Por Letícia Padilha e Vini Linhares*

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

O goró não era tão presente na vida do estudante P.H., de 21 anos. Ele nem gostava de beber. Mas desde que a pandemia de coronavírus começou, o jovem desempregado do Grajaú (no Extremo Sul de São Paulo) toma umas quase que diariamente. “A bebida alivia mas é [um alívio] momentâneo, sabe? Eu bebo aqui e pá, esqueço a pessoa ou o problema… Ou se tive mó dia pertubado, mó tenso, vou encher a cara e tals”, conta ele, que cata latinhas para complementar o valor do auxílio emergencial.

O medo de contágio pela covid-19 o rodeia, porém ele segue frequentando bares e praças – e até bebe no mesmo copo de algum parceiro. “Esses dias, eu dei um ‘PTzão’. Virei 2 copos de Dreher com Contini. Tava mó deprê em casa, sozinho. Era umas 00h30, fui na adega, comprei outro goró, não bateu. Voltei pra casa. Quando deitei, o baguio começou a girar e girar”, lembra P.H. Naquela noite, ele vomitou.

Quem nunca passou por isso? 

O que P.H. relata é confirmado por números: 74% dos brasileiros com mais de 18 anos relataram o consumo de bebida alcoólica na pandemia, segundo pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) feita com mais de 12 mil pessoas em 33 países latinoamericanos e caribenhos e divulgada em setembro do ano passado. Desses, 42% relataram beber pesado (quando ultrapassam o consumo de 60g de álcool puro num mesmo dia).

No comparativo anual, não há um aumento significativo na média da população. Porém, a OPAS aponta um aumento entre pessoas que relataram ao menos algum sintoma emocional, como: medo, preocupações, estresse, nervosismo, ansiedade e inquietações em relação às incertezas típicas geradas pela pandemia. E 52,8% dos respondentes relataram ao menos 1 desses sintomas, sendo que eles são mais frequente entre as mulheres.

Arte: Rafael Cristiano

Afogar as mágoas

No último ano de pandemia, os encontros presenciais foram importantes para Alex Jardins “não perder a cabeça”. O multiartista de 29 anos, mais conhecido pelo vulgo de Cabelo na Figueira Grande (no distrito do Jardim São Luís, zona Sul de São Paulo), admite que em alguns momentos descumpriu o distanciamento social para trombar os parceiros da quebrada. E, no rolê entre amigos, o consumo de bebidas alcoólicas passou a ser mais recorrente.

“Talvez implicitamente, a gente poderia estar afogando as nossas mágoas e nossas neuroses no álcool, só que a gente não tinha esse debate aberto, não falava como estamos debatendo agora, sabe?”, reflete Cabelo.

Cabelo (foto: Arquivo pessoal)

Uma desbaratinada é importante. O lance tá em perceber o exagero. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como consumo moderado a ingestão de até 2 doses por dia, com pelo menos 2 dias de intervalo entre uma bebedeira e outra. Isso equivale a consumir 2 latinhas de 350ml de cerveja (5% de álcool), 1 copo de 150ml de vinho (12% de álcool) ou 45 ml de destilados como doca, uísque, cachaça, gin e tequila (40% de álcool). O consumo abusivo é caracterizado pelo consumo de 4 doses ou mais. 

“Com muita certeza, isso daí [consumo de álcool] foi uma porta de escape, porque a gente já era meio neurótico antes da pandemia! E conforme as pessoas foram ficando mais ‘presas’, aí a neurose tipo aumentou né?”, complementa A.N., de 26 anos, que mora no Itaim Paulista (zona Leste) e trabalha em uma rede de supermercados. Depois de ficar um período sem sair, ela voltou a frequentar “sociais” em casas de amigos ou sítios alugados aos fins de semana. A jovem chegou a contrair o vírus. Hoje, procura beber socialmente.

