Cuidar também é papel do pai

OPINIÃO

Cuidar também é papel do pai

Por: Thiago Almeida, pai atípico e neurodivergente, fundador do Coletivo TEAção*

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Tempo de leitura: 6 minutos

Atualmente, quando falamos sobre inclusão, quase sempre o foco está nas crianças e em seus desafios pelo desenvolvimento, esquecendo que acesso está em todas as fases da vida. E, quando pensamos no cuidado de pessoas autistas ou com deficiência, a imagem que costuma surgir é a da mãe atípica, muitas vezes sobrecarregada e sozinha. Essa realidade existe e precisa ser enfrentada, mas também evidencia a ausência, quase naturalizada, da figura do pai nesse processo de cuidado.

A paternidade atípica precisa deixar de ser exceção para se tornar compromisso. O pai não pode ser visto apenas como provedor financeiro ou acompanhante de eventuais necessidades. O cuidado envolve presença, escuta, afeto e participação na rotina, nas reuniões escolares, nas brincadeiras e nas decisões da vida dos filhos.

Ou seja: parentalidade é responsabilidade compartilhada. 

Falo sobre isso porque vivi (e vivo por assim dizer) essa transformação diariamente. Sou pai de três filhos, entre eles um menino autista nível 2 de suporte.

Antes do diagnóstico, acreditava que cumpria meu papel de pai, mas descobri que cuidar exigia muito mais do que garantir sustento. Precisei rever conceitos, aprender sobre autismo, compreender um desenvolvimento diferente do esperado e celebrar pequenas conquistas. 

Eu também percebi a importância de dividir as responsabilidades e o peso emocional com minha esposa, reconhecendo minhas limitações e que o cuidado precisa ser construído em parceria.

Essa caminhada me levou a um encontro importante comigo mesmo! Já adulto, recebi o diagnóstico de autismo, que se soma aos diagnósticos anteriores de TDAH e transtorno bipolar. Compreendi muitas dificuldades que me acompanharam desde a infância e percebi que cuidar dos meus filhos também significava aprender a cuidar de mim. 

O diagnóstico não me definiu, mas ampliou meu olhar sobre a diversidade humana e me permitiu transformar a culpa em compreensão. 

É importante trazer a paternidade para a conversa sobre inclusão nas famílias. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

A partir dessa vivência, nasceu o Coletivo TEAção, em Mauá, no Grande ABC Paulista, criado para acolher famílias, compartilhar informações, fortalecer redes de apoio e defender políticas públicas para pessoas com deficiência, sobretudo, no espectro autista.

Ao longo dos anos, mostramos que nenhuma família deve enfrentar seus desafios sozinha e que inclusão acontece quando sociedade e poder público assumem responsabilidades.

Toda essa experiência também fortaleceu minha defesa da lei intitulada Semana da Paternidade Atípica, uma iniciativa voltada à conscientização sobre o papel dos pais no cuidado de crianças com deficiência e outras condições do neurodesenvolvimento. Não se trata de criar privilégios, mas de incentivar uma mudança cultural.

O abandono paterno contribui para a sobrecarga das mães e gera prejuízos ao desenvolvimento das crianças; logo, quanto mais homens compreenderem seu papel, mais famílias serão fortalecidas. O debate também permite pensar sobre o rigor da lei para situações de negligência. 

Outro momento marcante foi representar minha cidade e o Estado de São Paulo na 5ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, em Brasília, em 2024. Participar deste espaço significou contribuir para a construção de políticas públicas mais humanas e inclusivas, reafirmando que a participação social é fundamental para transformar realidades.

Ainda há um longo caminho pela frente, muitas pessoas ainda estranham ver um pai falando sobre cuidado, como se esse espaço não lhe pertencesse. Essa visão precisa mudar! Homens também precisam ser incentivados a demonstrar afeto, pedir ajuda, cuidar da própria saúde mental e participar ativamente da criação dos filhos. O cuidado não diminui a masculinidade; ao contrário, fortalece vínculos familiares e favorece o desenvolvimento das crianças.

O meu desejo é que mais pais estejam presentes nas consultas, nas escolas, nas lutas por direitos e, principalmente, na rotina de seus filhos. Crianças precisam de quem as veja, as escute, as compreenda e caminhe ao seu lado.

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva começa dentro de casa, quando o cuidado é compartilhado, o afeto é demonstrado e a responsabilidade deixa de ser única. Quando um pai escolhe estar presente, toda a família cresce junto e quem ganha é a sociedade.

 

Sobre o autor

Thiago Almeida é pai atípico e neurodivergente. Bacharel em comunicação, educador social e especialista em saúde mental com mais de uma década de experiência no SUS, com atuação em políticas públicas, inclusão social e cuidado psicossocial. Possui pós-graduado em gestão pública e especialista em saúde mental. Fundador do Coletivo TEAção, iniciativa voltada à defesa das famílias atípicas e à promoção da inclusão. Sua trajetória reúne experiência técnica, sensibilidade social e compromisso com uma sociedade mais inclusiva, acessível e humanizada. Atua também na produção de conteúdo web e apresenta o Podcast TERÇA MENTAL, mediação de debates e construção de projetos que fortalecem a inclusão, a saúde mental e o protagonismo das populações historicamente invisibilizadas. Foi delegado da 5ª conferência da pessoa com deficiência em Brasília.

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