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A busca pelo “corpo perfeito” segue presente no imaginário feminino, independentemente de idade ou classe social. O culto à magreza extrema tem voltado a ganhar força e a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” transformou o emagrecimento rápido em meta perseguida a qualquer custo.
Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), medicamentos indicados inicialmente para diabetes tipo 2, ficaram conhecidos pelo efeito de perda de peso e passaram a ser utilizados também para obesidade.
Vendidos apenas com prescrição médica e aplicados com seringas ou canetas injetáveis, os medicamentos têm custo elevado: de R$ 1 mil a R$ 3,9 mil, a depender da dosagem.
Mas isso não tem impedido mulheres de conseguirem acesso às medicações, principalmente as que não têm dinheiro para arcar com os custos para a perda de peso.
É o caso da Ana*, de 24 anos. A jovem moradora da Zona Sul de São Paulo, que tem sua identidade preservada nesta matéria, comprou Mounjaro de maneira clandestina. Nas suas palavras: ela conhece uma pessoa, que conhece outra, que conseguiu trazer do exterior.
Esse tem sido um movimento comum. O noticiário já dá conta da extensão do comércio ilegal da droga no Brasil, trazida principalmente do Paraguai e revendida por um preço muito abaixo do valor de mercado, cerca de R$ 350.
Os produtos são anunciados em grupos de WhatsApp e até no TikTok.
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Autoestima elevada
Em três meses, Ana perdeu 11 quilos e ficou satisfeita com o resultado. Com problemas na tireoide, seu processo de emagrecimento costuma ser mais lento – o aumento de peso ao longo do último ano havia impactado sua autoestima.
O valor que Ana gastou com o medicamento nesse período, com uma aplicação semanal, seria suficiente para comprar apenas uma dose se ela tivesse recorrido aos canais oficiais.
“Seria muito difícil aprovarem uma medicação dessas para uma pessoa da minha idade, porque provavelmente tentariam regular várias outras coisas antes de chegar a esse tratamento”, afirma Ana, que também atribui a decisão ao alto custo.
“O remédio já é caro, e fazer todo o acompanhamento médico encarece ainda mais. Eu não tenho plano de saúde”, completa.
Além de não ter informações sobre a real procedência do remédio, ela também não faz acompanhamento médico nem nutricional, o que aumenta o risco de ter problemas causados pelo uso da medicação.
Ana diz que teve apenas dois efeitos colaterais durante o tempo que aplicou o Mounjaro: enjoo e prisão de ventre.
“Eu tentei continuar comendo a mesma quantidade que comia antes e passei mal. Fiquei indisposta por cerca de dois dias até o meu corpo voltar ao normal. Foi imediato. Terminei de comer e já senti uma sensação estranha no estômago, como se tudo fosse voltar. E realmente voltou”.
Além de comprar o medicamento por vias clandestinas, Ana conhece uma farmácia que comercializa o produto sem exigir receita médica. Segundo ela, uma colega de apartamento, de 37 anos, adquiriu o medicamento dessa forma.
“Conheço pessoas que compravam antidepressivos lá, pagando um pouco mais caro e sem apresentar receita. Quando fomos pesquisar sobre medicamentos para emagrecimento, descobrimos que eles também vendiam esses produtos dessa forma”, afirma.
Os riscos da compra clandestina
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alerta severamente contra o uso de canetas emagrecedoras sem registro ou fabricadas por laboratórios com situação irregular no Brasil, como a Synedica e a TG.

Sheila Domingues, nutricionista que atendeu em postos de saúde nas periferias de São Paulo (arquivo pessoal)
A nutricionista Sheila Domingues, que já atuou em postos de saúde na periferia de São Paulo, explica que um dos riscos é não ter certeza sobre quais compostos realmente estão presentes naquele produto.
“Isso pode trazer prejuízos à saúde e, ao mesmo tempo, não gerar nenhum resultado efetivo de emagrecimento. São medicações que não passam por fiscalização adequada e para as quais não há garantia de que os padrões sanitários e de qualidade estejam sendo cumpridos”, destaca.
Do ponto de vista nutricional, a especialista adverte que o uso inadequado dessas medicações pode causar deficiências importantes, levando ao desenvolvimento de anemia e perda significativa de massa magra. A redução da acelerada de massa muscular pode provocar consequências para a saúde e levar a um quadro de sarcopenia.
“A sarcopenia está associada a diversos prejuízos, como envelhecimento precoce, flacidez, redução da força física e enfraquecimento do sistema imunológico”, explica.
Em nota enviada à Periferia em Movimento, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) da Prefeitura de São Paulo afirma que, por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), realiza inspeções em estabelecimentos do município que comercializam irregularmente canetas emagrecedoras via denúncias recebidas pela Ouvidoria SUS ou de outros órgãos.
