
Núbia Verneck e Kairo Rudah do coletivo LACRE./Foto: Reprodução/Instagram
O Brasil convive com um dilema em relação ao HIV: enquanto os tratamentos avançaram e novas tecnologias ampliaram as formas de cuidado, o estigma e a desinformação seguem moldando a maneira como o tema é discutido, especialmente nas periferias.
Apesar de São Paulo apresentar redução no número de mortes por aids e por vezes ser considerado referência na prevenção, ainda há a falta de acolhimento para pessoas já infectadas e um apagamento em relação à educação sexual.
Para falar sobre os desafios, os retrocessos no debate público e as estratégias construídas a partir dos territórios, a Periferia em Movimento conversa com a pesquisadora e comunicadora Núbia Verneck e Kairo Rudah, diretor-executivo do coletivo LACRE – Laboratório CriatHIVo, que trabalham na ação complementar da incidência pública com a educomunicação sobre HIV/Aids.
Leia a entrevista completa
Periferia em Movimento: Hoje, qual é o principal desafio quando falamos de HIV nas periferias de São Paulo, a desinformação, o acesso aos serviços ou o estigma?
Núbia: Quando a gente pensa no HIV, há múltiplas frentes que a gente precisa lidar. Não é simplesmente falar sobre o acesso ao serviço de saúde. É diferente de uma diabete, de uma hipertensão.
A gente está falando de um assunto que toca num sentido moral, automaticamente, porque está falando sobre uma IST, que é uma infecção sexualmente transmissível.
Hoje em dia é muito fácil ter informação, mas existem outras camadas dentro do que a gente entende como falta de informação. O estigma é muito presente quando o assunto é ‘viver com HIV’ e, sobretudo, avançar na discussão sobre sexualidade de uma maneira onde a saúde sexual exista, porque as pessoas ignoram.
- Oficinas do coletivo LACRE./Foto: Teresa Cristina
- Oficinas do coletivo LACRE./Foto: Teresa Cristina
A gente ignora coletivamente que os adolescentes têm desejos e também têm contato muito mais fácil com pornografia ou com trocas que emitem esses desejos.
Então, quando a gente fala sobre acesso na quebrada, a gente precisa pensar que é tudo ainda mais fragmentado no sentido de como essas discussões são feitas.
Falar sobre o HIV é um assunto que demanda que as pessoas se vulnerabilizem, no sentido de falar sobre os seus desejos, falar sobre suas práticas, falar sobre coisas que são muito pessoais e que podem causar conflitos. Quando a gente fala sobre saúde sexual pode afetar uma pessoa que, por exemplo, não começou a vida sexual dela ainda.
A gente tem marcos legais que são muito importantes, por exemplo, hoje em dia pessoas a partir de 15 anos não precisam da autorização dos pais para fazerem uso da PrEP [Profilaxia Pré-Exposição, método preventivo contra o HIV que utiliza medicamentos antes da exposição ao vírus], que é uma tecnologia muito importante para falar de prevenção.
Mas até falar sobre PrEP e chegar nesse assunto, a gente também precisava ter conseguido falar e abordar diversas outras coisas.
O que mudou nos últimos anos nas políticas públicas sobre o HIV?
Núbia: É nítido que existe um avanço. Hoje em dia quais são os estudos aprovados no Brasil? O PrEP injetável. O remédio funciona. A gente só precisa criar uma forma de fazer aproximação entre as pessoas, adolescentes e jovens ao sistema de saúde, e ter o contato e informação sobre o que é esse medicamento e as outras formas de prevenção.
De uma maneira geral, avançaram muitas políticas públicas em forma de medicação para pessoas vivendo com HIV e pessoas que estão em tratamento. Hoje o esquema comum do TARV, que é o tratamento antirretroviral, são dois medicamentos, mas já temos a perspectiva de um medicamento só.
Existe também um trabalho muito importante feito sobretudo pela Pisci Bruja, mestre em ciências sociais, que é pensar o acolhimento de identidades trans para esses tipos de serviços.

Oficinas do coletivo LACRE./Foto: Divulgação
A ideia do imaginário social em relação a diferentes corpos e às diferentes barreiras sociais que atravessam essas corporalidades para chegar no serviço de saúde também é uma estratégia que é sobre produção de saúde.
Agora, a cura, onde ela está? Eu acho que esse é o avanço que ainda não chegou e que é uma demanda há muito tempo.
E a comunicação também, todo ano tem campanha de prevenção. Mas e falar sobre a saúde das pessoas que já vivem com HIV, quando isso vai acontecer no sentido público?.
Quando o assunto é desinformação, o que mais chega para vocês no coletivo?
Núbia: Nas periferias, as pessoas não sabem o que o HIV tem a ver com elas e acham que não têm nada a ver [com o assunto].
