Por Adriana Novaes. Edição: Agnes Sofia Guimarães
Quando Maria Carolina Serrão Alves se sentou para entrevistar a própria avó, percebeu que as histórias de quem vive há décadas no Extremo Sul de São Paulo guardavam mais do que lembranças.
Relatos sobre rios, matas, estradas de terra e dificuldades de acesso ajudavam a contar as transformações de um território que hoje convive com enchentes, calor intenso e problemas de infraestrutura.
Aos 21 anos, a jovem, integrante da Associação Bauhinia, percebeu que preservar a memória também é uma forma de construir respostas para o futuro; memória que, também descobriu, ainda é mais rica quando compartilhada a partir de uma conversa.
“O diálogo e a oralidade são conhecimentos que muitas vezes são desconsiderados, mas carregam histórias e saberes fundamentais para compreender um território.”, revela.
O resgate da memória a partir da troca entre gerações foi o que impulsionou uma mobilização que reuniu 160 jovens de bairros urbanos e rurais da região do Extremo Sul de São Paulo para ouvir moradores antigos e transformar a memória coletiva em propostas concretas de justiça climática.
Realizado por meio de um edital do Fundo Casa Socioambiental voltado à justiça climática e à juventude, o projeto Rede Território do Futuro, Saberes da Quebrada aproximou jovens da Chácara Santo Amaro, território rural localizado entre Grajaú e Parelheiros, e do Jardim Iporanga.
Os encontros promoveram intercâmbios entre diferentes realidades do Extremo Sul de São Paulo e mostraram que, apesar das diferenças entre os territórios, os desafios relacionados à preservação dos mananciais e às mudanças climáticas são compartilhados.
Segundo Maria Carolina, a proposta sempre foi fortalecer os vínculos entre coletivos da região para que a juventude pudesse construir soluções de forma conjunta e ocupar espaços de decisão.
“Pensamos em conectar jovens, coletivos e a Zona Sul por meio de intercâmbios entre juventudes rural e urbana e construir uma carta de demandas e um manifesto a partir das vozes da juventude.”, conta.

A iniciativa contou com o diálogo intergeracional sobre as vivências nos mananciais no Extremo Sul de São Paulo (foto: Gabriela Garcia)
A articulação foi estruturada pela Associação Bauhinia, organização que deu suporte técnico ao desenvolvimento das atividades e à construção da rede formada durante o projeto.
Com o passar dos meses, a iniciativa ganhou autonomia e passou a reunir diferentes coletivos ambientais do território.
“Costumamos dizer que o projeto é filho da Bauhinia, mas hoje é um projeto emancipado”, resume Maria Carolina.
Maria do Carmo Santos Alves tem 68 anos e é moradora da Chácara Santo Amaro há mais de três décadas. Suas lembranças revelam um bairro muito diferente do atual.
Quando chegou à região, todas as ruas eram de terra e, nos períodos de chuva, os ônibus frequentemente deixavam de circular por causa da lama.
Ela lembra que perdeu dois empregos porque simplesmente não conseguia sair de casa.
As mudanças também ficaram marcadas na paisagem. Maria do Carmo lembra de uma época em que os rios eram limpos.
“A gente pescava, tinha gente que nadava, porque antes era uma água pura.”, lembra com nostalgia.
Ela observa que as mudanças também trouxeram chuvas mais intensas e novos problemas para os moradores.
“Agora, quando chove, vem tudo de uma vez. Hoje acontecem muito mais tragédias, como enchentes e alagamentos.”, lamenta.
Juventude cobra ações das políticas públicas
Além de conversar com moradores das primeiras gerações da região, a Rede Território do Futuro aplicou 160 formulários com jovens do Extremo Sul para identificar quais são os principais problemas enfrentados por quem vive em áreas de mananciais.
O levantamento resultou na construção da Carta de Demandas da Juventude do Extremo Sul de São Paulo, elaborada com a participação de 15 coletivos da região.

Iniciativa resultou em carta que chegou nas mãos do Poder Público. (Foto: Gabriela Garcia)
O documento reúne propostas relacionadas ao enfrentamento das enchentes, à ampliação do saneamento básico, à preservação ambiental e ao fortalecimento das políticas públicas voltadas aos mananciais.
Para Maria Carolina, esse é um dos principais legados deixados pela iniciativa.
“Na minha visão, o mais urgente é justamente o conjunto de demandas reunidas na carta, pois elas refletem pautas prioritárias para os territórios de mananciais.”, ressalta.
Depois da construção da carta, o projeto passou a ocupar também os espaços institucionais. O manifesto foi lançado durante o Abraço à Represa Guarapiranga, em 31 de maio, e posteriormente apresentado a representantes do poder público.
A mobilização rendeu um convite da vereadora Renata Falzoni para que a Rede Território do Futuro apresentasse suas propostas na Câmara Municipal de São Paulo, ampliando o diálogo com parlamentares e gestores das Áreas de Proteção Ambiental.
“Quando dizemos que o projeto atravessou a ponte, estamos falando de um projeto que nasceu e se fortaleceu na Zona Sul, mas conseguiu ultrapassar as fronteiras do território e chegar ao poder público. A própria rede construída pelo projeto passou a ser uma ponte entre as juventudes periféricas e os espaços de decisão.”, celebra Maria Carolina.
Mesmo com o encerramento do projeto, a jovem ativista acredita que a principal conquista não está apenas na carta ou nos encontros realizados, mas na rede que continua mobilizando jovens e fortalecendo novas lideranças ambientais.
Para ela, a transformação dos territórios depende da organização coletiva, da valorização da memória e da participação de quem vive diariamente os impactos da crise climática.
“A nossa voz e a nossa organização têm muita força para transformar os territórios. É importante ocupar os espaços, ouvir uns aos outros e entender que a juventude precisa se reconhecer como parte ativa dessas mudanças.”, destaca.
Transparência editorial: A Periferia em Movimento é uma das organizações signatárias da Carta de Demandas da Juventude do Extremo Sul de São Paulo.

