Planos para Presidência e Governo de SP apresentam propostas para assistência social e saúde mental, com diferenças sobre recursos, profissionais e modelos de atendimento.
Christiane Figueiredo
Quando a renda não dá conta do mês, uma mulher precisa de acolhimento ou alguém entra em uma crise de saúde mental, a busca por ajuda passa por uma rede que nem sempre é visível até que se precise dela.
É a partir dessa régua que a Periferia em Movimento analisou os planos das candidaturas ao Governo de São Paulo e das candidaturas selecionadas à Presidência nas eleições de 2026.
Na disputa presidencial, a reportagem considera as propostas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram as pesquisas de intenção de voto, e de Samara Martins (UP) e Hertz Dias (PSTU), incluídos por seus vínculos com as periferias, em linha com o recorte editorial da Periferia em Movimento.
Para o Governo de São Paulo, foram analisados os programas de todas as candidaturas.
Assistência social: quem paga a conta do cuidado?
É pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que passam serviços como CRAS e CREAS e o acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade.
Por isso, falar em fortalecer essa rede passa também pelo financiamento.
Em São Paulo, essa discussão ganhou um capítulo novo em 2026. O Estado adotou uma nova metodologia para distribuir aos municípios os recursos de cofinanciamento do Fundo Estadual de Assistência Social (FEAS).
O cálculo considera vulnerabilidade social, rede socioassistencial instalada, execução financeira e orçamentária dos repasses estaduais, uma parcela distribuída igualmente entre os municípios e a existência de equipe de Vigilância Socioassistencial.
Nos planos das candidaturas ao Governo de São Paulo, o financiamento aparece de maneiras diferentes. Carlos Machado (PCB) propõe aumentar progressivamente o investimento estadual no SUAS, fortalecer o cofinanciamento dos municípios e dar previsibilidade aos repasses.
Fernando Haddad (PT) propõe fortalecer a assistência social em cooperação com as prefeituras, priorizando a primeira infância e famílias em situação de vulnerabilidade, mas não define quanto pretende investir.
Tarcísio de Freitas (Republicanos) inclui a assistência social em programas como o SuperAção SP. No documento analisado, porém, não localizamos meta específica de financiamento para CRAS e CREAS.
Na disputa presidencial, Lula (PT) propõe ampliar recursos e expandir e modernizar a rede do SUAS, mas o plano não determina quanto seria acrescentado ao orçamento.
Na saúde mental, ampliar significa o quê?
Quando a necessidade é de saúde mental, a distância entre proposta e atendimento passa por outra porta concreta: a dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e atendem pessoas em sofrimento psíquico.
Tarcísio propõe o programa + Saúde Mental, articulado com os municípios, e prevê fortalecer a atenção primária, capacitar equipes e integrar os serviços municipais e estaduais.
O plano também prevê expandir os Hubs Regionalizados de Cuidados em Crack e Outras Drogas, consolidar o modelo de Casas Terapêuticas e ampliar leitos de saúde mental em hospitais gerais.
Carlos Machado (PCB) propõe expandir a Rede de Atenção Psicossocial, com apoio técnico e financeiro aos municípios, para ampliar CAPS, residências terapêuticas e equipes multiprofissionais.
O plano prevê atendimento prioritariamente nos territórios onde vivem os usuários.
Vera Lúcia (PSTU) também propõe ampliar CAPS e residências terapêuticas e defende interromper os repasses públicos às comunidades terapêuticas, direcionando recursos para os CAPS.
Vivian Mendes (UP) prevê ampliar o atendimento psicossocial, principalmente para jovens, e substituir progressivamente a gestão dos serviços estaduais de saúde feita por Organizações Sociais (OSs) pela administração pública direta.
Na disputa pela Presidência, Lula propõe ampliar os investimentos na RAPS e nos CAPS, com atenção a crianças, adolescentes e jovens.
O plano informa que o Novo PAC apoiou 336 novos CAPS no mandato atual, mas não estabelece uma meta de novos equipamentos para o próximo.
Flávio Bolsonaro (PL) propõe ampliar a atenção à saúde mental para que diagnóstico, tratamento e apoio estejam disponíveis perto de casa, com medidas relacionadas à ansiedade, depressão, TDAH e Alzheimer.
O plano não especifica, porém, uma meta de expansão dos CAPS nem valor destinado à política de saúde mental.
Hertz Dias (PSTU) propõe ampliar CAPS, residências terapêuticas e centros de convivência e não destinar recursos públicos às comunidades terapêuticas.
Tem porta. Mas tem gente para atender?
Um equipamento aberto não funciona sozinho. Psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e outros trabalhadores transformam política pública em atendimento. E é sobre quem cuida que outra diferença aparece nos programas.
Carlos Machado propõe concursos, carreira e redução dos vínculos precários na saúde.