A desinformação nesse sentido cria uma conexão que as pessoas não identificam. Muitas vezes, só vai saber sobre quando você é LGBTQIA+, então alguém vai dizer na sua cara: “Ai, você vai pegar aids”.
As pessoas não compreendem ainda a importância de pensarem as suas relações sexuais com a saúde sexual. A desinformação passa no sentido de que a gente acha que ninguém vive com HIV, então existe uma invisibilidade sobretudo na quebrada, onde essas pessoas não se sentem confortáveis de falar sobre isso.
Existe o direito ao sigilo, isso é um direito inegociável das pessoas vivendo com HIV e não é isso que a gente está discutindo. Mas sim, que as pessoas não se veem no direito de ser cuidadas. A invisibilidade cria uma barreira, um acesso ao cuidado, mas não só esse cuidado ao serviço público de saúde, mas num cuidado de amizade, um cuidado próximo.
E qual a maior desafio em relação à informação?
- Oficinas do coletivo LACRE./Foto: Divulgação
Kairo: Se existe tanta informação e existe a falta de acesso à ela, qual lugar físico a gente tem para ter esse acesso, se a gente não fabrica esses lugares?
Até no ambiente digital, quando a gente pensa em qual é a forma de consumo, de prevenção, conscientização e informações apropriadas, que condizem com a realidade de cada um, o filtro é muito diferente.
Quando a gente chega no território falando que quer conversar sobre arte e criar um espaço para se ter uma educação sexual, para se falar de prevenção e conscientização de HIV, a receptividade é real, ela existe.
O desafio não é chegar lá e ter a recusa do acesso à informação. Isso, de fato, a gente não chegou a passar. O caminho é bem mais estreito. É o que a gente precisa fazer enquanto trabalho, comunidade, coletivo para conseguir alcançar mais lugares.
Um avanço ideológico conservador, principalmente como essa onda recente, afeta o acesso à informação dentro do território?
Núbia: Se colocarmos o que, de fato, a gente tem de avanço no ensino de educação sexual, pensando assim, de forma institucional, a gente vai ter um período muito curto dentro da história do Brasil.
Estou dizendo isso porque a gente precisa, sim, celebrar esses avanços da educação sexual, mas ela nunca aconteceu de maneira institucionalizada, sobretudo. Onde mais acontece é dentro do movimento social, que dá conta de fazer essa discussão chegar em outros espaços, inclusive dentro da sala de aula.
Não existe uma onda conservadora, ela sempre foi um tsunami que de repente deu uma volta para trás e depois continuou o seu processo, seu caminho natural.
Então, nesse sentido, eu penso que o Escola sem Partido é uma resposta muito pronta a qualquer avanço que a gente tenha tido e já barra há muitos anos o que a gente teve de avanços no sentido de ensino de saúde sexual e reprodutiva dentro das escolas.

Oficinas do coletivo LACRE./Foto: Teresa Cristina
Quando o tema do estigma aparece nas discussões sobre HIV, o que normalmente fica de fora desse debate?
Kairo: O tabu já sai um pouquinho do nosso vocabulário porque o estigma é político. É fundado dentro das nossas raízes estruturais.
Quando a gente fala estigma e não fala quais são esses estigmas, a gente também influencia esse olhar da sociedade do porquê o HIV realmente é problema de todo mundo.
Tem muito caminho para percorrer, não está nada garantido e existem lugares que a gente precisa acessar. A meta é a cura.
Enquanto ela não existir, a gente vai continuar tendo conflitos inclusive educacionais, comunicacionais, de acesso à saúde e à informação, porque se não tem um caminho para cura, a gente sempre vai ter que estar atuando nessa ideia de que falar sobre HIV tem que falar sobre prevenção.
Núbia: A gente precisa se munir de informação sempre para que a gente não caia nesse conto do vigário que estão tentando nos vender de que está tudo certo.
Não está tudo certo e a gente precisa entender que tem muita gente ainda, seja na base, seja lá na frente com cargos mais altos, ainda lutando para que a gente consiga ter a gratuidade dos medicamentos para as pessoas que vivem com HIV e de todas as outras tecnologias de prevenção combinadas que existe no SUS.
É um ano que a gente precisa pensar em que frentes e que pessoas estão discutindo HIV e a saúde de uma maneira integral, saúde sexual inclusa nisso.
A gente precisa também, a partir da nossa única possibilidade de decisão estrutural direta, que é a nossa participação nas eleições, ter isso como demanda. E sobretudo para as juventudes que vão ter contato com isso.
As pessoas que estão aí com 16 anos e já podem votar, que elas façam isso. Mas que elas façam isso pensando quais são os princípios sociais e coletivos que elas escolhem, qual é o pacto coletivo de humanidade que a gente deseja e quem está representando isso.





