Negra, jovem, presa no trânsito e com 20 anos a menos de vida: a periferia no Mapa da Desigualdade de SP

Negra, jovem, presa no trânsito e com 20 anos a menos de vida: a periferia no Mapa da Desigualdade de SP

Seis a cada 10 habitantes do Jardim Ângela se declaram de cor preta ou parda, enquanto quase metade da população de Parelheiros tem até 29 anos. Quem mora em Marsilac gasta 71 minutos para ir ao trabalho, que está concentrado no centro. E a diferença na idade média ao morrer é gritante: 62 anos em Cidade Tiradentes ante 82 no Alto de Pinheiros.

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De um ano para o outro, os números se alteram um pouco e algum distrito passa a ocupar o posto que foi de outro território. Porém, há padrões que se repetem: as periferias paulistanas são mais vulneráveis, aglomeradas, desconectadas e passam mais tempo no trânsito do que a média da população da cidade.

É o que revela a edição deste ano do Mapa da Desigualdade de São Paulo, divulgada nesta terça-feira (23/6) pela Rede Nossa São Paulo.

Toda essa diferença impacta, inclusive, na idade média ao morrer: o abismo chega a 20 anos, mas já foi maior (em 2024, foi de 24 anos).

Enquanto uma pessoa vive em média até os 82 anos no distrito de Alto de Pinheiros ou 81 nos vizinhos Pinheiros, Moema e Jardim Paulista, a idade média ao morrer é de 62 anos em Cidade Tiradentes e 61 em Guaianases e Iguatemi (todos na Zona Leste).

Somando os 96 distritos, a idade média ao morrer na cidade de São Paulo é de 71 anos. A média paulistana é maior que em 45 dos 96 distritos da capital. Grajaú, Jardim Ângela, São Rafael e Pedreira (63 anos) voltam a aparecer na parte de baixo da tabela.

Publicado desde 2012, o estudo apresenta 45 indicadores temáticos dos 96 distritos da capital paulista, divididos em 10 áreas temáticas: saúde, habitação, trabalho e renda, mobilidade, direitos humanos, cultura, esportes, infraestrutura digital, segurança pública e meio ambiente. Navegue on-line por aqui.

Quem vive aqui?

Em relação a cor ou raça, 37% da população paulistana se autodeclara preta ou parda. Mas esse índice é maior em 37 distritos, sendo que apenas a Sé (com 38,3%) fica na região central. O percentual chega a 60,1% no Jardim Ângela (Zona Sul), ante 5,8% em Moema (distrito rico também na Zona Sul).

Com 395 mil habitantes, o Grajaú (Extremo Sul) continua sendo o distrito mais populoso da cidade e é o segundo mais negro, com 56,8% da população autodeclarada preta ou parda, que também é maioria em Parelheiros (56,6%), Lajeado (56,2%), Cidade Tiradentes (56,1%), Itaim Paulista (54,8%), Jardim Helena (54,7%), Capão Redondo (53,9%), Pedreira (52,4%) e Guaianases (51,5%).

A população jovem também é maior nas margens da cidade. Quase metade da população de Parelheiros (47%) têm entre 0 e 29 anos – e 11,59% tem até 6 anos, apenas. Na média da cidade, 35,8%% da população é jovem.

Aglomerada e desconectada

Enquanto 7% da população da cidade vive em favelas, na Vila Andrade (onde está localizada Paraisópolis) o índice atinge 35%. Na Brasilândia, chega a 24,7%. E no Sacomã, que contempla Heliópolis, abrigam 23,4% da população do distrito.

Na Vila Sônia, são 22,5% residindo em favelas, enquanto o índice atinge 21,4% da população do Campo Limpo e ultrapassa os 20% no Capão Redondo, Pedreira, Rio Pequeno e Jardim São Luís.

As populações periféricas também vivem a desigualdade digital.

A média de distribuição de antenas de internet móvel na cidade chega a 8 por quilômetro quadrado, mas isso é muito maior na Sé (43 por quilômetro quadrado) ou Bela Vista (42), enquanto o com menor acesso é Marsilac (apenas 0,1), Parelheiros (0,48) ou Anhanguera (0,72).

No cálculo de antenas de internet móvel considerando a população local, enquanto a Sé tem quase 40 antenas para cada 10 mil habitantes, o índice é 20 vezes menor no Jardim Ângela, Iguatemi, Pedreira, Lajeado, Jardim Helena e Sapopemba.

Longe do trabalho e presa no trânsito

As pessoas gastam um período maior nos deslocamentos.

O tempo médio gasto no transporte público no horário de pico da manhã chega a 71 minutos por dia para quem mora em Marsilac (no Extremo Sul), 66 em Cidade Tiradentes, 62 em Parelheiros e 59 minutos no Itaim Paulista ou no Grajaú.

Já quem vive em Pinheiros gasta apenas 25 minutos por dia, em média, assim como residentes da República, Sé ou Barra Funda (26 minutos). A média paulistana é de 41 minutos por dia.

Isso está diretamente ligado à oferta de emprego formal, que se concentra no Centro e é bem menor nas regiões periféricas.

Enquanto na Sé existem 124 postos de trabalho formais para cada 10 habitantes, esse número é de apenas 0,56 em Cidade Tiradentes, 0,59 no Grajaú, 0,62 no Lajeado ou Brasilândia e 0,66 no Itaim Paulista.

Sujeita a vulnerabilidades

Outros marcadores de vulnerabilidade social corroboram a desigualdade social persistente na cidade de São Paulo.

Do total de bebês nascidos vivos, a proporção de parturientes com menos de 20 anos chega a 11,09% em Cidade Tiradentes e passa os 10% em Grajaú, Iguatemi, Brasilândia e São Rafael. A média paulistana é de 5,8%, sendo que no Jardim Paulista é 0,14%.

Já a taxa de homicídios atinge 25,2 óbitos por cada 100 mil habitantes na Sé (Centro) e 17,8 em Marsilac e 16,6 na Cachoeirinha. A média de São Paulo é de 6,4, mas o índice também passa de 10 no Anhanguera, Brasilândia, Cidade Tiradentes, Pari, Parelheiros., Iguatemi, Jardim Ângela, Ermelino Matarazzo, Brás, Capão Redondo, Vila Medeiros, Grajaú e José Bonifácio.

O índice de homicídios de jovens de 15 a 29 anos, cuja média paulistana é de 24,66 por 100 mil habitantes, atinge taxa de 134 óbitos na Sé e 121 em Marsilac.

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