Candidaturas ao governo de São Paulo e à Presidência acenam para o enfrentamento a eventos climáticos extremos, com propostas que diferem pelas perspectivas sobre a responsabilidade do Estado para lidar com o problema.
Christiane Figueiredo
Quando a chuva alaga a rua, a encosta ameaça desabar ou a luz demora a voltar, a crise climática deixa de ser uma discussão distante. Para quem vive em territórios com pouca infraestrutura, pode significar perder móveis, faltar ao trabalho, ficar sem água ou até precisar sair de casa.
É a partir desses problemas concretos que a Periferia em Movimento analisou os planos das candidaturas ao Governo de São Paulo e das candidaturas selecionadas à Presidência nas eleições de 2026.
Na disputa presidencial, a reportagem considera as propostas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram as pesquisas de intenção de voto, e de Samara Martins (UP) e Hertz Dias (PSTU), incluídos por seus vínculos com as periferias, em linha com o recorte editorial da Periferia em Movimento. Para o Governo de São Paulo, foram analisados os programas de todas as candidaturas.
A comparação olha para questões que fazem diferença quando a emergência chega: há dinheiro previsto? O plano diz onde pretende investir? Identifica quem deve ser priorizado? E apresenta medidas para evitar que a próxima chuva, seca ou interrupção de energia produza novamente perdas para quem vive nos territórios mais vulneráveis?
Se a chuva vier forte, o que os governos pretendem fazer?
Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) prevê mais de R$ 25 bilhões até 2029 para adaptação e resiliência climática, incluindo drenagem, desassoreamento, reservatórios, água e saneamento. Na habitação, o plano prioriza áreas de risco, favelas, palafitas e mananciais e prevê alcançar mais de 30 mil famílias nesses territórios.
Carlos Machado propõe criar um Plano Estadual de Prevenção e Gestão de Riscos Climáticos, com mapeamento das áreas de risco, monitoramento permanente e sistemas de alerta, priorizando os territórios mais vulneráveis. O programa prevê ainda R$ 32 bilhões para urbanização popular e regularização fundiária e R$ 28 bilhões para habitação integrada à infraestrutura urbana.
Fernando Haddad (PT) propõe fortalecer a prevenção de desastres e a Defesa Civil, mapear e cuidar das áreas de risco em parceria com os municípios e apoiar a adaptação das cidades. Vivian Mendes (UP) propõe um programa de desimpermeabilização do solo, além de melhorias na drenagem, reservatórios subterrâneos e piscinões. O plano prevê ainda fortalecer a Defesa Civil em articulação com políticas de habitação e assistência social. Vera Lúcia (PSTU) propõe obras estatais de macrodrenagem, contenção de encostas em áreas de risco periféricas e reflorestamento urbano. Além disso, prevê um “plano estadual vinculante de adaptação climática por bacia e região”, com sistema público de alertas, abrigos, arborização das periferias, recuperação de várzeas, nascentes e matas ciliares e protocolos para eventos extremos., no entanto, detalha o orçamento reservado para essas obras.
Na disputa pela Presidência, Samara Martins (UP) propõe financiar drenagem, contenção de encostas, parques lineares, recuperação de rios, reassentamento de áreas de risco e adaptação climática urbana.
Hertz Dias (PSTU) prevê ações de prevenção contra enchentes e deslizamentos, além de alertas e evacuação com participação comunitária.
O programa de Lula (PT) cita R$ 25 bilhões já investidos pelo Novo PAC em obras de contenção de encostas e drenagem urbana sustentável, com prioridade para áreas de risco alto ou muito alto em municípios com problemas recorrentes de deslizamentos e inundações. Para o próximo mandato, propõe ampliar os investimentos em prevenção e redução de riscos de desastres, aprimorar a Defesa Civil e fomentar a adaptação climática por meio de infraestrutura verde, proteção de mananciais e ocupação resiliente do território. Flávio Bolsonaro (PL) propõe ampliar obras de prevenção a eventos climáticos extremos, com reservatórios para controle de cheias, diques, canais, drenagem e macrodrenagem. O plano prevê ainda fortalecer o monitoramento, os sistemas de alerta e a resposta da Defesa Civil.
E quando falta água?
Em São Paulo, os programas divergem não apenas sobre as ações de saneamento, mas também sobre o modelo de gestão do serviço.
Tarcísio defende a continuidade do modelo adotado após a privatização da Sabesp. Seu programa prevê mais de R$ 70 bilhões em investimentos e a universalização dos serviços de água e esgoto até 2029 na área atendida pela companhia.
