Neste Dia das Professoras, Professores e Professories, publicamos o artigo de um docente de artes na rede pública

Por Gilberto da Costa Cruz*

Volta e meia ouvimos falar sobre a retirada das artes no currículo obrigatório das escolas públicas, seja no ensino fundamental ou médio. Lida por muitos como secundária ou desimportante, me pergunto por que tanto esforço na retirada de um conteúdo que a priore soa tão inofensivo.

Na maioria das vezes, as artes no campo estudantil têm sido usadas em enfeites, artesanatos e decorações de festividades. Quando se tem um pensamento crítico sobre sua utilidade e objeto de estudo, parte-se de um princípio eurocêntrico como principal expoente, e que a partir dela (a Europa) as ramificações da arte acontecem.

Paralelo a isso, nesse momento histórico tem-se muito ouvido falar sobre a inutilidade das artes – e a resposta na maioria das vezes tem sido “tente sobreviver à quarentena sem um bom livro, um filme, a música que nos salva”. Quase que em hegemonia tratada como entretenimento, recreação ou distração a tudo o que estamos vivendo.

Acredito que, em ambos os casos, a arte está presente com toda a sua potência e construção de aprendizado a partir de múltiplas experiências. Porém, em ambos os casos colocá-la unicamente nesses formatos é também reduzi-la a sua menor grandeza.

Gilberto da Costa Cruz (foto: Arquivo pessoal)

A arte questiona limites, possibilidades, fronteiras, pode nos colocar em lugares de questionamento que teses intelectuais incríveis não foram capazes. Tem capacidade de comunicar e gerar entendimentos diversos.

Ao que se espera de quase todo o objeto de estudo, as artes não são cartesianas. Não se baseiam em regras ou fórmulas. Ao contrário, são de infinitas possibilidades como a imensidão de oceanos.

Abro aqui um parêntese pra falar de uma única linguagem: a poesia. 

Celeiro de poetas, a zona Sul de São Paulo tem apresentado jovens que questionam e formam opinião. Com os saraus e slams, tem construído sabedorias que chegam a todos os lugares possíveis e imagináveis, inclusive as escolas. Luz Ribeiro, Tawane Teodoro, Kimani, Jéssica Campos, Thiago Peixoto são só alguns de brilhantes poetas que constroem narrativas e disseminam informações da zona Sul pro mundo, lembrando que essa lista poderia continuar por muito tempo.

Jovens questionadores e detentores de saber podem ser tão perigosos quanto os que, com capuzes no rosto estilhaçam as vidraças dos bancos. Jovens periféricos podem ser assustadores a depender de onde estão. Jovens negros periféricos ainda mais. Agora, jovens negros periféricos dotados de sabedorias múltiplas apresentam um perigo imensurável à sociedade. Daí tanto esforço em excluir um inocente conteúdo da grade de estudos.

Por esses e vários outros motivos, não me agrada quando se utilizam de termos como “arte política” ou “arte engajada”. A arte por si só já é ato político. As artes podem promover levantes, insurreições, mudanças radicais de pensamento e comportamento da população.

Será que queremos mesmo isso? Será que “eles” querem manter esses estudos dentro do ambiente escolar?

Gilberto da Costa Cruz, morador da zona Sul de São Paulo, é formado na rua e em territórios distintos. Bacharel e licenciado em teatro pela Universidade Anhembi Morumbi, é ator, co-fundador e integrante do Coletivo Legítima Defesa (grupo de teatro composto por artistas prestes). Também é professor de artes em escolas da Prefeitura e do Estado de São Paulo. Pesquisa o negro periférico na sociedade brasileira através das artes como um todo.

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