Quem também mantém um círculo próximo de lazer é a estudante M.C, de 20 anos, do Grajaú. Entre sexta e domingo, ela encontra algumas amigas em casa e o grupo racha os custos da adega, sempre prezando pela quantidade. A família é aberta ao consumo. “Meu pai é nordestino, né?! Daí ele consome muita pinga, aquela coisa da cachaça. Minha mãe também. Sempre que possível ela toma uma cervejinha em dia de semana, depois  do trabalho, um vinho… Ela gosta muito”, conta.

A diarista L.S., uma mulher negra de 41 anos, também se adaptou e passou a beber em casa. “Nós não podemos sair, não podemos ir pra balada, pra lugar nenhum. Então a gente fica dentro de casa curtindo uma música e tomando uma cerveja”, diz ela, que é mãe solo de 4 filhos e vive no Parque Residencial Cocaia (distrito do Grajaú, Extremo Sul da capital paulista). 

O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de cerveja no mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. A gelada gera mais de 2,7 milhões de empregos no País e é responsável por 2% do produto interno bruto (PIB), segundo o Ministério da Agricultura. Com a crise econômica, entretanto, a cervejinha virou luxo para muitos. Mas L.S. continua se dando o direito de relaxar.

“A gente nem sabe do nosso dia de amanhã, então vamos viver! Não tem outra coisa pra fazer. Então, chegou em casa do trabalho, limpou a casinha, fez as coisas, está tudo certinho, vamos tomar uma pra relaxar e ouvir uma musiquinha”.  

Arte: Rafael Cristiano

A substância não é nada sem o contexto

À medida em que a pandemia se agravou, os governos locais ordenaram o fechamento obrigatório de serviços e empresas não essenciais. Com isso, a relação com o consumo de álcool mudou do âmbito público (bares, festas, restaurantes) para o privado (residências). O “abre e fecha” mexeu com as opções de distração com distanciamento. Com toda a pressão emocional causada pelo momento, é comum que quem vive em periferias encontre no álcool uma forma de prazer acessível. 

“A droga produz um prazer via química, que vai muito bem para essas pessoas”, observa o educador físico Rodrigo da Silva. Ele é gerente de serviço do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) do Grajaú, que atende pessoas com uso abusivo e problemático de substâncias psicoativas, e nota uma demanda maior desde o ano passado.

“Pra periferia, sempre foi mais difícil o acesso a lazer, trabalho e renda. Com a pandemia piorou, e piorou muito! As coisas vão fechando e ficando cada vez mais restritas”, observa Rodrigo, que defende um processo de educação para promover o uso equilibrado do álcool em vez de atacar a bebida como a raiz de todo mal.

Não é sobre justificar nossos hábitos de consumo, mas saber que podemos beber de forma sociável, recreativa, como alternativa às nossas opressivas realidades. E você, sabe identificar os seus limites? .

Se for preciso, onde posso buscar ajuda?

Fruto da Lei da Reforma Psiquiátrica, que vigora desde 2001 desmontando manicômios e abrindo locais de tratamento comunitários, os CAPS são a principal porta de entrada para o atendimento de saúde mental – junto às unidades básicas de saúde (UBS).

Na cidade de São Paulo, são 97 unidades do CAPS que atendem com acolhimento parcial ou integral, sendo 32 voltados para crianças e adolescentes, 33 para adultos e 32 exclusivos para o atendimento em álcool e drogas. Durante a pandemia, o CAPS continua funcionando com alguns ajustes e adoção de protocolos sanitários. Confira o endereço mais próximo clicando aqui.

*Letícia Padilha e Vini Linhares são participantes do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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4 comentários

  1. Muito bom o conteúdo, incrível como abordaram o assunto em um lugar de doença social, e não colocando o usuário como único responsável… Gratidão pela leitura.

  2. A pandemia realmente parece ter intensificado o consumo de álcool. Percebo pelos status no whats e stories no Instagram, a maioria dos meus Contatos passaram a postar muito mais fotos de roles com copo na mão.

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