Para quem mora em áreas nobres, correr costuma ser sinônimo de parques arborizados, roupas de marca e mais uma série de acessórios que fazem da prática um verdadeiro marcador de status. Já para quem vive nas periferias, o “corre” acontece de outras maneiras: muitas vezes, a única atividade física do dia é ir atrás do ônibus ainda de madrugada.
Mas a febre pela corrida, que tem dominado as redes sociais com posts de desempenho e táticas de treino, também achou jeito de chegar na quebrada. Coletivos têm atuado de forma a romper a barreira da elitização e aproximar os moradores periféricos de uma rotina com mais saúde e bem-estar.

Khadja Ferraz./Foto: Arquivo Pessoal
A turma do O Corre começou suas atividades na estação Artur Alvim, na Linha 3 – Vermelha do Metrô de São Paulo, localizada na zona Leste, em 2024. Um grupo de amigos passou a se encontrar para correr pela Avenida Radial Leste, uma das principais vias da capital paulista, e a aproximação cada vez maior de pessoas acabou mostrando a necessidade de expandir também os pontos de encontro para as estações Patriarca e Guilhermina.
“A gente procura sempre fazer próximo ao metrô justamente para ser acessível, fácil de chegar, para não ter nenhum problema de deslocamento que exija muito tempo. Até porque pensamos na pessoa CLT, que trabalha desde manhã até as 17h ou 18h e vai correr depois”, afirma Khadja Ferraz, moradora da Vila Formosa e uma das criadoras do coletivo.
Além disso, ela afirma que um dos fatores que impulsionaram a mobilização do grupo foi a percepção de que não existiam alternativas como essa na região.
“Temos muitos coletivos de corrida em outros pontos da cidade, pontos de mais fácil acesso, mais elitizados. A gente viu a necessidade de trazer essa alternativa para as pessoas daqui, para que elas tivessem também mais facilidade de se deslocar”, ressalta.
Acolhimento para as mães
“O que me levou a começar a correr foi um estado depressivo muito delicado. Eu tinha uma questão grave de pânico de interação social. No acompanhamento psiquiátrico, fui orientada a tentar sair”, conta Fabiana Rodrigues, 40 anos.
Moradora de Guaianases, no Extremo Leste da capital paulista, Fabiana é professora de dança, coordenadora e orientadora pedagógica, além de mãe solo de um menino de 8 anos. Ela conta que, no início, o deslocamento para participar das corridas era um desafio, especialmente pelas responsabilidades com o filho e o receio de chegar sozinha aos locais.
“O Corre foi o que fez mais sentido para mim. Comecei a levar meu filho junto. No começo foi puxado para ele, mas ele gostou tanto que passou a convidar os amiguinhos. Hoje, quando vou, levo pelo menos três crianças”, relata.
Mestra em humanidades e direitos pela Universidade de São Paulo (USP), ela afirma que o O Corre trouxe uma sensação de pertencimento. Agora, seu objetivo é se preparar para correr uma maratona em junho de 2027, quando completará 42 anos.
“O maior desafio ainda é fazer a informação chegar a outras mulheres, para que elas saibam que existem esses espaços seguros. Existe uma empatia imediata sobre as dificuldades que enfrentamos para organizar os treinos”, complementa Fabiana, ao falar sobre o desejo de ampliar a presença feminina nesses coletivos.
Estima-se que, no Brasil, 47% dos adultos sejam sedentários, sendo as mulheres as principais afetadas: as duplas e triplas jornadas de trabalho dificultam a prática de atividade física e as afastam de uma rotina com mais qualidade de vida.
Ocupar o território com saúde

Graja Runners/Foto: Reprodução/Instagram
No Grajaú, Extremo Sul de São Paulo, a necessidade também deu origem a um movimento de corrida. Tudo começou a partir de uma página no Facebook. Daniel Morais, um dos fundadores do Graja Runners, criou o perfil na rede social e, em maio de 2017, marcou um encontro no Parque Linear do Grajaú. Naquele dia, cinco pessoas apareceram. Desde então, o grupo só cresceu.
“Comecei a correr sozinho e senti a necessidade de ter mais pessoas correndo comigo aqui no bairro. Eu via muitas pessoas do bairro pegando condução para correr em outros lugares, iam para o Ibirapuera, iam para a USP, e pensei: por que não trazer a corrida para o nosso bairro?”, relata o líder de operações logísticas.
Segundo os últimos indicadores de saúde do IBGE, o Brasil ainda enfrenta um abismo na prática de atividade física: 40,3% da população adulta é insuficientemente ativa. Enquanto 34,2% dos homens são sedentários, entre as mulheres esse número salta para 45,2%.
“Onde o poder público não chega com lazer e saúde, o coletivo chega”, afirma.
“A gente ocupa as ruas, ocupa os parques. Essa ocupação traz uma sensação de segurança para o morador, porque onde tem 100 pessoas correndo, o bairro fica mais vivo”, diz um dos fundadores do Graja Runners.
Criado por moradores da zona Sul da capital paulista, em abril de 2025, o Corre Quebrada é outro coletivo que surgiu a partir da percepção de que a corrida de rua ainda era pouco acessível na região. Os encontros são realizados em vias e espaços da região de Santo Amaro, Parque Bruno Covas e Estações Jurubatuba, Vila das Belezas, Capão Redondo e Campo Limpo.
Além do impacto no território, a prática regular de atividade física também está associada a benefícios para a saúde mental, como a redução de sintomas de ansiedade e depressão, a melhora do humor e da autoestima – efeitos que tendem a ser potencializados quando a atividade é realizada em grupo e com frequência.
“Quando corremos em grupo, principalmente se tratando de mulheres na corrida de rua, conseguimos trazer um pouco mais de segurança e de respaldo”, relata Paola Menezes, uma das pessoas envolvidas na fundação do Corre Quebrada.
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Moradora da Lapa de Baixo, na zona Oeste, Paola também destaca a importância da presença feminina em posições de liderança.
“Ser mulher em um coletivo é muito importante, e ter mulheres como líderes acaba inspirando outras mulheres. A corrida de rua sempre foi muito elitizada e masculina, e conseguir abrir esse espaço para outras mulheres me deixa muito feliz”, destaca.
O Corre Quebrada promove um evento com data fixa voltado apenas para mulheres, realizado todo último domingo do mês: o Corre Também Delas. O último encontro reuniu cerca de 180 participantes.
“A presença do coletivo traz outra percepção de segurança no território, com certeza. O pessoal cola nos nossos corres e se sente seguro de participar”, afirma o estudante de educação física Gustavo Thomaz, um dos fundadores do coletivo ao lado de Paola.