Vivian Mendes (UP), Vera Lúcia e Carlos Machado defendem a retomada do controle público da Sabesp. Vivian também propõe reduzir tarifas e ampliar investimentos em água, esgoto e drenagem, com atenção às periferias urbanas.
Haddad não propõe reverter a privatização da Sabesp. O plano prevê fiscalizar a qualidade e a expansão dos serviços contratados, proteger os mananciais e garantir segurança hídrica, com atenção às áreas mais vulneráveis.
Entre as candidaturas à Presidência, Samara Martins (UP) defende a reestatização das companhias de saneamento. Seu programa também prevê ampliar ações de saneamento como parte da urbanização de favelas e de um plano nacional de infraestrutura nas periferias. Lula propõe continuar apoiando estados e municípios na universalização do acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário, com prioridade para periferias historicamente negligenciadas.
E quando o temporal apaga a luz?
Os eventos extremos também atingem a rede elétrica. Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) levou à etapa final de instrução o processo administrativo que pode resultar em uma recomendação de extinção da concessão da Enel São Paulo.
Segundo a agência, a distribuidora apresentou desempenho insatisfatório durante eventos climáticos extremos ocorridos em 2023, 2024 e 2025, quando consumidores da Região Metropolitana de São Paulo enfrentaram interrupções prolongadas no fornecimento de energia.
Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Vivian Mendes (UP) propõe reestatizar a Enel e a EMAE, ampliar investimentos públicos em geração e distribuição de energia e incentivar fontes renováveis. Vera Lúcia propõe que o Plano Geral de Desprivatização alcance a energia, transferindo a gestão para empresas públicas. Carlos Machado propõe reconstruir um sistema energético público e reestatizar empresas estratégicas do setor, com participação de trabalhadores, universidades, usuários e organizações sociais na gestão. O programa relaciona a política energética à expansão das fontes renováveis e à transição energética, mas o eixo central da proposta é a retomada do controle público.
Nas demais propostas ao governo paulista, o futuro da concessão da Enel não é citado diretamente
Além da resposta aos apagões, os planos também abordam a transição para fontes renováveis. Tarcísio propõe incentivar a energia solar e a eficiência energética nas unidades habitacionais do Casa Paulista, além de escolas e prédios públicos.
Na disputa pela Presidência, Samara Martins (UP) defende a estatização da Eletrobras e o controle público da geração de energia. O programa considera a transição energética urgente e propõe vinculá-la à redução de poluentes e à eficiência energética. Hertz Dias defende a estatização de empresas estratégicas do setor de energia e a reversão de privatizações. Flávio Bolsonaro propõe ampliar e modernizar a rede de transmissão, integrar novas fontes renováveis e expandir atividades ligadas a petróleo e gás. O plano cita energia solar, eólica, biocombustíveis e hidrogênio verde, mas não localizamos medida específica para ampliar o acesso à energia solar em moradias de famílias de baixa renda.
BOX | O que dizem os planos sobre crise climática, moradia e serviços essenciais
GOVERNO DE SÃO PAULO
A comparação considera as propostas localizadas nos planos de governo analisados pela reportagem. Quando uma medida não foi encontrada após busca dirigida, indicamos que “não localizamos proposta específica”. Isso não significa necessariamente que a candidatura seja contrária à medida.
| Candidatura | Enchentes e áreas de risco | Moradia e urbanização | Água e saneamento | Energia |
| Tarcísio de Freitas (Republicanos) | Prevê obras de drenagem, desassoreamento e reservatórios, além de ações de prevenção, monitoramento e resposta a eventos extremos. | Prevê moradias, regularização fundiária, reassentamento e urbanização, com foco em áreas de risco, favelas, palafitas e mananciais. | Mantém a universalização do saneamento por meio do modelo adotado após a desestatização da Sabesp, com expansão de água, coleta e tratamento de esgoto. | Prevê expansão de energia renovável e ações ligadas à transição energética. |
| Fernando Haddad (PT) | Fortalecimento da prevenção de desastres e da Defesa Civil, mapeamento e cuidado de áreas de risco e apoio à adaptação das cidades | Habitação de interesse social, regularização fundiária e melhoria das moradias existentes | Fiscalização da universalização e da qualidade dos serviços, proteção dos mananciais e segurança hídrica, com atenção às áreas vulneráveis | Transição ecológica, energia limpa, biomassa e combustíveis renováveis; não localizei proposta específica para distribuição de energia ou geração residencial |