Haddad prevê concursos e educação permanente para profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS). Vivian Mendes, Vera Lúcia e Hertz Dias defendem reduzir ou encerrar modelos privados de gestão da saúde.
E as redes que já cuidam dos territórios?
A rede de cuidado não começa nem termina nos equipamentos públicos. Em muitos territórios, associações, coletivos, projetos sociais, igrejas, terreiros e outras iniciativas comunitárias oferecem comida, escuta, orientação e acolhimento.
Nos planos analisados, há menos detalhamento sobre a relação entre o poder público e essas redes territoriais. Carlos Machado prevê participação de organizações da sociedade civil na formulação do Plano Estadual de Proteção Social. Nos demais aspectos, os documentos não detalham de maneira comparável como associações, coletivos, igrejas, terreiros e outras iniciativas comunitárias entrariam nas políticas de cuidado ou poderiam acessar recursos públicos.
O tema aparece de forma mais específica quando os programas tratam das comunidades terapêuticas, instituições privadas voltadas ao acolhimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Vera Lúcia e Hertz Dias rejeitam explicitamente o financiamento público dessas instituições e defendem concentrar recursos na rede pública de atenção psicossocial.
Nos demais planos, não localizamos propostas detalhadas o suficiente para estabelecer a mesma comparação.
BOX | GOVERNO DE SÃO PAULO | ||
| Candidatura | Assistência social e saúde mental | Profissionais e modelo de atendimento |
| Tarcísio de Freitas (Republicanos) | Propõe o + Saúde Mental, articulado com municípios, com fortalecimento da atenção primária, capacitação de equipes e integração dos serviços de saúde mental. A assistência social também integra programas como o SuperAção SP. | Prevê articulação com municípios e capacitação de equipes na saúde mental. Não localizamos meta específica de financiamento para CRAS e CREAS. |
| Fernando Haddad (PT) | Propõe fortalecer a assistência social em cooperação com municípios, priorizando a primeira infância e famílias em situação de vulnerabilidade. | Prevê concursos e educação permanente no SUS. Não localizamos proposta específica para CAPS/RAPS no documento analisado. |
| Carlos Machado (PCB) | Propõe aumentar progressivamente o investimento estadual no SUAS, fortalecer o cofinanciamento municipal e dar previsibilidade aos repasses. | Defende concursos, carreira, formação continuada e redução dos vínculos precários. Prevê participação de usuários, trabalhadores, conselhos e Organizações da Sociedade Civil (OSCs) na formulação da política de proteção social. |
| Vera Lúcia (PSTU) | Propõe ampliar CAPS e residências terapêuticas e interromper recursos públicos destinados às comunidades terapêuticas. | Defende saúde pública estatal, fim das OSs e concursos para psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais. |
| Vivian Mendes (UP) | Propõe ampliar investimentos na assistência social e no atendimento psicossocial, principalmente para jovens. | Defende substituir progressivamente a gestão de serviços estaduais de saúde por OSs pela administração pública direta. |
| Izadora Dias (PCO) | Não localizamos proposta específica para SUAS, CRAS/CREAS, CAPS ou saúde mental no documento analisado. | Também não localizamos proposta específica sobre profissionais ou modelo de gestão dessas redes. |
BOX | PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA | ||
| Candidatura | Assistência social e saúde mental | Profissionais e modelo de atendimento |
| Lula (PT) | Propõe ampliar recursos, expandir e modernizar o SUAS e ampliar os investimentos na RAPS e nos CAPS, com atenção também a crianças e jovens. | O plano prevê fortalecimento da rede pública, mas não estabelece quanto seria acrescentado ao orçamento do SUAS nem uma meta de novos CAPS para o próximo mandato. |
| Flávio Bolsonaro (PL) | Propõe ampliar a atenção à saúde mental, com medidas relacionadas à ansiedade, à depressão, ao TDAH, ao Alzheimer e ao apoio às famílias. | Não localizamos meta de expansão de CAPS nem valor específico destinado à política de saúde mental no plano analisado. |
| Hertz Dias (PSTU) | Propõe ampliar CAPS, residências terapêuticas e centros de convivência e não destinar recursos públicos às comunidades terapêuticas. | Defende SUS estatal, fim da gestão privada e contratação por concurso público. |
| Samara Martins (UP) | Propõe fortalecer o SUS no atendimento às pessoas com deficiência e ampliar centros públicos de reabilitação, diagnóstico, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e saúde mental. | Não localizamos proposta específica para CAPS ou comunidades terapêuticas no documento analisado. |
A comparação considera as propostas localizadas nos planos de governo analisados pela reportagem. Quando uma medida não foi encontrada após busca dirigida, indicamos que “não localizamos proposta específica”. Isso não significa necessariamente que a candidatura seja contrária à medida.
Edição: Agnes Sofia


