Como jovens periféricos que trabalham por aplicativos imaginam o futuro no trabalho

Como jovens periféricos que trabalham por aplicativos imaginam o futuro no trabalho

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Tempo de leitura: 8 minutos

Entre trabalho por aplicativos e apostas, jovens buscam alternativas para aumentar a renda enquanto a estabilidade e o planejamento de longo prazo parecem cada vez mais distantes.

Adriana Novaes

Quando deixou um emprego com carteira assinada depois de sofrer um acidente, Rafael Henrique, de 35 anos, não imaginava que uma tentativa de ganhar dinheiro enquanto procurava uma nova oportunidade mudaria sua relação com o trabalho.

Diante da dificuldade de voltar ao mercado formal, Rafael fez um teste como entregador de aplicativo.

O que parecia uma solução provisória se transformou, quase oito anos depois, em sua principal forma de trabalho.

Hoje, ele diz que não trocaria a autonomia das entregas por um emprego formal.

A principal vantagem, para o entregador, está na liberdade para decidir quando trabalhar.

Rafael costuma fazer entregas seis dias por semana e gosta de manter uma jornada intensa, mas faz questão de dizer que a escolha é dele.

“Trabalha a hora e o dia que eu quiser, essa é minha maior vantagem”, explica.

Da carteira assinada, Rafael sente falta das férias e dos benefícios.

Para se proteger em caso de doença ou acidente, contribui regularmente com o INSS.

No entanto, se precisasse escolher entre um emprego formal com um salário que considerasse justo, e continuar fazendo entregas, o autônomo ficaria com o aplicativo.

“Com CLT você tem um fixo, um X. No aplicativo, se você quiser dobrar o X, você consegue. Depende da sua disposição”, afirma

A experiência de Rafael mostra que, para alguns trabalhadores, o trabalho por aplicativo já não é mais  encarado como uma etapa provisória até a chegada de um emprego com carteira assinada. 

Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços em seu trabalho principal, número 25,4% maior que o registrado no quarto trimestre de 2022.

O IBGE considera atividades realizadas por meio de plataformas de transporte de passageiros, entrega de mercadorias e prestação de serviços.

O crescimento desse tipo de trabalho não significa, porém, que os aplicativos estejam simplesmente substituindo o emprego formal.

Em 2024, a média anual de empregados com carteira assinada chegou a 38,7 milhões, o maior contingente da série histórica da PNAD Contínua até então. No mesmo ano, cerca de 26 milhões de pessoas trabalhavam por conta própria.

Quanto do futuro cabe no trabalho de hoje? 

Pesquisador das relações entre trabalho e precarização, o sociólogo Ruy Braga observa a escolha pelo trabalho autônomo a partir do que chama de “cidadania salarial”.

A expressão está relacionada à expectativa de que o emprego formal ofereça remuneração associada a direitos, proteção social, qualificação e possibilidade de progressão profissional. 

Pesquisador avalia que trabalhadores estão criando uma relação mais imediatista com o trabalho. (Foto: Agência Brasil)

Na avaliação do pesquisador, a perspectiva perdeu força com transformações no mercado de trabalho, como a expansão do setor de serviços, as terceirizações e o crescimento de ocupações com menor proteção.

Segundo Braga, se o salário não produz uma melhora significativa nas condições de vida, a estabilidade pode perder parte de seu apelo.

O discurso do empreendedorismo e do trabalho por conta própria encontra espaço nesse cenário. No entanto, o pesquisador ressalta que a ideia de simplesmente “ser seu próprio chefe” não explica completamente o fenômeno. 

“O grande objetivo não é ser o chefe, o grande objetivo é fazer a renda”, afirma.

O IBGE aponta que características como horas trabalhadas, rendimentos, contribuição previdenciária e dependência em relação à plataforma ajudam a diferenciar os trabalhadores da categoria dos demais ocupados.

A pesquisa também chama atenção para a influência das plataformas sobre aspectos da jornada e da realização das tarefas.

A vida no presente

Para Ruy Braga, a renda disponível interfere diretamente na possibilidade de projetar o futuro. Em entrevistas realizadas pelo pesquisador com jovens trabalhadores de aplicativos, ele encontrou pessoas sem uma perspectiva clara de aposentadoria.

Quando imaginavam os próximos anos, muitas pensavam em juntar dinheiro para abrir o próprio negócio. 

Aluguel, alimentação, contas, transporte e ajuda à família disputam espaço no orçamento.

Planos como comprar uma casa, fazer uma formação universitária ou construir uma reserva financeira dependem de uma renda que nem sempre sobra depois das despesas imediatas. 

“Esses jovens vivem no presente”, afirma o pesquisador.

Se o trabalho por aplicativo oferece a possibilidade de aumentar a renda por meio do esforço, as apostas apresentam outra promessa: ganhar dinheiro sem que o retorno dependa diretamente da quantidade de horas trabalhadas.

Kayque Nicolas, de 28 anos, assistente de câmera e videomaker, conhece os dois lados. Hoje, além de atuar profissionalmente na área audiovisual, também trabalha como motorista de aplicativo. 

A  experiência que teve com as bets, no entanto, foi diferente.

Kayque começou a apostar porque precisava de dinheiro para fazer um intercâmbio.

No início, queria apenas uma renda extra, mas os primeiros ganhos mudaram sua percepção sobre as apostas, e em determinado momento, passou a acreditar que poderia mudar de vida por meio delas e deixar de se submeter a determinadas situações profissionais.

As perdas começaram a comprometer o dinheiro destinado às despesas. Kayque conta que chegou a perder o salário em um único dia e passou a temer que as consequências atingissem sua família. A experiência deixou marcas que ultrapassaram o prejuízo financeiro.

“Eu estava buscando esperança e acabei encontrando desgraça”, afirma.

Hoje, Kayque não aposta mais. Ao comparar as bets com o trabalho como motorista de aplicativo, faz questão de separar as duas atividades.

Para o videomaker, receber pelo trabalho realizado é diferente de apostar à espera de um retorno incerto.

“Na Uber, o dinheiro é suado. A bet é dinheiro fácil, onde você ganha e perde, e depois sente muita ansiedade e fica querendo mais e mais porque nunca é o suficiente”, conta.

O tamanho do mercado de apostas ajuda a entender por que o tema passou a fazer parte das discussões sobre renda e vulnerabilidade financeira.

De acordo com um estudo publicado em 2024, o Banco Central estimou que aproximadamente 17% dos beneficiários do Bolsa Família haviam realizado apostas em agosto daquele ano.

O levantamento estimou que esses apostadores enviaram cerca de R$ 2 bilhões por Pix para empresas de apostas.

O próprio Banco Central ressaltou que se tratava de um primeiro levantamento, baseado em estimativas, e que seriam necessários novos dados para avaliar de forma mais robusta os impactos econômicos e financeiros do fenômeno.

Os dados chamaram atenção para a presença das apostas entre pessoas de baixa renda, embora o levantamento não permita atribuir esse comportamento a uma única causa.

Edição: Agnes Sofia 

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