Diante do aumento dos eventos climáticos extremos, especialistas defendem que a preparação inclua o conhecimento comunitário dos riscos locais e a participação dos moradores na construção de planos de prevenção
Adriana Novaes
Quando a previsão indica chuva forte, o celular pode emitir um alerta da Defesa Civil recomendando que a população evite deslocamentos e procure um local seguro. A orientação, no entanto, nem sempre responde às dúvidas de quem vive em áreas sujeitas a enchentes: para onde ir? Qual caminho utilizar? Como proteger crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida? E o que fazer quando a água impede a saída de casa?
No Jardim Capela, na zona sul de São Paulo, a experiência de quem convive com os alagamentos mostra a distância entre receber um aviso e estar preparado para enfrentar uma emergência.
Jéssica Morais, conselheira de bairro, conta que os moradores já passaram por situações de enchentes, mas não existe uma organização prévia para lidar com esses episódios.
“Fazemos o que podemos na hora”, relata.
Segundo a moradora, os alertas da Defesa Civil costumam chegar a tempo e orientam os moradores a não sair de casa durante a chuva. No entanto, não há uma articulação organizada entre vizinhos para enfrentar os impactos.
Quando o temporal persiste por mais alguns dias, o problema deixa de ser apenas o alagamento e passa a comprometer a rotina de quem precisa trabalhar, estudar ou acessar serviços.
“Se por acaso chover três dias seguidos, as pessoas não conseguem sair de casa”, afirma.
Sidney Bruno, cofundador e diretor de marketing do Instituto Comuta e da Comuta Arquitetura, destaca que a desigualdade também se reflete nas temperaturas registradas em diferentes regiões da cidade.
“Quando falamos de mudanças climáticas nas periferias, precisamos falar também de justiça climática. A diferença de até 15°C entre dois territórios vizinhos mostra que os impactos da crise climática não dependem apenas do clima, mas também do endereço, da renda e das condições de moradia das pessoas”, afirma.
O especialista menciona um estudo do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA), da Universidade Federal do ABC (UFABC), que identificou diferenças de até 15°C entre o Morumbi e a vizinha Paraisópolis, em São Paulo.
Entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, as temperaturas de superfície ficaram em torno de 30°C no Morumbi e chegaram a 45°C em Paraisópolis.
Os dados foram obtidos por imagens de satélite que medem o calor de superfícies como telhados, ruas e solo, e não a temperatura do ar.
Segundo os pesquisadores, a presença de vegetação e a forma como os territórios são ocupados ajudam a explicar essas diferenças.
Alerta não é preparação
Para Felipe Santos, pesquisador colaborador do Programa Cemaden Educação, a vulnerabilidade das periferias diante dos eventos climáticos extremos se explica por meio de um processo histórico de desigualdade socioespacial, que determina onde as pessoas conseguem morar e quais serviços e estruturas estão disponíveis.
O acúmulo de riscos, segundo ele, exige etapas anteriores à emissão de alertas, pela defesa civil, para preparar a população periférica para emergências climáticas.
“Emitir um alerta é uma etapa fundamental do sistema de gestão de riscos, mas não significa, por si só, que a população esteja preparada”, explica Santos.

Felipe Santos defende planos elaborados de gestão de risco para as periferias lidarem com emergências climáticas. (Foto: Leandro Vaz)
Para o pesquisador, a gestão de riscos começa pelo conhecimento do próprio território, com a identificação de áreas sujeitas a alagamentos e deslizamentos, além da divulgação de rotas seguras e locais de acolhimento.
Santos também destaca a importância das redes de apoio, sobretudo para garantir a assistência a quem enfrenta mais dificuldades para deixar suas casas, como idosos, crianças, pessoas com deficiência e moradores com mobilidade reduzida.
“A comunicação deve ser entendida como um processo de diálogo, escuta e construção compartilhada de conhecimentos”, afirma.

