Travesti e mãe de três, Lua Lucas transforma o seu cotidiano em registros que enfrentam estereótipos e reforçam riqueza da arte do Extremo Leste de São Paulo; exposição termina nesta sexta (09)
Khadja Ferraz
No extremo leste de São Paulo, uma exposição instalada no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes ressignifica o conceito patriarcal e tradicional de família. “Mamãe Travesti” trata-se da experiência maternal de sua autora, Lua Lucas, travesti e mãe de três, ao lado de sua esposa, Thábata Wbalojá. A exposição teve início no dia 11 de setembro e finaliza na próxima sexta-feira, 09 de outubro.
Lua é diretora, atriz, fotógrafa e curadora. Carioca, mas residente em São Paulo, integra o coletivo de teatro Filhas da Dita, na Cidade Tiradentes, e atua na produção e valorização de artistas trans e das periferias de São Paulo.
A exposição “Mamãe Travesti” nasceu da prática diária de Lua como fotógrafa autodidata.
Utilizando a câmera do próprio celular, a artista passou a registrar a rotina escolar e os momentos marcantes do acolhimento dos filhos na nova casa, muitos deles ocorridos a partir de situações simples do dia a dia.

Além de fotógrafa, Lua também é atriz e mãe. (Foto: Khadja Ferraz)
Lua destaca que o exercício era espontâneo, mas uma foto a despertou para a vontade de compartilhar os registros para o mundo. É a foto “Terra”, que fecha a exposição.
Nasceu a percepção de que havia, na galeria do celular, uma proposta que define como “insurgência do cuidado”, já que os registros apresentam a possibilidade de recriar histórias de corpos que, por muito tempo, não ocuparam o espaço familiar.
“Estamos falando de crianças que possam ser amadas e travestis que consigam construir família, sabe?”, pontua a artista, mãe de Daiô (11), Ítalo (8) e Ayla (4).
Casal das lutas e das artes
Lua e Thábata se conheceram em 2018 e, em dois meses, já estavam sob o mesmo teto. Desde então, desenvolveram muitos trabalhos artísticos, em especial na companhia de teatro Filhas da Dita, e no projeto “Travessia”, que, além de livro, também se transformou em um projeto itinerante de sarau.
Lua conta que a conexão com Thábata sempre foi muito intensa, mas se fortaleceu a partir de momentos muito desafiadores, como durante a pandemia da Covid-19.
O momento foi decisivo para entender os desejos que poderiam compartilhar juntas.

Foto “Terra” despertou em Lua a vontade em compartilhar seu trabalho com as pessoas .(Foto: Khad Ferraz, a partir de foto de Lua Lucas)
“Foi na pandemia que vimos que a gente era muito unida, tínhamos muita coisa para compartilhar. Eu sempre quis ser mãe, e a Tata foi entrando junto nessa jornada”, conta.
O processo de adoção demorou cerca de quatro anos. Apenas em 2024, o casal recebeu a habilitação da Vara da Infância e passaram a ter acesso ao Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA).
“A única coisa que a gente tinha definido era que seria uma criança preta, de até 6 anos”, lembra Lua.

Lua, Thábata e seus filhos (Foto: Khadja Ferraz)
Porém, houve uma mudança de planos durante o processo de adoção. Navegando pelo site do SNA, Thábata encontrou três irmãos e mostrou à sua parceira.
“Quando eu vi os meninos, tive certeza que eles seriam nossos filhos”, afirma Lua.
A aproximação com as crianças exigiu adequações profundas na rotina e na vida do casal, envolvendo viagens desafiadoras entre Cidade Tiradentes e o abrigo em Guarapiranga, até mudanças estruturais na casa para receber os pequenos. A chegada definitiva dos filhos aconteceu no início de 2025.
A partir de então, a família foi se fortalecendo a partir de pequenas grandes decisões diárias. Na educação das crianças, Lua explica que parte da formação acontece à base de muita conversa e a partir de exemplos emblemáticos, como o entendimento sobre o Dia dos Pais.
“Tudo bem que meu filho faça um desenho, mas não vai entregar nem para mim, nem pra Tata. Não é ele o problema, é a escola que tá num padrão, numa vibração muito normativa”., explica Lua. Ela também destaca como os padrões cissexista e heteronormativo das instituições formais acaba exigindo perguntas recorrentes, como formulários escolares que também exigem a figura paterna.
“Em vários momentos a gente vai ter que questionar o sistema, porque ele é muito binário”, destaca. Apesar disso, a família não encontra barreiras. A atriz destaca que o fato de ser uma travesti não a tornou alvo de preconceito que interferisse no processo
“A gente não recebeu nada do tipo, é claro que existem alguns olhares durante a visita, mas isso é um espelho da sociedade”., reflete.
Coletivo Filhas da Dita
A trajetória da família se funde com a história da Cia. Filhas da Dita, coletivo teatral que completa 20 anos de pesquisa contínua sobre o teatro do cotidiano, a territorialidade e o afrofuturismo na Zona Leste. Lua e Thábata são atrizes da companhia.
O grupo vem utilizando os espaços públicos para ensaios, já que a sede onde anteriormente os encontros aconteciam está funcionando com um acervo de materiais, já que o dinheiro que custeia um local para isso vinha do “Programa Fomento ao Teatro”.
“O fomento acabou e o aluguel também foi com ele”, lamenta a artista, que destaca que o projeto não para. Em março, aconteceu o lançamento do livro MALDITAS, e os ensaios abertos do novo espetáculo, Rádio em Rua
Como visitar a exposição
A exposição termina nesta sexta-feira, e recebe visitas , das 09h às 17h, no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes (CFCCT).
Edição: Agnes Sofia Guimarães