| Vera Lúcia (PSTU) | Obras de macrodrenagem e contenção de encostas em áreas de risco periféricas; reflorestamento urbano; plano estadual de adaptação climática, com alertas e abrigos. | Plano de habitação popular com desapropriação de imóveis vazios; fim dos despejos e regularização fundiária de ocupações periféricas. | Reestatização da água e do saneamento; universalização do saneamento; despoluição de rios e tratamento integral do esgoto. | Reestatização da energia e retomada da gestão por empresa pública, sob controle de trabalhadores e usuários. |
| Vivian Mendes (UP) | Desimpermeabilização do solo, melhoria da drenagem, reservatórios subterrâneos e piscinões; fortalecimento da Defesa Civil articulado à habitação e assistência social | Política habitacional associada à prevenção de riscos e proteção de áreas ambientalmente sensíveis | Reestatização da Sabesp; redução de tarifas; ampliação de investimentos em água, esgoto, drenagem e resíduos; tarifa social | Reestatização da Enel e da EMAE; ampliação dos investimentos públicos em geração e distribuição e incentivo a fontes renováveis |
| Izadora Dias (PCO) | Não localizamos proposta específica para enchentes, drenagem, áreas de risco ou adaptação climática | Propõe expropriar imóveis vagos de especuladores, proibir despejos e criar plano nacional para construção de milhões de moradias populares | Não localizamos política específica de saneamento; prevê proibir cortes de água para pessoas desempregadas | Defende cancelar privatizações, incluindo a Eletrobras, e estatizar setores estratégicos; não detalha política de geração ou distribuição de energia |
| Carlos Machado (PCB) | Propõe um Plano Estadual de Prevenção e Gestão de Riscos Climáticos, com mapas de risco, monitoramento permanente, sistemas de alerta e ações de adaptação, priorizando regiões mais vulneráveis. | Prevê urbanização das periferias e regularização fundiária, com investimento de R$ 32 bilhões no mandato, além de R$ 28 bilhões para habitação integrada à infraestrutura urbana. | Defende a reestatização da Sabesp e do sistema estadual de saneamento, com controle público da água e universalização do saneamento. | Propõe a reestatização de empresas estratégicas do setor energético e a reconstrução de um sistema energético público, integrado ao planejamento estadual. |
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
| Candidatura | Enchentes e áreas de risco | Moradia e urbanização | Água e saneamento | Energia |
| Lula (PT) | Propõe ampliar prevenção e redução de riscos, aprimorar a Defesa Civil e fomentar adaptação por infraestrutura verde, proteção de mananciais e ocupação resiliente. Os R$ 25 bi citados para encostas e drenagem são investimentos já iniciados pelo Novo PAC. | Manter e ampliar o Minha Casa Minha Vida, preservando foco nas famílias de menor renda; ampliar urbanização de favelas e regularização fundiária pelo Periferia Viva, com novas seleções de projetos. | Propõe apoiar estados e municípios na universalização de água e esgoto, priorizando periferias historicamente negligenciadas, além de manter apoio ao tratamento de esgoto. | Propõe ampliar renováveis, armazenamento e transmissão, combater a pobreza energética e aumentar a resiliência do sistema às mudanças climáticas. Não localizei proposta específica de energia solar residencial para famílias de baixa renda. |
| Flávio Bolsonaro (PL) | Prevê reservatórios para controle de cheias, diques, canais, drenagem e macrodrenagem, além de fortalecer monitoramento, alertas e resposta da Defesa Civil | Retomada do Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de residências; urbanização de áreas degradadas, regularização fundiária e PPPs integrando moradia e infraestrutura. | Prevê obras de segurança hídrica e ampliação da infraestrutura de abastecimento; preciso separar no plano o que há especificamente sobre saneamento | Propõe ampliar e modernizar a transmissão, integrar fontes renováveis e buscar redução do custo da energia; inclui petróleo e gás na estratégia energética |
| Samara Martins (UP) | Propõe financiar drenagem, contenção de encostas, parques lineares, recuperação de rios, reassentamento de áreas de risco e adaptação climática urbana. | Prevê ampliar a produção pública e social de moradias, urbanizar favelas, fazer regularização fundiária e utilizar imóveis e terrenos ociosos da União para habitação popular. | Propõe ampliar saneamento nas periferias e defende a reestatização das companhias de saneamento, dentro de uma política de controle público de setores estratégicos. | Defende a estatização da Eletrobras, monopólio público na geração de energia e uma transição energética associada à redução de poluentes e à eficiência energética. |
| Hertz Dias (PSTU) | Planos de prevenção contra enchentes e deslizamentos, com alertas, evacuação e participação comunitária. Prevê reflorestamento urbano. | Construção de moradias populares, urbanização das periferias e infraestrutura nos bairros populares. | Universalização do saneamento básico e defesa do controle público dos serviços. | Defende a estatização de empresas estratégicas do setor de energia e a reversão de privatizações. |
Edição: Agnes Sofia