Já a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo do governo estadual afirma que todos os casos registrados são investigados para identificar a autoria e responsabilizá-la. No entanto, informou não dispor de dados sobre a extensão desse tipo de crime.
Os entraves para acessar o emagrecimento saudável
A perda de peso, especialmente em casos de sobrepeso e obesidade, é um processo complexo que exige mudanças de hábitos e acompanhamento contínuo.
As canetas vendidas clandestinamente ganham espaço ao serem apresentadas como uma solução rápida para resultados que normalmente demandam tempo e esforço.
No caso da obesidade, considerada uma doença crônica, o tratamento muitas vezes requer o uso de medicamentos, assim como ocorre com outras condições deste tipo.
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Na visão de Sheila, a indisponibilidade desses remédios na rede pública de saúde representa uma limitação relevante para o cuidado e o acompanhamento dos pacientes.
As canetas emagrecedoras não integram os tratamentos oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde), principalmente devido ao alto custo. Em São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde orienta que pacientes procurem uma das 481 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da cidade para receber orientação adequada para perda de peso.
Segundo a pasta, as UBSs realizam ações de promoção, prevenção e cuidado de saúde e nutricional. A rede conta atualmente com 421 nutricionistas e a população pode encontrar o serviço mais próximo por meio da plataforma Busca Saúde (clique).
“Em muitos casos, o paciente consegue realizar atividade física. Algumas UBSs oferecem programas voltados à prática de exercícios, além de contar com acompanhamento nutricional e psicológico. Porém, a medicação continua sendo um ponto frágil no tratamento da obesidade dentro do sistema público de saúde”, destaca a Sheila.
Quando o tratamento é possível e dá certo
A advogada Mayara Araújo, de 30 anos, usa Mounjaro para tratar obesidade e lipedema desde novembro do ano passado. A moradora do Jardim Alpino, no Extremo Sul de São Paulo, perdeu 19 quilos em seis meses.
O tratamento de Mayara inclui acompanhamento médico regular, consultas com nutróloga a cada 45 dias e exames trimestrais para monitorar vitaminas, massa magra e outros indicadores. Além disso, ela também pratica natação, pilates e musculação.
Para ela, isso só é possível porque conta com o auxílio do plano de saúde, inclusive para a compra do medicamento. Ela também tem uma doença chamada Síndrome de Ehlers-Danlos, que causa problemas em todo o tecido conjuntivo e nas cartilagens do corpo – além da perda de peso, o medicamento também ajudou a controlar as dores.
“Eu luto contra a obesidade desde que me entendo por gente. E essa é a primeira vez que está acontecendo de forma tranquila. Eu não tenho perdas extremas de peso por mês (…) Com acompanhamento médico, estou focando na perda de gordura”, relata.
Segundo Mayara, a orientação profissional ajuda a prevenir interações medicamentosas que podem causar complicações graves e, em casos extremos, levar à morte.
“Eu já tive reação alérgica grave, inclusive choque anafilático por causa de medicação. As pessoas, muitas vezes, não se preocupam com o que pode acontecer. Pensam apenas: ‘Eu quero emagrecer’”, afirma.
Ela entende que o Mounjaro não é uma receita milagrosa e que, em qualquer processo de emagrecimento, há risco de reganho de peso. O importante, no entanto, é que ela consiga estabelecer uma relação saudável com a comida e com o seu corpo.
“A obesidade traz riscos importantes para a saúde, mas tomar uma medicação sem saber como está o seu organismo também pode trazer consequências graves.”
O que se vê no espelho
Quando se fala em autoaceitação, é importante entender que não se trata de aceitar passivamente uma condição de sobrepeso ou obesidade sem reconhecer seus impactos.
“Estamos nos referindo à aceitação das características com as quais nascemos e que fazem parte da nossa identidade: a cor da pele, o formato do corpo, os traços físicos e as características herdadas da família. Esse tipo de autoaceitação envolve respeito à própria história e à própria identidade”, observa a nutricionista Sheila Domingues.
“No entanto, existe uma linha muito tênue entre aceitar quem somos e aceitar uma condição que pode levar ao adoecimento sem buscar qualquer mudança”, completa.
Segundo ela, os benefícios da prática de atividade física, por exemplo, vão além da perda de peso, incluindo redução de dores, ganho de mobilidade e a melhoras no cotidiano.
“Isso será útil para carregar uma sacola, levantar e sentar de uma cadeira, caminhar com mais facilidade e manter a autonomia ao longo da vida. Quando penso na alimentação, também estou pensando na prevenção de doenças”, avalia Sheila, que conclui:
“A busca pelo corpo perfeito não tem como foco principal a saúde. A motivação central está relacionada à aparência e à construção de uma imagem estética específica.”
Ana* é um nome fictício usado para não identificar a personagem.
Edição: Thiago Borges. Imagem de capa produzida com apoio de IA a partir de fotos reais







