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Por Adriana Novaes. Edição Thiago Borges
A chegada de migrantes, as mudanças na paisagem e os conflitos no bairro são revividos em “Histórias do Velho Batista”. Já o silenciamento de mulheres periféricas inspira “Francisca Travessia”.
As memórias da família e as vivências de uma adolescência viram peças do Identidade Oculta. Desde 2025, o grupo teatral transforma as ruas do distrito do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo, em roteiro e palco para espetáculos.
“A gente parte de entender onde estamos inseridos, reconhecer e pertencer. Nosso trabalho também é levantar a memória daquilo que está sendo apagado”, diz Janaína Soares, atriz e educadora no grupo.
O teatro é uma forma de criar um espaço de escuta e convivência. No coletivo, jovens encontravam um lugar para falar sobre questões do território e construir novas formas de expressão e participação.
“A gente queria falar das nossas angústias, das nossas revoltas, colocar ideias no mundo e se fortalecer. O teatro apareceu como um lugar seguro onde jovens podiam estar juntos”, conta Paulo Henrique Sant’Anna Mendes, diretor, dramaturgo e fundador do grupo.
Fruto de políticas culturais
As experiências também evidenciam a importância de políticas públicas para democratizar a cultura.
Em uma região sem sala de teatro, o coletivo nasceu nas formações promovidas pelo Programa Vocacional no CEU Navegantes, no Cantinho do Céu.
O programa da Prefeitura de São Paulo originou e fortaleceu dezenas de grupos artísticos nas periferias, com espaços de formação e criação.
“Era um espaço de fortalecimento de identidade, de encontrar pessoas que podiam discordar da gente e exercitar a cidadania”, explica Paulo.
Porém, durante muitos anos, integrantes do grupo precisaram conciliar trabalhos formais com a produção artística. A trajetória revela os desafios de fazer arte na periferia.
“Para o jovem periférico existe uma cobrança. Se você não está em um espaço que coloca dinheiro dentro de casa, parece que está perdendo tempo”, explica Janaína, que está no grupo desde 2025.
O acesso a informações sobre editais e programas culturais nem sempre chegava na quebrada. Ainda assim, as políticas públicas culturais foram fundamentais para a continuidade do trabalho.
Além do Programa Vocacional, o Identidade Oculta teve acesso ao VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), ao Fomento à Cultura da Periferia e, recentemente, à Lei de Fomento ao Teatro.
Criado em 2002 pela Prefeitura paulistana, o Fomento ao Teatro é a principal política de apoio a grupos teatrais da cidade, destinando recursos a pesquisas, criação e continuidade dos trabalhos artísticos.
“Quando a gente consegue acessar uma política pública, ela garante que as pessoas permaneçam antes dos processos criativos. Ela mostra para a família e para o próprio artista que aquilo que está sendo feito tem valor”, afirma Paulo.
Além do recurso financeiro, o diretor destaca que o investimento permite que o grupo desenvolva sua própria linguagem.
“O coletivo consegue ficar mais tempo junto pensando, construindo e fortalecendo o processo artístico. A linguagem vai criando memória, e essa memória vira narrativa da cidade.”
Recentemente, o Fomento ao Teatro está no centro de acusações de companhias teatrais, que acusam a Secretaria Municipal de Cultura de tentativa de desmontar o programa por meio de burocracias para desclassificar projetos pré-selecionados.
Cura e pertencimento
O território do Grajaú é personagem central para o grupo.
A periferia é ponto de partida para construir outras formas de contar a cidade e preservar memórias.
“As nossas dramaturgias nascem das histórias que atravessam o território e das pessoas que passaram por ele”, ressalta Janaína.
As memórias de pessoas trabalhadoras, famílias e comunidades aparecem como matéria-prima do grupo, que elabora peças sobre identidade negra, afeto e ancestralidade.
“O nosso corpo carrega histórias de pessoas que construíram essa terra. Tudo isso está nas dramaturgias, no que a gente fala e no que a gente cria”, afirma.
Desde 2024, o grupo tem um espaço próprio para ensaios, oficinas e encontros com a comunidade. Atualmente, a Casa Identidade Oculta recebe atividades gratuitas, oficinas e processos de criação de uma nova produção.
Ao completar 21 anos, em setembro o grupo deve levar às ruas o espetáculo “Òkun: cura mar de dentro”.
Como parte de um projeto apoiado pelo Fomento ao Teatro, a peça faz uma metáfora para a travessia poética existencial, relacionando vivências urbanas e periféricas com forças da natureza e saberes tradicionais.
No Grajaú, o teatro do Identidade Oculta continua sendo uma ferramenta de criação, resistência, pertencimento e denúncia. Uma arte feita a partir do território, mas que amplia suas histórias para além dele.







