Por Aline Rodrigues

Edição: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

“Correria, falta de tempo e paciência. A gente ocupa o nosso tempo com tantas coisas que acaba não tendo tempo para coisas importantes, que é a atenção para as crianças”, reconhece Carla de Morais Silva, de 31 anos.

Moradora da Vila Albertina (zona Norte de São Paulo), ela está desempregada há quase 1 ano, faz curso, às vezes faz entrega de cesta básica e não consegue dar a atenção que gostaria para o filho Heitor, de 3 anos.

Já Aline Cristina de Souza Castelari, 30, lamenta não conversar atenta com o filho Enzo, de 6 anos. “Não consigo dar atenção diretamente para o que ele está falando. Acho que eles acabam percebendo e se desmotivam”, relata ela, também desempregada e moradora do Parque Independência (zona Sul de São Paulo).

O acúmulo de funções e preocupações dessas mães e de muitas famílias acaba não permitindo que encontrem os espaços esperados para se dedicarem da melhor forma à educação das crianças – e isso tem consequências no desenvolvimento delas.

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Elizama Queiroz (foto: arquivo pessoal)

“Quando falta estímulo, geralmente a criança apresenta-se tímida ou com medo ao enfrentar pequenos desafios que lhe são apresentados, tornando-se muitas vezes apática”, explica Elizama Queiroz, professora de educação infantil no Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI) Vila do Sol 1, no Jardim Vera Cruz (zona Sul de São Paulo). “Com certeza, a criança que recebe maior estímulo adquire consequentemente maior capacidade de aprendizagem”.

A dificuldade é maior para mães solo, que chegam a 11 milhões em todo o Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o caso de Angélica de Aguiar Tozzo, moradora da Brasilândia (zona Norte), que além de cuidar sozinha de Liz, de 2 anos, e Victória, 4, presta assistência ao pai e à mãe, que têm problemas de saúde.

“Isso acaba prejudicando nesse respeito ao tempo delas. Elas ficam muito no celular durante o dia, quando não vão para a escola”, nota Angélica, 31. “Eu tento fazer esse espaço de leitura, de oração e de conversa, mas isso acontece à noite mesmo”.

Não poder contar com outras pessoas no suporte aos cuidados das crianças é ter inevitável carga emocional e de dedicação (e uma eterna sensação de não dar conta de tudo e se culpar por isso). Por isso, a escola tem um papel importante nesse suporte, identificando as demandas da criança, da família e do contexto social que todes estão inserides.

Andréia, Nathan e Sarah (foto: arquivo pessoal)

A professora Elizama cita como exemplo o impacto da pandemia, que evidenciou a falta de equipamentos, internet, materiais adequados, alimentos, além da necessidade de empatia, carinho, atenção e das perdas de familiares que morreram ou ficaram doentes no período.

“A observação é uma ferramenta necessária para que possa atender a cada criança em sua individualidade. Muitas vezes, nos deparamos com situações que vão além do que seria essencial apenas para o aprendizado da criança”, acrescenta Elizama.

Andréia Alves Ribeiro, 27 anos, se organiza como pode para manter a interação com Sarah, 10, e Nathan, 3. “Nós moramos com meus pais e meus irmãos e a gente não tem muita privacidade. Meus filhos não têm muita liberdade. A gente interage mais quando sai de casa. Eu gosto de levar eles pra andar de bicicleta e fazer qualquer outro tipo de atividade”, conta a moradora da Terceira Divisão de Interlagos, distrito de Cidade Dutra (Extremo Sul de São Paulo).

“É preciso uma comunidade inteira para educar uma criança”

Ester Horta (foto: arquivo pessoal)

O provérbio africano acima é lembrado por Ester Maria Horta de Paula, psicóloga especialista em Neuropsicologia e aprimoranda em Neuropsicologia do Desenvolvimento Infantil no Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp). Para Ester, o provérbio ilustra quanto os primeiros anos da vida de uma criança são fundamentais para seu desenvolvimento e necessitam da interação e mediação de adultes, mas também de outras crianças.

Isso também está previsto no artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que diz que é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”

Enquanto o senso comum aponta muitas vezes apenas o crescimento físico das crianças, Ester lembra que o cérebro é o órgão fundamental desse processo. É o cérebro que está no centro de toda interação, da alimentação aos vínculos afetivos, e que vai influenciar ao longo da vida na resolução de problemas e tomadas de decisões.

“As emoções estão diretamente ligadas com o aprendizado. As interações sociais e o afeto são tão necessárias para o desenvolvimento quanto alimentação adequada e cuidados médicos”, enfatiza a especialista.

As infâncias trazem a simplicidade

“O que as crianças mais me ensinam é essa troca generosa e de que se a gente está junto, tudo é possível. Elas querem participar e construir memórias” valoriza Janaina Soares, atriz, arteeducadora e co-idealizadora do projeto Infancionices Periféricas, das TrupArteiras.

A atriz Janaina tem memórias muito boas da infância no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo). Em especial, dos detalhes que fizeram a diferença para o desenvolvimento dela, que não era uma criança que podia brincar muito na rua e fez da casa da avó seu lugar de imaginar diferentes formas de aprender brincando. “Minha avó não me deixava sem repertório”, lembra.

Janaina Soares (foto: arquivo pessoal)

Janaina inventou cabaninha, aprendeu a costurar para fazer sua primeira boneca de pano e recortava imagens de revista. A artista trouxe suas vivências da infância para o que faz hoje, com um trabalho que se propõe a dialogar muito com as crianças. “Sou apaixonada pelas artes. Como artista, a gente tem a possibilidade de invencionar novos mundos. Tudo pode se transformar”, diz ela.

Isso também se reflete em seu projeto mais recente, Infancionices Periféricas, em que ela é arte-educadora e coidealizadora junto às demais integrantes das TrupArteiras, grupo de teatro infantil que pesquisa a cultura da infância nas periferias.

Para isso, Janaina tem feito escutas e construções constantes com as crianças, trabalhando o jogo, a brincadeira e a conversa em um processo que vai resultar em um espetáculo feito para elas. “O mais importante é que elas possam ser protagonistas das histórias, nossas diretoras”, completa a atriz.

Este conteúdo tem o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal para publicação de reportagens sobre Primeira Infância, Escola e Direitos Humanos

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