Por Jefferson Rodrigues*

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

15 anos. Esse foi o tempo que Jesuana Prado teve que esperar para publicar seu primeiro livro. Em 2014, finalmente “Cotidiano Poético” ganhou o mundo. O livro traz poemas de amor e de luta. Até conseguir realizar esse sonho, a poeta e artista periférica se deparou com muitas portas fechadas por grandes editoras. Agora, Jesuana batalha para tornar essa realidade possível a outras pessoas como ela. 

“A gente vê a necessidade de ter nossa própria editora para oferecer esse serviço para outras escritoras que não conseguem ser chamadas para publicar o seu livro, seja numa grande editora ou de forma independente”, diz ela, que é pedagoga e vive no Campo Limpo (zona Sul de São Paulo). 

Em março deste ano, Jesuana lançou a Vicença Editorial com outras 9 mulheres periféricas. Além dela, hoje a iniciativa tem à frente Ana Karina Manson, Carolina Tomoi, Arlete Mendes, Celane Tomaz, Juliana da Paz e Bete Melo. Todas elas são professoras, escritoras, promovem saraus ou acesso à leitura em suas quebradas, entre Campo Limpo, Taboão da Serra e Cotia.

“A gente percebeu que isso teria uma força, né? Juntar os talentos das próprias integrantes do grupo que tinham outras experiências, não só com a escrita, mas também com outras áreas de revisão, de editoração, de organização de antologias e de publicações autorais também”, explica Carolina Tomoi. O objetivo é ter total autonomia do processo – e a Vicença é mais uma iniciativa com esse propósito.

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Como já mostramos aqui, o mercado editorial nas periferias faz parte de um movimento maior que visa o fortalecimento de um circuito literário próprio. Segundo uma pesquisa divulgada no final do ano passado pela organização Ação Educativa, a maioria dessas editoras surgiu no contexto dos saraus das quebradas. Há editoras que publicaram primeiro suas antologias de poesia com muitos participantes, mas também destacaram as produções individuais de pessoas ligadas de alguma forma a esse contexto.

Os empreendimentos periféricos são de pequeno porte se comparados às grandes editoras, e isso se deve à especificidade de suas publicações, como revela a pesquisa.

Sonhos

Ainda é raridade encontrar pessoas periféricas na lista de contratades de grandes editoras. E-mails com textos, poesias, mostras e projetos literários muitas vezes demoram a receber uma resposta – isso, quando recebem. Abrir a própria editora é uma resposta de quem não quer mais esperar. 

Jesuana Sampaio (foto: Arquivo pessoal)

“Quando a gente fala de artista da periferia, isso é um sonho, né? Uma editora chegar e pedir pra lançar o seu livro… Então, é muito melhor que a gente consiga viabilizar isso para as nossas mulheres da periferia, estando juntas. Sempre falo que a gente que tá junto e ajuda a colocar pra frente”, completa Jesuana. 

Por enquanto, o foco está nos projetos das próprias integrantes. A estreia da editora se deu com o livro “Um ano sem roupa”, de Juliana da Paz, seguido da versão digital da obra de Jesuana. O próximo lançamento deve ser “Retalhos”, de Arlete Mendes.

Paralelamente, as fundadoras dialogam com outras autoras interessadas em publicar e buscam meios de se aperfeiçoar e profissionalizar a gestão nesse mercado, que favorece os homens mesmo no contexto de periferias. Elas também procuram por editais que podem possibilitar a realização do sonho de muitas que desejam ter sua obra publicada e que até mesmo não sabem por onde começar.

Pensando na comunidade

Nesse segmento, Cesar Mendes é pioneiro. Nascido e criado no Jardim Vaz de Lima (zona Sul de São Paulo), ele é editor e responsável pela Filoczar, editora que visa promover a produção intelectual e artística. 

Entretanto, ser “livreiro” não era ideia original de Cesar. Desde criança, ele sempre foi ligado aos livros e já percebia a ausência de espaços de leitura na região. Depois de se graduar em Filosofia, em 2002 abriu uma biblioteca comunitária com seus próprios livros. Na sequência, inaugurou uma livraria para bancar o funcionamento do espaço. E também aprendeu por conta própria como produzir um livro, criando assim sua própria editora.

Hoje, a Editora FiloCzar soma 42 livros publicados, desde poesia, romances, contos, literatura infantil com personagens negros e retratando o contexto periférico até livros técnicos em filosofia, biblioteconomia, educação e educomunicação – todos escritos por pessoas que vivem em periferias. 

“A ideia de editar livros estava relacionada à proposta de publicar pessoas da periferia e da academia, pois eu acreditava na necessidade de uma ponte entre os estudos acadêmicos e os saberes periféricos”, diz ele.

César faz a capa de mais uma cópia de um dos livros publicados pela Filoczar

Oportunidade | Até o dia 8 de julho, o Programa de Ação Cultural de São Paulo (PROAC) recebe inscrições de autoras, autores e autories paulistas com interesse em publicar obras teatrais. Editoras também pode participar. Para isso, é necessário comprovar domicílio ou sede no Estado há mais de 2 anos. O valor do incentivo é de R$ 25 mil. As inscrições podem ser feitas aqui.

*Jefferson Rodrigues é participante do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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