Guetho Dance Posse, coletivo dedicado ao Sound System, transforma baile em aulas sobre a cultura nas periferias de SP

Guetho Dance Posse, coletivo dedicado ao Sound System, transforma baile em aulas sobre a cultura nas periferias de SP

Compartilhe!

Tempo de leitura: 7 minutos

Após conquistar edital de fomento, coletivo organiza festas com atividades que transformam  reggae em ferramenta de educação e pertencimento na zona sul de São Paulo 

Leonardo Guimarães

Foi frequentando bailes de reggae aos 17 anos e escutando as músicas do cantor baiano Edson Gomes e do dubman e produtor jamaicano Augusto Pablo, que Henrique Cabette se interessou pelos discos e as caixas de som. Observando seletores montando e desmontando os equipamentos no início e no final dos bailes que frequentava, o jovem sentiu que esse era o seu lugar.

Focou em conhecer mais sobre aquela cultura e nunca mais a abandonou.

“Entrou no coração que eu tinha que estudar algo, e quando você estuda algo que você gosta, você se aprofunda. Eu me aprofundei.”, conta Henrique, que hoje é seletor, aquele que na cultura Sound System é o responsável por selecionar e tocar as músicas nos bailes.

Em 2013, Henrique materializou a paixão pelo gênero musical em projeto: nascia o Guetho Dance Posse, que chegou às ruas da zona sul de São Paulo para fortalecer a cultura reggae e o Sound System na periferia. 

Ocupando bailes fechados, espaços culturais e ruas do bairro do Capão Redondo, o Guetho Dance Posse promove a cultura jamaicana oferecendo uma proposta de pertencimento aos jovens que frequentam o baile, já que propõe um ponto de encontro de conexão, que faz jus ao uso do nome “Posse”, gíria da cultura africana, que significa família. 

“O Guetho Dance é algo cultural. Tocamos em baile fechado mas também somos da rua.”, explica Henrique. 

Em 2025, a produtora cultural Ana Luiza Ribeiro convidou Henrique para se inscrever em projetos de fomento à cultura.

A dupla acabou sendo contemplada pelo edital 40\2024\SMC de fomento aos blocos de rua do carnaval de 2025 da Cidade de São Paulo. O incentivo levou ao Reggae Bloco Di Carnaval, que levou a cultura do Sound System para o Jardim São Bento no campo Unidos Venceremos.

Em parceria com a Fábrica de Cultura do Capão Redondo, artistas e coletivos, o evento levou o reggae para o Jd São Bento, um bairro carente de cultura.

Para fazer acontecer, Henrique iniciou uma parceria com a associação Unidos Venceremos, responsável em fornecer a energia elétrica necessária para ligar os equipamentos do evento, e hoje o baile acontece todos os fins de semana 

“Foi o primeiro evento lá. Como no Jd São Bento não tinha nenhum coletivo, o baile  movimentou a comunidade e com  esta parceria,  já estamos lá há mais de uma ano” nos conta Henrique Cabette.

Jogo de memória

O sucesso do primeiro edital fez com que o Guetho Dance Posse e a Produção Latina se inscrevessem em mais um edital, desta vez o 9° Edital de fomento à cultura reggae, em que novamente  foram contemplados. 

Dessa vez, Ana Luiza deu vida à ideia de juntar o conhecimento com a música e ensinar a juventude regueira de uma forma descontraída. Nascia o Reggae Explicado, que passou a fazer parte dos eventos na rua Unidos Venceremos, além de ter feito parte de eventos organizados no Grajaú. 

“Meu papel como produtora cultural é fazer mais do que um evento, é trazer algo explicativo e lúdico dentro dele”, explica Ana, que além de produtora cultural é também assistente social e idealizadora da Produtora Latina, que detém projetos voltados para a cultura negra como o coletivo Trançando raízes. 

O Reggae Explicado é  um jogo da memória gigante que convida  o público conhecer artistas internacionais e paulistanos, como Alton Ellis, Guxx, Michel Irie, Mis Ivy, U Roy e Sistah Chilli, além de saber  sobre a cultura jamaicana.

Como muitas das músicas são cantadas em inglês e em patois jamaicanos, a letra acaba sendo inacessível para muitos.

No meio do baile, o Mc Toaster Matos, apresenta informações sobre contextos históricos e trechos das músicas. 

“As pessoas estão ali curtindo o rolê, e elas podem parar e jogar dez minutos. Não necessariamente elas precisam estar em uma sala de aula, é só ler o que está no jogo da memória.” ressalta Ana Luiza. 

O Guetho Dance Posse segue em meio a uma política cultural que tem sido criticada pelos movimentos artísticos da cidade, que destaca o pouco investimento em iniciativas voltadas às periferias da cidade. Em 2025, segundo a própria prefeitura, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa teve orçamento atualizado de cerca de R$1,077 bilhão.

Ana Luiza Ribeiro e o jogo de memória do Reggae Explicado (Foto: Divulgação).

Desse orçamento, R$13,7 milhões foram destinados à 10ª edição do Programa Municipal de Fomento à Cultura da Periferia, criado pela Lei nº 16.496, de 2016, algo que gira em torno de menos de 2% do orçamento total.

Para o Guetho Dance, o acesso aos editais foi fundamental para ampliar sua atuação.

Henrique conta que só conseguiu comprar a primeira caixa de som em 2016, e realizou a primeira troca dos equipamentos apenas em 2022, quase dez anos após a criação do coletivo.

Após conseguir os editais, o projeto ganhou novos equipamentos. 

“Uma das maiores importâncias da gente ter um edital desses vindo para a periferia, é a gente possibilitar que esse dinheiro chegue tão longe. Em lugares em que ele dificilmente chegaria.”, reflete Ana Luiza.

O Guetho Dance Posse apresenta o Bloco Reggae às sextas, sábados e domingos na rua Unidos Venceremos, N1, no Jd São Bento, Zona Sul de São Paulo.

Para saber mais, acesse o instagram da iniciativa. 

Edição: Agnes Sofia 

{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.noReviewsLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo