já exibiu filmes para mais de 75 mil pessoas.

Vale destacar que o sistema que permite isso aconteça funciona à base de energia solar, utilizando uma van equipada com placas solares, baterias e conversor. O equipamento transforma a energia do sol em elétrica, alimentando os sistemas de projeção e som. A apresentação ocorreu de maneira gratuita mediante apresentação de ingresso. Pouco mais de 1.000 entradas foram distribuídas a integrantes da ocupação.

Revolução Solidária

Batizada em homenagem à escritora mineira Carolina Maria de Jesus, que viveu na extinta favela do Canindé e escreveu livros como “Quarto de Despejo”, a ocupação marcou a retomada da metodologia do movimento que luta por moradia.

Formou-se no dia 14 de maio, logo após o fim da fase roxa no estado de São Paulo, em um dos períodos de maior insegurança financeira e alimentar que o Brasil já enfrentou durante a pandemia (e na sua história), visto que o déficit habitacional está cada vez mais alto. Isso ainda foi somado a uma redução drástica nos valores do auxílio emergencial e recesso nos pagamentos das parcelas.

Visão da ocupação Carolina Maria de Jesus (foto: André Santos)

Localizada no Jardim Laranjeira (extremo leste de São Paulo), a ocupação possui cerca de 4.500 pessoas acampadas (integrantes do movimento em luta por moradia e que, geralmente, estão em condições de sub habitação mas não vivem no local) e mais de 200 fixas (que sofreram com ordens de despejo e desemprego, e de fato moram no acampamento).

O terreno possui aproximadamente 62 mil metros quadrados e, antes da chegada do MTST, era utilizado como aterro ilegal de lixo, além de dever valores que chegam a R$ 3 milhões em IPTU. Existe uma batalha judicial pelo espaço, que até então possui decisões favoráveis ao MTST.

“A gente ganha e o dono recorre. É um direito dele recorrer, mas a gente também tem o nosso direito de ocupar. Estava abandonado, com carcaça de carro, bicicleta, animais mortos… tinha de tudo”, conta Carmosina Santos, coordenadora do movimento, acampada e uma das principais responsáveis pelas cozinhas da Carolina Maria de Jesus.

Nas cozinhas, a palavra solidariedade é um mantra. Nada é comprado. Tudo que passa por lá é fruto de doações. Quando falta algum item necessário, como arroz ou feijão, pede-se o mantimento, e não o valor correspondente. Em breve, a horta, que está sendo replantada, passará a fornecer suprimentos também. “Nós sobrevivemos de doações, os acampados que doam. Aqui não tem dinheiro, só tem solidariedade”, afirma Carmosina.

A alimentação é sagrada dentro do acampamento. No início das atividades, cerca de 500 refeições eram distribuídas diariamente, entre café, almoço e jantar. “A gente combate a fome com solidariedade, com partilha. Aqui ninguém vai dormir com fome. Você contribui com o que pode, e se não pode, você come do mesmo jeito”, diz Cláudia, que é vista por todos como a mãezona.

A única luta que se perde é aquela que se abandona

A exibição do filme também elevou a autoestima e o sentimento de pertencimento do movimento, sobretudo dos moradores da Ocupação Carolina Maria de Jesus. A expectativa, o processo de montagem, a presença do elenco e a forte emoção que dominou o ambiente deram um ânimo a mais para a luta continuar.

A simbólica frase “a única luta que se perde é aquela que se abandona”, de autoria do escritor e político baiano, é um dos lemas que o movimento carrega em seu cotidiano.

Destaque para frase de Marighella na ocupação Carolina Maria de Jesus (foto: André Santos)

Outro ponto em que as duas histórias se aproximam, é na parte em que tanto a figura de Marighella quanto as ações do MTST são constantemente atacadas com mentiras e falsas acusações. Por serem exaustivamente repetidos, tornam-se comuns de serem ouvidas por aí, especialmente por setores conservadores da nossa sociedade.

Em ambos os casos, a luta pelos direitos é taxada como criminosa. Mancham a imagem para descredibilizar os pedidos por justiça. “Assim como a de Marighella, a resistência que a gente faz é pensando no povo, no trabalhador. Ensinando que se a gente não se mobiliza, nós nunca seremos respeitados, nunca teremos vez”, completa Cláudia.

“Um povo que não conhece a sua história, que não tem memória, também perde a capacidade de construir futuro. Essa exibição de hoje é simbólica porque é em uma ocupação de luta, de gente que está aqui lutando pelo pão de cada dia, pelo seu teto e dignidade. A luta da Ocupação Carolina Maria de Jesus é a continuidade da luta de Carlos Marighella”, brada Guilherme Boulos, em inflamado discurso minutos antes de a sessão ter início.

A exibição do filme, que fora censurado em 2019 e assim permaneceu por 2 anos, nasceu de uma promessa feita lá em 2017, quando a produção ainda estava em processo inicial. Wagner Moura, visitou a ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo, junto a Seu Jorge, que interpreta o papel de Marighella no longa. Naquele momento assumiu o compromisso que faria uma exibição popular do filme em uma ocupação do MTST assim que estivesse pronto.

Wagner Moura na ocupação Carolina Maria de Jesus (foto: Danilo Ramos)

Passados 4 anos desde então, Wagner cumpriu a promessa. Anterior à sessão em São Paulo, a exposição também esteve na cidade de Prado, no Extremo Sul da Bahia, em meio a um assentamento do Movimento de Sem Terra (MST). O evento também contou com a presença do diretor, que em ambas as oportunidades fortificou o discurso de que o filme havia, enfim, encontrado o seu público.

“Esse filme que nós fizemos não é só sobre os que resistiram a ditadura militar nos anos 1960 e 1970. Esse filme é para as pessoas que estão resistindo agora no Brasil”, disse Wagner, em agradecimentos após a exibição.

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