Estudo identifica desigualdades climáticas nos territórios
O trabalho do Cemaden Educação busca aproximar conhecimentos científicos e experiências locais. Por meio de atividades de educação formal e não formal, o programa desenvolve ações voltadas à prevenção e à preparação para eventos extremos, incluindo inundações, enchentes, alagamentos e ondas de calor.
Um exemplo de mobilização comunitária é o projeto Adapta Keraciaba, desenvolvido no Jardim Keralux e na Vila Guaraciaba, em São Paulo. A iniciativa propôs a criação de alertas de riscos socioambientais compartilhados pelo WhatsApp, inclusive por áudio, para facilitar a comunicação entre moradores.
Comunidade também produz prevenção
A construção de planos comunitários de contingência é uma das estratégias para transformar informações sobre riscos em ações práticas.
A proposta consiste em mapear os pontos críticos do território, definir rotas de saída, identificar locais seguros, organizar redes de comunicação e estabelecer quem pode precisar de ajuda em uma emergência.
Como exemplo, Felipe Santos menciona a experiência da comunidade do Retiro, periferia de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.
Durante as chuvas de maio de 2022, intensas para a região, moradores e estudantes que participavam de atividades para redução de riscos utilizaram conhecimentos sobre monitoramento da chuva para mobilizar vizinhos que viviam em casas ameaçadas.
A experiência envolveu atividades do projeto Dados à Prova d’Água, do Cemaden Educação, em articulação com o Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (NUPDEC) e educadores locais. Enquanto a Região Metropolitana do Recife registrou 64 mortes naquele período, a comunidade do Retiro não teve mortes no episódio.
Para Santos, experiências como essa mostram que os moradores não devem ser vistos apenas como pessoas que recebem orientações em situações de emergência, eles conhecem o território, identificam mudanças no ambiente e podem contribuir para a prevenção.
“Muitas comunidades já desenvolvem estratégias próprias de cuidado, comunicação e solidariedade. O plano comunitário pode fortalecer essas redes, articulando seus conhecimentos e capacidades com os recursos técnicos e institucionais da Defesa Civil”, afirma.
A pesquisadora Leila Vendrametto, do Climares, também defende que a prevenção seja construída a partir da realidade de cada território, uma vez que as pessoas podem contribuir para uma disseminação mais acessível e rápida do trabalho realizado pela Ciência.
“A ciência produz dados e previsões, mas a proteção acontece quando esse conhecimento se transforma em confiança, participação comunitária e capacidade de ação nos territórios”, diz.

Leila Vendrametto, do Instituto Climares (Foto: Acervo Pessoal)
Leila ressalta que os planos de contingência precisam ser construídos com a população e atualizados conforme as mudanças do bairro, não basta elaborar um documento com rotas e procedimentos se os moradores não conhecem as orientações ou não conseguem colocá-las em prática.
“Os planos precisam deixar de ser apenas documentos formais e se tornar instrumentos vivos, construídos com a participação da população e adaptados às características de cada território”, afirma.
O que diz a Prefeitura
Questionada sobre as ações de prevenção e os planos de contingência na cidade, a Prefeitura de São Paulo informou que mantém medidas permanentes por meio do Plano de Prevenção às Chuvas (PPC). Segundo a administração municipal, o planejamento reúne ações de Defesa Civil, zeladoria, saúde, assistência social, obras de drenagem e infraestrutura em todas as regiões.
Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura informou que investiu R$ 11 bilhões em sistemas de drenagem desde 2021, de acordo com a gestão, o valor representa mais que o dobro do aplicado entre 2011 e 2020.
A administração também afirmou que lançou, em abril de 2026, o Plano de Contingência Participativo, iniciativa que prevê a participação de moradores na definição de rotas de fuga e pontos de encontro, além da identificação de sinais de risco.
Segundo a Prefeitura, a Defesa Civil municipal conta atualmente com 1.327 moradores voluntários cadastrados nos Núcleos de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) e os interessados em participar podem procurar a Defesa Civil da respectiva Subprefeitura. A COMDEC informou ainda manter 919 Planos de Contingência (PLANCONs) para áreas de risco mapeadas, contemplando riscos geológicos, hidrológicos e incêndios.
A nota afirma que, em situações de emergência, a Prefeitura presta assistência às famílias afetadas por meio de cadastro, distribuição de suprimentos, encaminhamento para locais seguros e abertura de abrigos temporários, quando necessário. O PPC também prevê protocolos específicos para pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade social.
A administração mencionou o plano de ação para o período de 2026 e 2027 e informou que os PLANCONs podem ser consultados no Portal da Legislação Municipal.
Edição: Agnes Sofia Guimarães


