Driblando a censura: educação em sexualidade resiste em escolas das periferias de SP

Driblando a censura: educação em sexualidade resiste em escolas das periferias de SP

Mesmo previsto em currículo escolar, educadoras contornam pressão e o medo de represálias para ensinar crianças a reconhecer e denunciar abusos

Compartilhe!

Tempo de leitura: 11 minutos

Ouça esse post

Quando uma família procura a diretora Paula Beatriz de Souza Cruz fora do horário de aula, em conversas reservadas, geralmente é porque algo despertou dúvida ou desconfiança em casa: um comentário do filho sobre corpo, gênero ou um colega diferente dele.

Há quase 23 anos como profissional da educação, ela conta que esse tipo de diálogo direto, sem alarde, é o que evita que o tema da diversidade de gênero e sexualidade vire um confronto público dentro da escola.

É uma rota alternativa à censura: em vez de calar o assunto por medo da reação das famílias, ela antecipa a conversa antes que o desconforto se transforme em denúncia.

“Eu nunca demandei na escola alguma questão sobre isso”, afirma Paula Beatriz, que está à frente da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo (Zona Sul de São Paulo).

LEIA MAIS: Falar de sexualidade e gênero na escola ainda é tabu, aponta diretora trans do Capão Redondo

A atuação vai na contramão do que parlamentares e candidaturas da extrema direita chamam de doutrinação pela “ideologia de gênero”, termo cunhado por grupos conservadores e fundamentalistas para criticar a promoção da igualdade de gênero.

A diretora nunca enfrentou perseguição direta em sua atuação, mas reconhece que esse não é o cenário da maioria.

072026_ Paula Beatriz, diretora escolar no Capão Redondo (arquivo pessoal)

072026_ Paula Beatriz, diretora escolar no Capão Redondo (arquivo pessoal)

Mordaça na sala de aula

A pesquisa “A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática”, do Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE/UFF) em parceria com o Ministério da Educação, constatou que nove em cada dez docentes da educação básica e superior, das redes pública e privada, já sofreram ou presenciaram perseguição e censura no exercício da profissão.

Entre quem sofreu censura diretamente, 58% relataram tentativas de intimidação, 41% enfrentaram questionamentos agressivos sobre métodos de trabalho e 35% tiveram conteúdos explicitamente proibidos.

Os casos mais graves incluem mudança forçada de local de trabalho (12%), remoção de cargo ou função (11%), agressões verbais (25%), agressões físicas (10%), suspensões (2%) e demissões (6%).

Segundo Paula Beatriz, a situação se agravou a partir de 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atribuindo o fenômeno a discursos que ela considera incoerentes: ao mesmo tempo em que dizem defender a família, geram sofrimento e silenciamento dentro dela.

Cortina de fumaça

Para Paula Beatriz, o silêncio sobre sexualidade nas escolas funciona como cortina de fumaça que facilita a ocultação de casos de abuso sexual e violência doméstica, que poderiam ser identificados e prevenidos com apoio da escola.

Outras duas professoras da educação infantil entrevistadas pela reportagem, que pediram para não ser identificadas, dizem que abordam o tema de forma lúdica com as crianças. Porém, reconhecem que o tema é tabu até entre docentes, em que boa parte não sabe como conduzir conversas nem com estudantes, nem com as famílias.

Esse despreparo não é acidental, segundo a educadora em sexualidade Beatriz Cruz. Ela aponta que, quando uma criança não é apresentada à própria sexualidade, fica mais vulnerável à manipulação.

“Tem uma galera que lucra mesmo e que se beneficia com a ignorância das crianças”, afirma Beatriz, que coordena o Lá em casa tá tudo bem, projeto antirracista focado em difundir a educação em sexualidade nas escolas, ONGs e serviços de convivência.

Falta preparo mesmo em datas que deveriam abrir espaço para o tema, como o 18 de maio (Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes).

LEIA MAIS: A escola e a contribuição na prevenção da violência sexual de crianças e adolescentes

Beatriz Cunha, coordenadora do projeto Lá em Casa Tá Tudo Bem (divulgação)

Beatriz Cunha, coordenadora do projeto Lá em Casa Tá Tudo Bem (divulgação)

Para Beatriz, não se deve esperar a data para abordar a questão pela primeira vez, sem preparo para lidar com possíveis revelações de vítimas. Na prática, o que sobra para boa parte das escolas é uma passeata, uma música e flores amarelas – recursos limitados diante da complexidade do problema.

Como sintoma, crianças negras são as principais vítimas de violência sexual no Brasil. Beatriz liga o dado a um processo histórico: desde a colonização, pessoas negras eram tratadas como objetos sexuais e seus corpos continuam sendo lidos socialmente como mais vulneráveis.

Além disso, crianças de periferia costumam ser expostas a contextos sexuais mais precocemente do que em outras regiões. Beatriz lembra, como exemplo de sua própria infância, da facilidade com que CDs de pornografia circulavam nas ruas.

Abordagem lúdica

Para driblar o desconforto e disseminar a discussão, Beatriz Cruz aposta na linguagem lúdica. Em 2020, durante a pandemia, ela escreveu o livro “Carro Cris”, que conta a história de um carro que descobre partes de si mesmo que não conhecia.

A partir da metáfora, crianças e pessoas adultas aprendem juntas o que são as partes íntimas do corpo, como cuidar delas e como denunciar um abuso, guiadas por uma personagem que faz o papel de professora dentro da história.

O livro inspira a contação de  “Meu Corpo é Minha Casa“. A atividade cultural foi pensada para entrar com mais facilidade nas escolas, já que é  uma linguagem prevista nos Projetos Político-Pedagógicos (PPPs).

As diretrizes curriculares nacionais para educação básica apontam que “questões de gênero” devem ser discutidas na construção dos PPPs. E o Plano Nacional de Educação, em seu segundo artigo, prevê o combate a “todas as formas de discriminação”.

“Meu corpo é minha casa”, contação de história inspirada em livro de Beatriz Cunha (foto Renan Perobelli)

LEIA MAIS: Periferias promovem educação sexual na contramão de autoridades conservadoras

Mas boa parte da resistência dentro das escolas públicas vem do medo da reação das famílias, segundo Beatriz: profissionais temem que crianças cheguem em casa sabendo nomear partes do corpo, como vulva e pênis, sem que a família tenha sido preparada antes.

Por isso, ela defende um trabalho em três etapas: primeiro com profissionais da escola, depois com as famílias e só então com as crianças.

Porém, o modelo ideal raramente se sustenta: falta verba para cobrir os três públicos, e o trabalho acaba recaindo no voluntariado. Por trás desse cenário, há um problema maior: a falta de conexão entre escola e comunidade, que mina a confiança das famílias.

Entre o papel e a prática

Apesar da presença consolidada na comunidade, que apoia seu trabalho, a escola da diretora Paula Beatriz não trata diversidade de gênero e sexualidade como tema isolado.

Voltada aos anos iniciais do ensino fundamental, a escola aborda o assunto integrado a projetos de convivência, além de ciências, história, geografia e língua portuguesa.

072026_ Paula Beatriz, diretora escolar no Capão Redondo (arquivo pessoal)

072026_ Paula Beatriz, diretora escolar no Capão Redondo (arquivo pessoal)

Paula Beatriz também segue o programa Conviva, da Secretaria Municipal de Educação, que organiza temas mensais: bullying, cyberbullying e comunicação não violenta. Agosto está reservado para tratar da diversidade de forma ampla.

Segundo a diretora, isso visa garantir o debate do assunto que atrai mais perseguição. “Eu tenho sempre dito para trabalhar a diversidade de uma forma muito ampla, como nuvem”, diz Paula Beatriz.

O tema está em um guarda-chuva maior, que inclui questões etárias, raciais e de talentos. O trabalho gera convites para Paula Beatriz falar com a direção de escolas públicas e privadas.

Para se manter atualizada, ela busca formação contínua oferecida pela Diretoria Regional de Ensino, encaminhando profissionais da pedagogia a esses cursos. A vivência pessoal de Paula Beatriz como uma mulher trans complementa o conteúdo técnico das formações.

A segurança vem do amparo legal: o tema está previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e na própria Constituição Federal.

O currículo educacional da cidade de São Paulo aponta a necessidade de “eliminar todas as formas de preconceito e discriminação, como orientação sexual, gênero, raça, etnia, deficiência e todas as formas de opressão que coíbem o acesso de bebês, crianças, adolescentes, jovens e adultos à participação política e comunitária e a bens materiais e simbólicos”.

Para Paula Beatriz, isso reforça que, mesmo com as tentativas de calar o debate, não há como evitar a discussão. Afinal, crianças e adolescentes LGBTQIAP+ existem e precisam de acolhida. “Hoje eu reconheço que eu fui essa criança trans”, afirma a diretora.

O que eu posso fazer?

Em caso de suspeita ou confirmação de abuso ou exploração sexual contra crianças e adolescentes, a denúncia pode ser feita pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

O atendimento do Disque 100 também está disponível pelo WhatsApp, no número +55 61 9 9611-0100, e pelo Telegram, buscando “Direitoshumanosbrasil”.

Outros canais incluem o Conselho Tutelar mais próximo, o Ministério Público e as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Para famílias que querem abrir o diálogo com a escola sobre educação sexual, especialistas recomendam buscar primeiro a coordenação pedagógica ou a direção para entender como o tema é trabalhado no currículo e quais materiais são usados, em vez de questionar docentes diretamente ou fora desse canal institucional.

A educadora Beatriz Cruz também está disponível e disponibiliza o contato por meio do seu site.

Edição: Thiago Borges

,
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo